quarta-feira, 30 de junho de 2010

Pára sobre mim o teu luar


Pára sobre mim o luar
neste mar em que me abro
para tocar as margens da tua vontade.
Sente nas veias esta corrente
que os rios me trouxeram com o teu nome.
Flutuam à superfície sílabas de beijos,
alfabeto bordado na vertigem
de me entregar precipício
no livro que não me deixas ler-te.
Pára sobre mim o luar
e verás o sorriso soprar nas velas
das embarcações que dos meus sonhos partem
rumo ao oceano dos teus dias.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Sonho


Sonho-te onda ansiando pela preia-mar para me inundar areal seco pela saudade.

Fronteiras desp[ed]idas


Perco a fronteira do meu corpo
quando em gestos secretos
te lanças em poeira de desejo
sobre meu sono acordado.
Levanto-me dum poente adormecido
para te amanhecer além da ternura,
desnudo-te palavras e gemidos,
perdidos no sangue alvoraçado
que rasga o outono dos teus lábios.
Despeço-me do meu corpo
para entrar no teu
e nada mais quero
do que aquilo que te dou.

No silêncio das palavras não ditas


Procuro abrigo no silêncio
mas apenas sinto o frio
do teu não estar.
De que falam as palavras não ditas
se lhes falta o olhar
que se pede em lábios por beijar?


Insónia


Deito-me
no silêncio em que me deixas,
tento adormecer o sonho
em que voámos
e fico à beira da ponte
que desejo atravessar
... para ti.

Raso


Raso-te
neste voo
onde me [não] queres
de tão raso ser
e tão distante sentires.


Raso-me
neste chão
onde me [não] deixas
ser folha outonal
soprada pelo teu vento.


Raso fico
neste cabo
onde te [não] toco
feito nó atado
enquanto me couberes.


domingo, 27 de junho de 2010

Na estafeta do amor



Passo-te o testemunho
que a noite me despe
e a manhã te veste;
no intervalo
fica uma corrida de fundo
que os corpos testemunham
terem sido testemunho
do amor em que corremos.

sábado, 26 de junho de 2010

... pela tua alma


Cruzo as ruas da tua alma,
como se precisasse confirmar
as águas que em mim tatuaste.
Procuro-me no cheiro,
nas luzes, nas ondas e nos cânticos,
das pildras onde te descansas
e a que prendes o negalho do teu voo.
Num desvario inalante,
encontro-me nos teus gritos
e leio-me nos segredos que não clamas,
ouço-me nos poetas que cantas
e confirmo serem minhas
as sombras com que me cruzo.
Deixo-me em gotas que não verás
e secarão na praça desta espera
feita esperança de alquebrar
o gradeado da tua alma…

Quando o sonho desenha caminhos


Mesmo que não passe dum sonho,
vejo-te as asas passarem no céu
que contemplo, aberto sobre o leito,
onde a saudade me convida a deitar,
faço minhas as palavras que não escreves
e os poemas que não cantas…
e na vela queimando em desejo
ardem os versos em que te invento.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Paradoxo?...


Liberta-me deste labirinto onde não encontro a saída
e abre-me uma porta para o do amor, de onde não me deixes sair.

Cadência



Todas as manhãs
se sentava na mesma mesa,
da mesma pastelaria,
na mesma praça
e pedia ao mesmo empregado
o mesmo café
e um sorriso de sol.
Todas as manhãs
ela passava com o mesmo olhar
de vestido diferente
e do mesmo modo o seduzia.

Ele abria o mesmo caderno
e a vida começava.



Uma manhã
ele sentou-se na mesma mesa,
da mesma pastelaria,
na mesma praça
e pediu ao mesmo empregado
o mesmo café
e um sorriso de sol.
Nessa manhã
ela trouxe o mesmo vestido
mas não o mesmo olhar
e ele adiou
o começo da vida.


quinta-feira, 24 de junho de 2010

Vem [des]arrumar este silêncio



Vem desarrumar este silêncio
onde me sento
onde me perco
onde me pranto
onde me arrumo.

Traz as ondas no mar,
o sal na pele,
o sol no olhar
e a areia nas mãos.

Desordena os meus lençóis
nas ondas cíclicas das marés
e deixa-me lamber-te a pele
para ficar com sede de ti.
Queima-me o olhar
com o fogo que no teu arde
e derrama o conteúdo de tuas mãos
no meu corpo faminto de ti.

Depois sossega
e deixa adormecer o amor.
Vem arrumar-te neste silêncio
que em nós fica no rescaldo da paixão
onde nos acolhemos
onde nos encontramos
onde nos derretemos
onde nos arrumamos.

Vem [des]arrumar este silêncio
que se [des]ordena num chamamento mudo.

… por ti.

Com o brilho do olhar

© grypy


Escrevo-te palavras com o brilho do olhar
quando a alma o inunda de emoção.
São sílabas molhadas na saliva
com que humedecemos os lábios
e abrimos a boca do desejo.
Letras alagadas na transpiração dos corpos
que se fundem no desvario da entrega.
Deslizo sobre a viscosidade do sentimento
que te ofereço em palavras banhadas
pelo brilho do amor com que te escrevo.


quarta-feira, 23 de junho de 2010

Palavras Mágicas III

© Nic Duncan



Quero envelhecer na tua pele o amor que hoje, na minha, rasga sorrisos. Quando a tua pele se tornar uma cartografia de rugas, que consigas ler nelas as avenidas de carícias que os meus dedos em ti deixaram. Que nenhuma tenha ficado por percorrer. E, se nessa altura, eu já tiver partido – de ti, ou da vida – que te valha a pena recordar os dias em que percorri a tua pele com passos de ternura, amor e paixão.



Palavras Mágicas foi um desafio da Mafalda Branco que aceitei com muito prazer. Transcrevo para a Calçada algumas dessas palavras que fui estimulado a deixar por lá.

À noite, à espera dum dia

© staffansladik



Quando a noite esvazia o cais e os abraços partiram com as últimas embarcações que largaram amarras, alongo-me na contagem das marés, enquanto o odor das memórias se dilui nos segredos exalados através das sarjetas do passado. Arrefece-me a pele no constante adiar da tua chegada, interpolada por esporádicos regressos em que não permaneces. Salga-se o sono onde não adormeço e das mãos vazias voam caravelas com mastros alados, procurando a rota dos teus passos para me trazerem silhuetas dos teus sonhos onde me encontrar. Molho os pés no areal onde esquecidas ficaram redes exaustas da faina. Enredam-me na poesia roubada aos cânticos dos cardumes que deixaram, intencionalmente, fugir. Prendem-me a garganta num nó que as mãos não desenlaçam. Não abro os olhos para ignorar serem teia do teu amor a que me algemo, na vontade de esperar por mais um dia no teu acordar.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Diz-me que vale a pena



Diz-me que vale a espera,
que é só mais um tempo,
uma ínfima fracção
desse tempo em que nos despovoámos.
Diz-me que estou enganado,
que as horas não parecem dias,
que as semanas são uma simples jornada
a separar as noites em que nos abraçamos.
Diz-me que vale a espera
mesmo que eu aguarde
e parta quando tu chegas;
são meros desencontros
nos cruzamentos em que nos procuramos.
Diz-me que vale a espera
pois chegaremos antes da partida,
antes que o amor morra.

Qual a data?


Qual a data no futuro para onde os presentes se adiam perpetuamente?

Sonho vazio

© DSent


Pego num lápis de ponta moldável que se derrete em cores diversas de imaginação. Sobre uma superfície transparente, pendurada na vertical, traço esboços de sonhos. Não escolho as cores. Elas auto-elegem-se. Verde para a esperança, azul para os voos, branco para a pureza, vermelho para a paixão, num tom escarlate para o desejo. Há um amarelo especial para um sorriso. Desenho os contornos. Mas os interiores continuam transparentes, vazios. Nesses espaços por colorir, por preencher são visíveis largas quantidades de água. Densa sem que se vislumbre a sua profundidade. Como se fossem poços intermináveis. A vida esvazia-se e esvai-se nas horas intermináveis. Nestas horas dum dia que parece não querer acabar. E eu tento adormecer para esquecer que ainda é dia e a vida não se preenche, não se colora, afundando-se numa transparência de sonhos que não tomam cor. Que não ganham vida.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Como?...


Como explicar que, com o crescer, não são as dores físicas que nos provocam as lágrimas, quando uma criança, espantada com uma ferida cutânea nos inquire: “Pai!... e tu não choraste?!?!...”

domingo, 20 de junho de 2010

...


Peguei num livro e levei-te ao lugar mais elevado que o meu desejo alcançou. Daqueles onde sei gostares de contemplar o chão bem longínquo das tuas asas. Tornei-te protagonista da história que alguém escreveu mas fiz minha. E fugi-te para que voasses no meu rasto. Pousámos numa ilha sem margens, sem raízes e dela fizemos a nossa história. Parti, para ficar no lugar de onde não quero sair. Em ti.

A memória


A memória acorda quando o desejo só é alcançável
pela distância de sonhá-lo

Chama


Chama por mim que estremeço,
faz-te chama que não esmoreço,
sê a chama em que me aqueço
e em chama, em ti me esqueço
das noites em que não adormeço
sem a chama que te peço…
pede-me amor que eu mereço!
Chama…

sábado, 19 de junho de 2010

Onde está?


Só quero ser dia onde a noite se guarde serena
e o sono que me confine às margens da felicidade.
Onde está ela? Onde estou eu? Que teimamos em não nos cruzarmos…
Só quero ser leito onde o meu eu se deite
e repouse em saber acordar no lugar onde nos reencontremos!

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago

imagem recolhida aqui

Descobri-o muito tarde, com As intermitências da Morte. Recusei, após algumas tentativas, a exigência de concentração extrema para colmatar a ausência de pontuação, os períodos e parágrafos longuíssimos. Fiz ‘orelhas de mouco’ a muitas sugestões de leitura, a muitos elogios. Ignorei as opiniões dos que o liam com admiração. Opus-me. Demorei. Até que fui arrebatado pela sensibilidade de pegar num tema com uma facilidade que parecia poder ter sido abordada por qualquer um. É esse, tenho para mim, o dom dos génios: olharem para o quotidiano e, como quem mastiga a refeição que nem sequer questiona como lhe foi colocada em frente, despem-na, inventam-na, sonham-na e fazem-na sentir nossa. Tenho muitas obras de José Saramago para ler. Não sei se terei tantos dias assim para o fazer. Hoje a Morte veio buscá-lo. Atrevo-me a arriscar que também ela já o teria vindo buscar, mas ter-se-á apaixonado por ele e cedeu, preferiu vê-lo escrever mais umas obras. Hoje não resistiu mais e levou-o com ela. Ficam as suas palavras. Essas nunca a Morte as levará. As palavras eternizam-se na necessidade dos mortais que se sucedem, apreender a sensibilidade de quem escreveu diferente.

Transparência



Eu quero ser transparente
quanto as gotas de chuva
antes de tocarem o pó
na vidraça da tristeza.


   Eu quero ser transparente
   como a palavra que inicia o poema
   despida das regras
   para forçar a rima.


      Eu quero ser transparente
      quanto o céu de Primavera
      antes de ser encoberto
      pela neblina estival.


         Eu quero ser transparente
         como o primeiro beijo
         inundado no impulso
         da oferta e da prova.


            Eu quero ser transparente
            como o primeiro suspiro de vida
            com a disponibilidade de quem chega
            aberto para o mundo.


               A transparência é a minha defesa,
                  a minha segurança,
                     a minha força,
                         para acreditar que sou eu!


Será?...


De tanto te perdoar, esquecer-me-ei de me perdoar…
Será que de tanto te tentar compreender,
deixarei de me compreender?


quinta-feira, 17 de junho de 2010

Diferenças


Enquanto uns se escavam em vazios para serem habitados,
outros apenas o deixam ser nos espaços sobrantes.


Seara, sol... tempestade em mim


Poder-te-ia ter sonhado seara alastrando o espectro na indefinição do meu tempo. Em cada manhã poderia ser sol nascendo na tua mão esquerda. Abririas cada espiga, de peito aberto, em direcção ao céu que eu cruzava ao encontro dum voo que acompanharia o teu sonho rasgando-se a sul. Em ti, a sede abriria sulcos no solo de que faria meu chão e onde correria qual ribeiro desbravando cada margem do teu segredo. No final da tarde desceria sobre o teu ombro direito, lentamente, oferecendo-te a chegada da noite e dormiria em ti, num sigilo só nosso, enquanto o mundo julgar-me-ia a contornar continentes. Mas, na realidade, apenas és vento que passas impetuosa pelos meus galhos. Tento-me segurar no tronco com uma vontade de me deixar ir nos teus sopros. Levas de mim folhas e seiva que espalhas pela areia dos dias. E fico à espera que chegues feita brisa. E agrupes cada pedaço de mim no reencontro que procuro. E cada vez que passas ficam em balanço as portadas do meu coração que te abro para que entres e não deixes que se fechem no silêncio do recato. Poder-te-ia ter sonhado serenidade estival, mas desejo-te tempestade perpétua fazendo do meu deserto, arrozal inundado pelas sementes do teu querer que verdecem as palmas da mão que abro, em esperança, para amanhã.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Escrevo o teu nome


Escrevo o teu nome em cada fragrância de tempo que me corta a rítmica das cores, em cuja paleta a história se desenha. Leio, no odor da pele, as tatuagens impressas em mim quando o nome, com que me escreves em ti, se derrete a cada tempo com que inundamos os corpos no derramamento da entrega.

terça-feira, 15 de junho de 2010

... sem poisar


Quero ser voo
no pensamento que prendes nas mãos
em que te seguro a felicidade
e quando cair
que tu sejas o chão onde me deito
para me plantar na tua pele,
feito raiz
no regresso dos segredos
de quem só quer pairar...
sem poisar no tempo partir.


segunda-feira, 14 de junho de 2010

Em pedaços...


Ofereço-te, em pedaços, a vida
e a cada passo em que [para ti] caminho,
nesta entrega em que me desfaço,
mais perto fico do fim…


quinta-feira, 10 de junho de 2010

Linho

© alais-photography



Numa linha de linho
descoso o que voltarei a coser,
há um desfazer
na procura do prazer
de tornar a fazer.

Cubro-te com o vestido de linho
que as minhas mãos te despirão,
faço-o na antecipação
do momento que decido colher.

Deito-te no leito
em lençóis de linho feito
que os nossos corpos em desalinho
deixarão desfeito.

E no teu corpo de linho
desenho um traço de carícia
que apagarei no fogo
com que ao meu te coserei
e em ti me deixarei preso,
por uma linha de linho
que não descoserei.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Voo desfocado *


Passaste por mim num voo desfocado…
ou terá sido o teu voo que me roubou a clareza?
Hoje é na espera que perco o foco do meu olhar
e a invisibilidade torna-se ansiedade de te sentir.
Tremem as asas a que me agarro
até te alcançar com nitidez no voo do meu querer.


* inspirado numa das fotos da exposição 'Texturas e Sensações' - Istambul

terça-feira, 8 de junho de 2010

O postal que não escrevi


O sol põe-se lá longe, para onde a seara foge da noite. Um rebanho parece temer que as espigas se incendeiem, enxameando o céu e distanciam-se do horizonte. Oiço um galopar seco, mas não descubro a montada. Talvez seja o meu coração… Espero. No alpendre, alongam-se as sombras dum arvoredo que traçam linhas paralelas, na cal das paredes; silhuetas incógnitas que imprimem a sua presença como se decidissem ser réguas a orientar os limites do dia. Numa mesa, não muito distante, repousa uma taça envolvida em vidro. Roubo-lhe um recheio de fruta envolto em chocolate. Na primeira mordedura percebo ter-me equivocado na escolha. Eram os teus lábios que desejei sentir derreter na minha boca. Lá dentro ouve-se o movimento que prepara o jantar. Espero. O sol já não se vê quando um bando de grifos rasga o céu. Segue-o um cavalo em corrida determinada. Ou será um coração?... As cigarras introduzem a chegada da noite. Sinto-a acomodar-se no meu colo. Passo-lhe a mão pelos cabelos que não existem. Espero. És tu que, à noite, te deitas em mim. Oiço risos lá dentro. Os talheres e os vidros ensaiam um recital não composto. E eu espero. Que me chames. Para dentro. Para me acordares deste sonho. Onde te espero.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

No fim da chama

© FreshIsrael



Solitário caminha o dia
nas horas em que me perco
em que me perde
em que me perdes
como chama que arde
no escuro onde ninguém entra
no dia que ninguém distingue
feito pavio secando
na sede que se esquece.

domingo, 6 de junho de 2010

Estar vivo *




Debruçou-se sobre o tampo da saudade e com um carvão de memórias traçou os contornos das mãos que desejou sentir percorrer a sua pele, indicando ao sangue o rumo do seu coração.

* inspirado em 'vermelho-sangue'