
O sol põe-se
lá longe, para onde a seara foge da noite. Um rebanho parece temer que as
espigas se incendeiem, enxameando o céu e distanciam-se do horizonte. Oiço um
galopar seco, mas não descubro a montada. Talvez seja o meu coração… Espero. No
alpendre, alongam-se as sombras dum arvoredo que traçam linhas paralelas, na cal
das paredes; silhuetas incógnitas que imprimem a sua presença como se
decidissem ser réguas a orientar os limites do dia. Numa mesa, não muito
distante, repousa uma taça envolvida em vidro. Roubo-lhe um recheio de fruta
envolto em chocolate. Na primeira mordedura percebo ter-me equivocado na
escolha. Eram os teus lábios que desejei sentir derreter na minha boca. Lá dentro
ouve-se o movimento que prepara o jantar. Espero. O sol já não se vê quando um
bando de grifos rasga o céu. Segue-o um cavalo em corrida determinada. Ou será
um coração?... As cigarras introduzem a chegada da noite. Sinto-a acomodar-se no
meu colo. Passo-lhe a mão pelos cabelos que não existem. Espero. És tu que, à
noite, te deitas em mim. Oiço risos lá dentro. Os talheres e os vidros ensaiam
um recital não composto. E eu espero. Que me chames. Para dentro. Para me
acordares deste sonho. Onde te espero.