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domingo, 17 de março de 2013

Mulher ou Cidade



atravessa-te um rio;
com horizonte
onde todas as tardes
desce em poente
o desejo dos olhares
e dos homens.
suas margens
são lábios que não beijam,
morros humedecidos,
secretos escorregões,
sonhos de meninos.
procuro-te
em ruas por descobrir,
em noites por conquistar.
que importa
se és mulher ou cidade,
se é em ti
que quero me perder?

COSTA, João in "entre o sono e o sonho - Antologia de Poesia Contemporânea Vol. IV", Tomo II - página 39, Chiado Editora, Março 2013

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A Luz entre Oceanos


As palavras não rebuscam qualquer sublimidade literária. Mas arrastam-nos para um oceano de intensidade, no qual nos queremos manter náufragos, flutuando sobre cada pormenor da narrativa. É uma história que se sente por dentro e se acompanh
a no sabor das marés ora beijadas pela tranquilidade, ora assoladas por tempestades. É um livro sobre amor. Ou sobre amores. Das suas forças, das suas mágoas, do quanto poderão silenciar a razão, do quanto poderão ser feridos por ela. É uma obra que confronta os instintos e a racionalidade. É um livro em crescendo de emoção. E comoção. Toca-nos porque nos perturba, como um oceano intimado por ondulações. Leva-nos para lá, para o âmago das cenas que, ainda que estranhos, contemplamos a partir de dentro. “A Luz entre Oceanos”, de M. L. Stedman é uma prova de que o amor pode ser uma teia de laços indestrutíveis.

M. L. STEDMAN . A LUZ ENTRE OCEANOS
Editorial Presença, Julho’2012

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O Prisioneiro do Céu

Num regresso ao universo dos livros esquecidos e de autores malditos, Zafón leva-nos pela Barcelona franquista, num enredo de ficção que esbate fronteiras com a realidade duma Espanha sob a batuta da ditadura. Em O Prisioneiro do Céu, um livro abre-nos as páginas do passado dos protagonistas e arrasta-nos para as memórias dum cárcere político, narradas com tal pormenor e sentir que quase se julga impossível que o autor não o tenha vivido na pele. Num exímio e contínuo revelar de detalhes da vida espanhola do pós-guerra, a ‘história’ da vida dos Sempere é revelada. O Prisioneiro do Céu é um labirinto em que corremos pelos enigmas e tensão usados pelo autor na sua escrita, a qual transporta sempre tal dose de sentimento que todos os factos se nos afiguram verídicos. Mas Zafón, através da sagacidade de Fermín, usa também o humor condimentando a obra com um rasgo muito próximo da perfeição. A mim, esta mais recente publicação do escritor catalão, devolveu-me o entusiasmo de leitura experimentado com A Sombra do Vento. E ao chegar ao fim, fica a vontade de repegar nas duas obras que antecedem O Prisioneiro do Céu, para [re]organizar todos os detalhes duma teia em torno da família Sempre, do Cemitério dos Livros Esquecidos e do fascínio por uma Barcelona acinzentada por mistérios que nos prendem, arrepiam e emocionam.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

"Os Adeuses" de Juan Carlos Onetti

imagem recolhida aqui

Quando o corpo nos elege como membro duma elite distinta da maioria dos humanos, não é fácil admitir que, um dia, esse mesmo corpo se transformará e nos devolverá à generalidade dos mortais.

“Os Adeuses”, de Juan Carlos Onetti, é um olhar dissecador dum narrador sobre a recusa dum homem em admitir a não eternidade da sua fisicalidade; é o conjunto de intuições de quem vê nessa denegação a irrecuperabilidade da doença. Esse homem é, simultaneamente, um vértice e o centro dum triângulo que o leitor é levado a gerir de acordo com as apreciações do narrador.

Mas esta novela, do autor uruguaio falecido em Madrid, é também uma colecção de lições de vida, um espelho em que subitamente nos vemos reflectidos e, ainda que não envolvidos na narrativa, quase nos sentimos participantes da mesma. A escrita de Onetti é também inspiradora. Amiudadas vezes é possível determo-nos num dos seus períodos, tomá-lo como nosso e iniciar a descrição duma parte da nossa vida.

“Os Adeuses” é um livro para ler no máximo de concentração, tantos são os detalhes que nos são oferecidos e na sua maioria com igual importância para a compreensão da obra.

Na edição de Abril de 2009, da editora Relógio d’Água, “Os Adeuses” tem cerca de uma centena de páginas. Ao chegarmos à última delas, e também por culpa do sugestivo posfácio de Wolfgang A. Luchting, fica-nos a vontade de o recomeçar, para recuperar pormenores que nos terão passado omissos… para nos reencontrarmos em páginas que não escrevemos.



Obrigado João Lima, pela sugestão!!!