segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Caminho vazio


... quando não consigo escrever no silêncio as palavras à espera de resposta.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A ilegibilidade no peito



Há momentos em que a incompreensão
se me embebe no peito
e não sei se a solidão trouxe a saudade,
se foi esta que se vestiu de isolamento…
como num remoinho de maré
obstruem-se os ventos que já fizera voar em impulsos
páro sem saber
se use os óculos,
a caneta
ou o aparelho auditivo,
sinto-me cego, mudo e surdo…

Há momentos em que o olhar do coração fica opaco
e os sentimentos se tornam rascunho por decifrar…
e não sei se a tristeza se escreve com sorrisos
se são as lágrimas que resolveram descrever a alegria…
chovem dúvidas
na planície fertilizada pela crença,
trovejam vertigens
na durabilidade do caminho…

Há momentos em que a loucura cega,
a leitura não reconhece a escrita
e as palavras são indizíveis.

Há momentos de incompreensão
que me habitam o peito…
serei ilha no oceano?...
ou o mar apoderou-se de mim?

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Com os olhos na pele



... quando o silêncio rasga uma estrada de solidão entre vontades erguidas no querer!

Ao luar



Despe-te como a lua
e entra pela mais pequena fresta
do meu desejo.
Banha com intensos feixes de luz
cada pedaço do lençol
onde me deito.
Com estilhaços de beijos
traça sulcos de ternura
na pele seca pela espera.
Deixa que as minhas mãos
sejam arado em descoberta
da virgindade duma nova noite.
Franqueia-me teu corpo
para mergulhar no abismo
de onde subirei em prazer.
Traz no cabelo estrelas
que me queimem em carícias
e com as cinzas de mim
planta uma seara de memórias.
Estende tua nudez  de mulher
no leito onde te sonho
e mostra-me que o vazio
é uma ilusão do querer[-te]!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Paulo de Carvalho no Teatro da Trindade

imagem recolhida aqui

Num novo final de tarde, reunidos na intimidade da sala principal do Teatro Trindade, foi-nos proposta uma viagem de pouco menos de sessenta minutos por homenagens a autores portugueses e do mundo. Fomos levados pelo Tejo, passámos Abril, visitámos as sonoridades latinas, lembrámos memórias de há três décadas atrás e ainda demos um pulo a África.

Ouvimos as palavras de Agostinho da Silva, de José Carlos Ary dos Santos, do cubano Silvío Rodriguez, do argentino Atahualpa Yupanki, do autor/intérprete que pisava o palco e as melodias do compositor José Calvário. Da surpresa das palavras cantadas do filósofo, à confirmação eterna do poder da escrita de Ary, passando pela homenagem a dois autores hispanos, foi sem dúvida, em canções como Gostava de vos ver aqui, Flor sem tempo ou E depois do adeus que o público, enchendo a plateia e significativa parte do balcão, se reviu e participou de forma mais marcante.

Paulo de Carvalho sentiu necessidade de dar novas roupagens a canções que moram nas memórias com as sonoridades originais. Ainda que respeitando a vontade de actualização, não creio que seja necessidade recusar o que nos atribui o lugar que conquistámos. Muito curiosa foi a interacção do cantor/autor com o pianista cubano Victor Zamora que o acompanhou e nos premiou com interessantes incursões muito pessoais por temas que, como já referido, nos são extremamente familiares nas suas versões originais.

Ainda que significativamente aplaudido, não creio que Paulo de Carvalho tenha conseguido tocar profundo naqueles que ali se deslocaram, porventura, na expectativa de recordar. Considero ainda desnecessária a veemência duma constante referência, em tom demasiado contestatário, à indiferença com que se sente tratado na actualidade. O final chegou com um coro ampliado relembrando Os meninos de Huambo.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Vontade por satisfazer


Pudesse eu, à hora da despedida, subtrair-lhe o último minuto…

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Vens?



Anda!
vem daí!...
ensina-me a acreditar
naquilo que quero
abraçar…

… que o tempo é uma esquina
à espera da nossa vontade
para a dobrar.

E quando o decidirmos
veremos uma janela,
aberta de par em par,
libertando o vento que há nos peitos
e fazendo-nos voar.

E ao sobrevoarmos o caminho
encontraremos a planície
onde as horas planam
e de que fizemos morada do sonho.

E uma nuvem perguntar-nos-á
se queremos pousar…
na tua mão nascerá a palavra,
resposta que os teus olhos encobrem.

De pés descalços
desceremos sobre a sombra,
calçaremos a terra que pisarmos;
do tronco da memória
resgataremos o amanhã.

Anda!
vem daí!...
ver o meu querer,
acreditar…

Vens?

sábado, 23 de janeiro de 2010

Sutra


imagem recolhida aqui

Os instrumentistas surgem-nos como intérpretes duma fotografia que nos é revelada com característica de ‘marca d’água’. É o primeiro sinal do cuidado, do bom gosto e da qualidade impostos aos elementos cénicos. Sucedem-se, numa desmultiplicação inebriante, imagens fascinantes jogadas com os cânones dos dezassete monges chineses e das caixas que lhes servem de habitáculo, de refúgio, de esconderijo, de escudo…


Poder-se-ia considerar que o bailarino ocidental determinaria e controlaria a organização de todo o espaço e dos movimentos conjuntos imprimidos às caixas. É mais um momento cativante quando são, por ele e em simultaneidade, movidas as maquetas das peças com que os monges enchem o palco numa organização milimétrica. Acabar-se-á, porém, por revelar domado pela força dos que usam a mente para conduzir a vida.


Sutra desenvolve-se numa sucessão talvez exaustiva e porventura demasiado circense de movimentos típicos das artes marciais, de que os monges chineses se revelam exímios executantes. Irrepreensível e admirável a composição matemática com que Sidi Larbi planeou e pôs em prática a animação das caixas, sedutora a panóplia de ideias que lhe permitem atribuir incontáveis utilizações dessas mesmas caixas. Contudo, no final, fica a sensação de que a obra é apenas isso… uma mostra das possibilidades do corpo, quer enquanto intérprete único, quer explorando a sua relação com uma caixa de madeira. Faltará uma mensagem mais forte, uma transmissão de sentires que dialogue com a pele. Será impossível aliar a emoção e o cálculo?

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Água e Fogo




Nasceste como um ribeiro, em cada quotidiano passando o teu percurso na margem onde sentado inquiria o tempo. Olhando a nascente retalhava os erros, identificava os obstáculos, tentava apagar os dias. Evitava olhar na direcção oposta. Não sei se era o céu, se a minha perspectiva. Demasiadas nuvens afiguravam-se impossíveis de dissipar. A crença estaria algures escondida sob um rochedo naquela direcção. Ou talvez não. Simplesmente num galho ao alcance duma mão aberta.


Sem saberes, sem que o percebesses eram matinais as tuas marcas onde uma sede não identificada bebia goles de carinho. Fui embarcando nessa corrente que fazias passar por mim, acordando as manhãs e adormecendo as noites. O leito ganhou volume e ao dar por isso era corrente dessa força com que um dia, nasceste em mim.


Do céu caíram raios. As nuvens perderam espessura. O calor invadiu as águas. Labaredas incendiaram os dias e o fogo começou a queimar as horas. Ardemos em cada momento e aprendemos a matar a sede no lume do inadiável.


Hoje, quando os quereres consomem o mesmo tempo, há um sol brilhante em cada peito, sulcando sorrisos na palma das mãos abertas à necessidade de se darem. Mas os fogos queimam e nem sempre se aliam. Então é necessário regressar à água. Nela procurar esses goles que desejo beber com a precisão de encontrar intensidade no amanhã…

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Nº 18


imagem recolhida aqui


(…) olhou-os de soslaio tamborilando o ritmo das canções que partilhavam. Confirmou, agora ao vivo, a atracção sentida desde a primeira vez que, sem essa intenção, lhe haviam sido revelados. Como quem conta, num filme, a história duma vida, em poucas horas se escreveu um conto que ganhou existência na concretização de palavras trocadas, sementes germinando sentimentos, certezas paulatinamente acordando com batidas rítmicas. A tentação de lhes chegar acabou por ser mais forte. A sensibilidade de quem toca sentiu-a como se molhasse a pele num ribeiro fresco aberto sob uma caminhada em tarde de Verão. Percebeu que os passos seguintes seriam um caminho sem retorno. Mas não seria necessário roubar fatias ao tempo. Antes que esperasse, ainda que desejasse, as mãos cederam. O pretendido, adoptando a ocasião inesperada, valorizou o instante. Os seus entrelaçaram-se naqueles que contemplara. Sem que pedissem permissão. Com a convicção de que a vontade era mútua. Tornaram-se pacto não escrito, zeladores dum querer inspirado. Escrevem linhas soltas na impossibilidade de controlar. E perdem-se entre carícias arrebatadas, ternuras brandas… abrindo janelas para depois, sossegando corredores de hoje, desenhando na longitude dos peitos a fronteira do desejo, traçando o limite do desfiladeiro onde os corações se unem e eles são testemunhas, juízes e réus sentenciados a não se apartarem. Hoje sorriem contornando-se na eterna vontade de se abraçarem…