Fazia
escuro quando o viu na sua frente. De olhos fechados. Sem tempo para lhe
perguntar de onde viera, correu na sua sombra ainda que não houvesse luz para a
projectar. Precipitou-se para o chão sem pensar o que calçar, com que
se abrigar. Ou, inadvertidamente, percebera que iria caminhar sobre o algodão das
nuvens… como melhor poderia sentir a textura do caminho que lhe iria ser
aberto? Abriu a porta e partiu na sua busca sem avaliar o frio com que a noite
a abraçaria. O breu do céu imiscuía-se no negro da estrada. O destino convergia
no limite que o olhar alcançava, no horizonte perceptível sob o brilho
artificial da iluminação pública. Para onde desaparecera? Ter-se-ia escapado
para alguma transversal? Ou simplesmente dissipara-se? Entre pensamentos,
estratégias e desencantos, sentou-se e não deu pelo dia clarear. Não sabe por
que eternidade esperará… quantos desejos a tomarão para o ver real…
Uma calçada para subir com o fulgor da paixão e descer com a convicção de regressar. Um espelho de momentos de contemplação, em que sentado num degrau observo, ouço e sinto privilégios que me sejam concedidos. Um lugar de recato onde semear divagações será a forma de descobrir novos caminhos.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Nas páginas dum olhar
Acho que
Emerson escreveu algures que uma biblioteca é uma espécie de caverna mágica
cheia de mortos. E esses mortos podem renascer, podem voltar à vida quando
abrimos as suas páginas.
Por falar no
Bispo Berkeley, lembro-me de que ele escreveu que o sabor da maçã não está na
própria maçã – a maçã não se saboreia a si própria – nem na boca de quem a
come. Requer um contacto entre as duas. O mesmo sucede a um livro ou a uma
colecção de livros, a uma biblioteca.
Na verdade, o
que é um livro em si? Um livro é um objecto físico num mundo de objectos
físicos. É um conjunto de símbolos mortos. E então chega o leitor certo e as
palavras – ou melhor, a poesia por trás das palavras, pois as palavras em si
são meros símbolos – saltam para a vida e temos uma ressurreição da palavra.
(…)
Platão fala
de livros num tom algo depreciativo: «Que é um livro? Um livro, tal como um
quadro, parece um ser vivo; e contudo, se lhe perguntarmos alguma coisa, não
responde. Vemos então que está morto.» Para tornar o livro uma coisa viva,
inventou – felizmente para nós – o diálogo platónico, que enuncia as dúvidas e
perguntas do leitor.
JORGE LUÍS BORGES in Este Ofício de Poeta, pág. 9, 10, 13, Teorema, Fevereiro 2002
Era um livro igual a tantos outros, no meio de tantos
outros, numa prateleira duma estante que, por sua vez, era igual a tantas
outras. Nada mais tinha do que palavras. Iguais a tantas outras. Palavras… sinais
de escrita em quantidade finita, cuja arte se reserva aos que lhe concedem uma
arrumação própria, pessoal e diferente das demais.
Uma vez por outra era retirado da estante e sobre as suas
páginas passavam olhares fugazes uns, mais demorados outros. Sentia que as suas
páginas ganhavam vida quando um olhar permanecia mais tempo e lhe personalizava
as palavras. Voltava a ser arrumado e esbatiam-se aquelas ilusões efémeras de
vida.
Um dia, umas mãos diferentes seguraram-no. Sentiu um olhar
distinto sobre a sua lombada. Era especial a forma de o folhear. Havia uma vida
diferente a dar sentido às suas palavras. Quando voltou a ser colocado na
prateleira, sentiu-se único entre tantos exemplares, há tanto tempo, iguais a
si.
Poucos dias depois, as mesmas mãos voltaram para o escolher,
o mesmo olhar atribuiu novos significados às suas mesmas palavras e quando as
suas páginas foram fechadas, sentiu-se ficar aberto para poder sentir cada raio
de sol a beijar-lhe cada parágrafo, a iluminar-lhe cada linha, a aquecer-lhe
cada vocábulo.
Aquela sinergia repetiu-se dia a dia. E ele empenhava-se por
enfatizar cada palavra. A cada dia procurava uma nova cor para cada uma delas. A
cada dia sentia rasgar-se-lhe um sorriso em cada sorriso secreto que nascia no
peito daquele olhar que o lia e que a partir dele traçava voos onde só os
sonhos sabem planar.
Deixou de ser devolvido à estante. Passou a ficar num local
diferente, especial. Num local onde conseguia ouvir um bater ritmado duma
máquina que, de tempos a tempos, se espaçava por força dum suspiro mais
prolongado. Nas suas próprias páginas era possível testemunhar um pulsar
marcado pelo fulgor, pelo fascínio, pela realização.
No silêncio permanecia um diálogo entre o que estava escrito
e o acto de ler. Uma permuta contínua mantinha acesa uma chama entre as
palavras que se desejavam lidas e o olhar que as desejava procurar… entre a
necessidade de dizer que tinham sido escritas para aquele olhar e vontade de
saber que eram unicamente para aquele olhar, as linhas ali impressas.
As suas páginas passaram a ficar abertas. Assim se detinha o
olhar que as lia. Como se não houvesse tempo para desperdiçar. Como se cada
segundo que não fosse consumido na leitura representasse uma perda
irrecuperável. A ansiedade contava o tempo em falta para o próximo momento de
partilha. Por mais repetidas que fossem as palavras, por mais duplicadas que as
leituras se fizessem, renovava-se a vontade do querer dizer, do querer saber,
do querer descobrir, do querer confirmar. Uma aprazível sensação confundia a
realidade. Ter-se-ia o mundo encerrado nas suas páginas? Ou seria aquele olhar o
do mundo inteiro? Nada mais existia para além daquela espontaneidade que mantinha
tensa a ligação entre as palavras e o olhar. Não existia espera. Tão só a
expectativa de saber quando chegar.
Uma noite, as suas páginas estavam, como em tantas outras,
abertas na avidez de serem lidas. Passaram longos minutos sem que o olhar
chegasse. Reprimiu-se em incontáveis razões para não se sentir esquecido.
Obrigou-se a compreender, a tolerar, a admitir que se excedia nas esperanças
com que assumia a realidade. Mas estranhou e não conseguia compreender por onde
se esfumara o que ainda ontem sentira como necessidade. Temeu. Perderam
coloração, sonorização, sabor, projecção, intenção, as suas palavras. Sem que
percebesse porquê sentiu pobres as suas palavras que aquele olhar enriquecera.
E ainda que as suas páginas se mantivessem abertas sentiu-se fechar numa
história impenetrável, inviolável, solitária, não partilhável.
Sentiu-se frio e estéril quando o olhar regressou.
Pressentiu procurar-lhe a vida que ficara distraída, mas sentia-se lenha húmida
que tentavam atear. O lume tinha dificuldade em pegar. Havia uma vontade
racional a tentar devolver o ardor ao que antes se incendiava por urgência. Não
conseguiu restituir o entusiasmo das palavras à sede do olhar que o tinha mergulhado
na insaciabilidade. Sabia que precisava da vida do olhar para que as suas
palavras tomassem vida. Era nesse fogo que as suas palavras ardiam para aquecer
o olhar. Como a lenha não arde sem lume, as páginas dum livro são um conjunto
de palavras inanimadas se não sentirem a vontade de serem lidas. E um olhar
passará sobre elas sem lhe descobrir a intenção de ali estarem porque foram
escritas para serem lidas por ele. São os olhares que dão vida às palavras. Será na necessidade de serem lidas que as palavras se escrevem.
O testemunho das chamas
© cm
Quando o sono é uma ilusão da noite
acordado pela inevitabilidade das palavras…
Quando o desabrochar das pétalas é uma vontade
quebrante da película cristalina de orvalho
adormecida na madrugada…
Quando os dedos desenham
lagos de arrepios nas lajes das carícias…
Quando as horas estilhaçam
em minutos despertos pelo desejo…
Quando uma prece se extingue
no ofegar esgotado dos corpos…
Só as chamas testemunham
o ímpeto dos rios correndo
no fogo que os incendeiam.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
O incêndio do silêncio
O silêncio
varreu a seara, queimando cada rebento de expressão, desabrochado com a urgência
do excesso num peito habitado pela paixão. Intempestivamente, o prado verde
converteu-se num babel desértico e mudo. Amareleceram os vocábulos traídos na
espera e moradores nas margens da corrente, onde fluíra a impetuosidade em que
embarcavam sem indagar para onde eram impelidos. São cinzas ressequidas, as sílabas
planando sobre torrões indecifráveis, soluçados e expelidos pelo nó da garganta,
emudecida em rasuras de indecisões. Mais além, num cenário desfocado pelo
humedecimento do olhar, uma palavra salta a cerca delimitadora da incineração.
Miragem? Ou uma réstia de esperança em que, encontrada a réplica, o diálogo
reacenderá a emoção?
Temo...
Poderão as palavras tornar-se desnecessárias?
Poderá ser desnecessário o dizer?
Poder-se-á ter o que não dizer?
Temo que um vazio no peito seque a boca,
temo a infertilidade da escrita e da voz.
Temo o adiamento inconsciente
Poderá ser desnecessário o dizer?
Poder-se-á ter o que não dizer?
Temo que um vazio no peito seque a boca,
temo a infertilidade da escrita e da voz.
Temo o adiamento inconsciente
do que tantas vezes foi urgente.
Temo o calar por não saber dizer
o que tantas vezes nem pensado foi
de tão necessário ter sido revelar.
de tão necessário ter sido revelar.
Poderá o sentimento ser
uma ténue aguarela
esbatendo-se em memória
no tem[p]o?…
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Gosto dos rios...
Gosto dos rios quando correm intensos
tendo como meta o êxtase,
impetuosos alagando as margens,
não refutando dádivas,
saciando a sede das mãos que os contemplam.
Gosto dos rios que correm serenos
inspirando a poesia e o olhar,
lânguidos estendendo o seu querer,
como subtis adulações,
embevecendo o peito que inspiram.
inspirando a poesia e o olhar,
lânguidos estendendo o seu querer,
como subtis adulações,
embevecendo o peito que inspiram.
Gosto dos rios que dormem no leito
confiantes na espera da mareagem,
desfraldados em abraços silenciados,
como um lar que se franqueia
na tensão dum colo enamorado.
Gosto das memórias que se escrevem
como limos nas pedras dos rios,
Gosto das memórias que se escrevem
como limos nas pedras dos rios,
juncando a história com os ritmos
onde folhas espalhadas secam
na expectativa de serem colhidas
numa noite por adormecer.
onde folhas espalhadas secam
na expectativa de serem colhidas
numa noite por adormecer.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Os sonhos
Como quem teme enfrentar a luz, os sonhos vivem na extensão
dos silêncios que se abrigam nas palavras por dizer. Como reféns permanecem
enclausurados num território hermético entre a esperança e a contenção. Ficam
prisioneiros, mais do que da vontade, de universos que não se vislumbram.
Crescem, arrumam-se, esquecem-se. Contraem-se perante as grades da razão. Ofuscam-se
por detrás da opacidade do cepticismo. Num recôndito espaço dos pensamentos,
teimam em não ganhar voz. Cativos dos segredos, abortam voos que imaginaram
serem capazes de realizar. Até que um sorriso ilumina a parede exterior da cela
onde se embrenharam. O calor da confiança aquece a pele do acreditar. Balbuciam
as primeiras sílabas. Abre-se a portada da janela por onde a felicidade romperá
frestas. E sustidos por uma mão a que se agarram, descerrarão pálpebras, enfrentarão
a luminosidade e serão abraço comungado por quem alcançar o seu voo numa
estrada rasando os céus da liberdade.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Sentires 'alheios' que me pertencem
Das palavras nasci e a elas volto quando as mãos e o olhar
me encarceram nesta ausência em forma de cela.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Caminhos no tempo
Quero caminhar e sentir-te do meu lado!
Quero sonhar e saber-te do meu lado!
Quero viver e ter-te do meu lado!
Ao teu lado o tempo deixa de ter querer
e enquanto caminhamos, vivemos
e ao teu lado sonho que o tempo
não tem tempo para se esgotar em nós!
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