quarta-feira, 10 de março de 2010

História em continuação


Era uma vez uma noite em que as palavras se abraçaram à vontade e abriram janelas de vida. Solto num imaginário incandescente, o sentimento correra em mensagens que esboçavam olhares ansiosos dum peito onde aportar. Nessa noite, as pedras da calçada testemunharam o prazer não revelado dos passos caminharem juntos. Os olhares confirmaram o apetite até então por provar. Enquanto os corações aprendiam a sintonizar o ritmo, foram as mãos que os aceleraram por uma via repentinamente mais vasta do que a galáxia por onde as palavras se haviam atrevido entrar. O dia preparava-se para a sucessão quando um abraço pedido desaguou num beijo sem fronteira, horizonte ou norma. Libertava-se a inibição numa planície de tempo por segurar. Degustaram-se os paladares das bocas franqueadas sob o suster duma circulação que descobriu novas veias para percorrer. Hoje, quando a cabeça pousa no seu regaço, mesclam-se imagens num álbum por organizar. Esquecera-se da máquina fotográfica, do relógio, da folha branca e do lápis em punho. Registou na memória pormenores que se apoderaram de vida própria. Permanece uma ténue neblina sobre a precisão, ainda que se revele inconfundível a história naquela noite iniciada. Repousa a paz em degraus por escalar, porque amanhã novo dia se acrescentará a esta narrativa em que as palavras se abraçam ao desejo de nova página desfolhar.

terça-feira, 9 de março de 2010

Post it


Quando o teu olhar se mareja em felicidade, não são lágrimas que jorram, mas cristais de diamante que desejo sorver para guardar
num cofre alojado no meu peito.

O comboio da noite


O comboio da noite
passa pela linha do tempo.
Partiu do cais do adeus
entre despedidas remotas e breves,
atravessa estações de receio,
vales escondidos em insónias.
Sobe montanhas de dúvidas,
planaltos áridos de suor.
Acelera por planícies sem sombra,
recolhe silhuetas de ansiedade,
cruza pontes de desejo,
desce em vertigens de sobressalto.
Estremece os pilares do sono
e sufoca descarrilado em pesadelos…
O comboio da noite
franqueia as portas do sossego
e só adormece
quando a manhã acordar…

segunda-feira, 8 de março de 2010

Instantes rasos ao mar


Há um fado que entra mar adentro
quando as ondas ecoam arrepios na memória,
entregam-se águas que já se pertencem
sob constelações cintilantes
com morada num céu adormecido.
Desenho na palma da minha mão
o grito crescente dos teus passos
e num percurso de chegada irregressível
fazes do teu corpo, o mar
onde escrevo versos para mais logo lembrar.


Deixar de ver, de Pedro Cláudio



Deixar de ver, exposição de Pedro Cláudio patente na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, é uma contemplação de paisagens sonegadas a sonhos e extrapoladas para uma realidade, algumas vezes, intencionalmente difícil de identificar. Algumas das imagens, concebidas pelo fotógrafo integralmente a partir de poemas de Ricardo Reis, comungam de ambiências que nos permitem agrupá-las em universos característicos. Poderão ser neblinas indefinidas, ou desfocagens dissimuladas, adivinhando vultos no caminho do sonho. Poderão ser perspectivas que se abrem para o céu, instantes congelados pelo olhar revelando cartografias de leitura multifacetada. Voos sem limite acabando por aterrar na bainha do sol. Astros perdidos na definição de serem estrelas ou planetas iluminados pelo sonho de terem luz própria. Fronteiras na distinção entre o ver e o fantasiar. A força dum rochedo reinando no centro do mar ou a fragilidade dum ponto cardeal na imensidão cinzenta do céu. A luz natural dum dia acordando uma montanha, ou a luz artificial, projectada e cruzada a partir do interior de duas portas abertas frente a frente, entre a magia do dizer e entorpecimento de deixar de ver, para vaguear entre as palavras e as imagens.

domingo, 7 de março de 2010

Certezas II



Eu quero viver na longevidade dos rochedos, para que as certezas de hoje perdurem para além do meu tempo e as dúvidas sejam grãos de areia levadas em cada maré.


Regresso à realidade


Por instantes
esqueço os passos incógnitos
onde, perdido,
encontro um rumo sem destino.

Existem pétalas de Primavera
nesse olhar em que, momentaneamente,
o Inverno se desfez.

Cobre-me uma ténue película
com que a pele se sente
em erupção de felicidade.

Sem olhar, vejo-me no espelho
onde no cerne do meu caminho
há um rosto sem carne
com o sorriso triste da sapiência
tingindo no muro da solidão
a extinção da ilusão
nas pegadas do meu futuro.

sábado, 6 de março de 2010

Questões de tempo


Viver é um verbo presente que, por vezes, sonha encontrar no futuro a possibilidade de reviver o passado.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Mafalda Arnauth



Desta vez, foi Mafalda Arnauth que me levou de regresso ao ciclo de concertos íntimos que o Teatro da Trindade e a Fundação INATEL vêm promovendo nos finais de tarde, de três quartas-feiras de cada mês. Como a própria referiu, terá sido uma fuga rápida ao projecto Rua da Saudade, num regresso ao estilo que mais lhe pertence. Nunca a ouvira ao vivo, mas como apreciador da sua voz e de algum do seu reportório, não poderia desaproveitar a oportunidade.

Mafalda Arnauth tem uma figura que se impõe quando pisa o palco. Pareceu-me que a conversação com o público não será dos seus predicados mais espontâneos. Percepção errada ou decorrente do facto de que estes concertos possuem tempo marcado. Contudo, denotou um notável profissionalismo ao saber usar os minutos com precisão e sem exteriorizar qualquer ansiedade em geri-los. Perante uma plateia esgotada que se alargava simpaticamente pelo balcão, as primeiras interpretações lembraram temas tradicionais como Hortelã Mourisca, Saudades de Júlia Mendes ou Triste Sina.

Mafalda Arnauth é autora de muitos dos fados que canta. Porém, os que elegeu para apresentação neste concerto, privilegiaram palavras de outros. De Vitorino, ofereceu-nos Tinta Verde, de Manuel Alegre, Flôr de Verde Pinho, antes de cantar os seus próprios versos em Da palma da minha mão. Dois instantes mágicos estavam reservados, sensivelmente, para o meio da actuação: primeiro, uma interpretação integralmente musical pelas mãos de Luís Guerreiro na guitarra portuguesa, Marco André Oliveira na guitarra clássica e Fernando Júdice no baixo acústico. O que é possível ler nas cordas de três guitarras que se acompanham, se estimulam, se separam mas nunca deixam de, juntas, nos fazer correr pelas vielas lisboetas, pelas correntes do Tejo, pelos voos das gaivotas aterrando em memórias que a história não esquece; em seguida O mar fala de ti, um lindíssimo poema de Tiago Torres da Silva, na quarta-feira, introduzido pela fascinante arte de Fernando Júdice, com que Mafalda Arnauth arrepiou o mais adormecido sentir. No percurso final a viagem fez-se por fados mais popularizados, como a Marcha do Centenário ou Vira da minha rua, instigando a participação dos espectadores.

Na dicção, Mafalda Arnauth tem um ‘carregar’ nos erres que para alguns é uma falha e para mim uma característica que a distingue e a identifica. Mafalda Arnauth tem o privilégio de encantar a cantar. Sabe e faz questão de cantar a dor do amar lusitano. Rapta-nos no sentimento com que se alia ao trinar das cordas das guitarras, como lágrimas e sorrisos que se mesclam na face de quem se emociona. Mafalda Arnauth canta com a agitação interior de quem sente e se apaixona pelo que faz, e inunda-nos nesse rio de sensibilidades que desagua num oceano tão português que fala de todos nós, os que acreditamos que vale a pena o amor, mesmo que magoe, desde que um dia acenda o sol, num céu de lágrimas.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Invictus


Quando um país vive no adormecimento duma separação latejante marcada por diferenças de cores, de crenças e de linguagens, não será suficiente a vontade duma maioria para apagar os rancores, a incredulidade e o confronto enraizados nos mais profundos e inatos alicerces do racismo. Haverá que recorrer à alma indomável dum líder sabedor de que a união fará a força, que assume o passado como isso mesmo: algo a que não se volta; que acredita no futuro como o único caminho para ser feliz.

Um líder que aposta na surpresa, no agir contrariamente ao que o outro prevê. Em Invictus, de Clint Eastwood, Morgan Freeman encarna o líder Nelson Mandela, que se empenha em mudar a imagem da África do Sul. Numa opção prioritariamente política, aproveita a organização da Taça de Mundo de Rugby, e os milhões de olhares que estão sobre o País, para provar que um novo sol brilha sobre a sua população.

Nelson Mandela acredita que a inspiração é o caminho para a mudança e para o sucesso. Os exemplos serão sempre coadjuvantes para isso. O exemplo é ele próprio. Ele será o instigador da confiança. Ele será o mentor que fará os outros reconhecerem-se na auto-confiança individual. Ele respeita e incita a respeitar. Ele distingue e ensina a distinguir. Ele reconhece e obriga a reconhecer.

O êxito arrasta a crença. O êxito provoca a valorização. O êxito une. Os resultados surgem porque a responsabilidade atraiu a segurança. Os cépticos tornam-se devotos. Quando as vitórias acontecem, esquecem-se as diferenças e um país ousa acreditar ir mais longe. Independentemente da raça, da fé, da admiração, da ideologia, um país uniu-se em torno do desejo de ganhar. E a África do Sul conseguiu! Porque houve um homem que foi ‘senhor do seu destino! Comandante da sua alma!’ e o exemplo para que outro homem sentisse que também o poderia ser. O País ganhou!!!