Era uma vez uma noite em
que as palavras se abraçaram à vontade e abriram janelas de vida. Solto num
imaginário incandescente, o sentimento correra em mensagens que esboçavam
olhares ansiosos dum peito onde aportar. Nessa noite, as pedras da calçada
testemunharam o prazer não revelado dos passos caminharem juntos. Os olhares
confirmaram o apetite até então por provar. Enquanto os corações aprendiam a
sintonizar o ritmo, foram as mãos que os aceleraram por uma via repentinamente
mais vasta do que a galáxia por onde as palavras se haviam atrevido entrar. O
dia preparava-se para a sucessão quando um abraço pedido desaguou num beijo sem
fronteira, horizonte ou norma. Libertava-se a inibição numa planície de tempo
por segurar. Degustaram-se os paladares das bocas franqueadas sob o suster duma
circulação que descobriu novas veias para percorrer. Hoje, quando a cabeça
pousa no seu regaço, mesclam-se imagens num álbum por organizar. Esquecera-se
da máquina fotográfica, do relógio, da folha branca e do lápis em punho. Registou
na memória pormenores que se apoderaram de vida própria. Permanece uma ténue
neblina sobre a precisão, ainda que se revele inconfundível a história naquela
noite iniciada. Repousa a paz em degraus por escalar, porque amanhã novo dia se
acrescentará a esta narrativa em que as palavras se abraçam ao desejo de nova página
desfolhar.
Uma calçada para subir com o fulgor da paixão e descer com a convicção de regressar. Um espelho de momentos de contemplação, em que sentado num degrau observo, ouço e sinto privilégios que me sejam concedidos. Um lugar de recato onde semear divagações será a forma de descobrir novos caminhos.
quarta-feira, 10 de março de 2010
terça-feira, 9 de março de 2010
Post it
Quando o teu olhar se mareja em felicidade, não são lágrimas que jorram, mas cristais de diamante que desejo sorver para guardar
num cofre alojado no meu peito.
O comboio da noite
O comboio da noite
passa pela linha do tempo.
Partiu do cais do adeus
entre despedidas remotas e breves,
atravessa estações de receio,
vales escondidos em insónias.
Sobe montanhas de dúvidas,
planaltos áridos de suor.
Acelera por planícies sem sombra,
recolhe silhuetas de ansiedade,
cruza pontes de desejo,
desce em vertigens de sobressalto.
Estremece os pilares do sono
e sufoca descarrilado em pesadelos…
O comboio da noite
franqueia as portas do sossego
e só adormece
quando a manhã acordar…
passa pela linha do tempo.
Partiu do cais do adeus
entre despedidas remotas e breves,
atravessa estações de receio,
vales escondidos em insónias.
Sobe montanhas de dúvidas,
planaltos áridos de suor.
Acelera por planícies sem sombra,
recolhe silhuetas de ansiedade,
cruza pontes de desejo,
desce em vertigens de sobressalto.
Estremece os pilares do sono
e sufoca descarrilado em pesadelos…
O comboio da noite
franqueia as portas do sossego
e só adormece
quando a manhã acordar…
segunda-feira, 8 de março de 2010
Instantes rasos ao mar
Há um fado que entra mar adentro
quando as ondas ecoam arrepios na memória,
entregam-se águas que já se pertencem
sob constelações cintilantes
com morada num céu adormecido.
Desenho na palma da minha mão
o grito crescente dos teus passos
e num percurso de chegada irregressível
fazes do teu corpo, o mar
onde escrevo versos para mais logo lembrar.
Deixar de ver, de Pedro Cláudio
Deixar de ver, exposição de Pedro Cláudio patente na Casa Fernando Pessoa, em
Lisboa, é uma contemplação de paisagens sonegadas a sonhos e extrapoladas para
uma realidade, algumas vezes, intencionalmente difícil de identificar. Algumas
das imagens, concebidas pelo fotógrafo integralmente a partir de poemas de
Ricardo Reis, comungam de ambiências que nos permitem agrupá-las em universos
característicos. Poderão ser neblinas indefinidas, ou desfocagens dissimuladas,
adivinhando vultos no caminho do sonho. Poderão ser perspectivas que se abrem
para o céu, instantes congelados pelo olhar revelando cartografias de leitura
multifacetada. Voos sem limite acabando por aterrar na bainha do sol. Astros
perdidos na definição de serem estrelas ou planetas iluminados pelo sonho de
terem luz própria. Fronteiras na distinção entre o ver e o fantasiar. A força
dum rochedo reinando no centro do mar ou a fragilidade dum ponto cardeal na
imensidão cinzenta do céu. A luz natural dum dia acordando uma montanha, ou a
luz artificial, projectada e cruzada a partir do interior de duas portas
abertas frente a frente, entre a magia do dizer e entorpecimento de deixar de
ver, para vaguear entre as palavras e as imagens.
domingo, 7 de março de 2010
Certezas II
Eu quero viver na
longevidade dos rochedos, para que as certezas de hoje perdurem para além
do meu tempo e as dúvidas sejam grãos de areia levadas em cada maré.
Regresso à realidade
Por instantes
esqueço os passos incógnitos
onde, perdido,
encontro um rumo sem destino.
esqueço os passos incógnitos
onde, perdido,
encontro um rumo sem destino.
Existem pétalas de
Primavera
nesse olhar em que, momentaneamente,
o Inverno se desfez.
nesse olhar em que, momentaneamente,
o Inverno se desfez.
Cobre-me uma ténue
película
com que a pele se sente
em erupção de felicidade.
com que a pele se sente
em erupção de felicidade.
Sem olhar, vejo-me no
espelho
onde no cerne do meu caminho
há um rosto sem carne
com o sorriso triste da sapiência
tingindo no muro da solidão
a extinção da ilusão
nas pegadas do meu futuro.
onde no cerne do meu caminho
há um rosto sem carne
com o sorriso triste da sapiência
tingindo no muro da solidão
a extinção da ilusão
nas pegadas do meu futuro.
sábado, 6 de março de 2010
Questões de tempo
Viver é um verbo presente que, por vezes, sonha encontrar no futuro a possibilidade de reviver o passado.
sexta-feira, 5 de março de 2010
Mafalda Arnauth
Desta vez, foi Mafalda Arnauth que me levou de regresso ao ciclo
de concertos íntimos que o Teatro da Trindade e a Fundação INATEL vêm
promovendo nos finais de tarde, de três quartas-feiras de cada mês. Como a
própria referiu, terá sido uma fuga rápida ao projecto Rua da Saudade, num regresso ao
estilo que mais lhe pertence. Nunca a ouvira ao vivo, mas como apreciador da
sua voz e de algum do seu reportório, não poderia desaproveitar a oportunidade.
Mafalda Arnauth tem uma figura que se impõe quando pisa o palco.
Pareceu-me que a conversação com o público não será dos seus predicados mais
espontâneos. Percepção errada ou decorrente do facto de que estes concertos possuem
tempo marcado. Contudo, denotou um notável profissionalismo ao saber usar os
minutos com precisão e sem exteriorizar qualquer ansiedade em geri-los. Perante
uma plateia esgotada que se alargava simpaticamente pelo balcão, as primeiras
interpretações lembraram temas tradicionais como Hortelã Mourisca, Saudades de Júlia Mendes ou Triste
Sina.
Mafalda Arnauth é autora de muitos dos fados que canta. Porém,
os que elegeu para apresentação neste concerto, privilegiaram palavras de
outros. De Vitorino, ofereceu-nos Tinta
Verde, de Manuel Alegre, Flôr
de Verde Pinho, antes de cantar os seus próprios versos em Da palma
da minha mão. Dois instantes mágicos estavam reservados, sensivelmente,
para o meio da actuação: primeiro, uma interpretação integralmente musical
pelas mãos de Luís Guerreiro na guitarra portuguesa, Marco André Oliveira na
guitarra clássica e Fernando Júdice no baixo acústico. O que é possível ler nas
cordas de três guitarras que se acompanham, se estimulam, se separam mas nunca
deixam de, juntas, nos fazer correr pelas vielas lisboetas, pelas correntes do
Tejo, pelos voos das gaivotas aterrando em memórias que a história não esquece;
em seguida O mar fala de ti,
um lindíssimo poema de Tiago Torres da Silva, na quarta-feira, introduzido pela
fascinante arte de Fernando Júdice, com que Mafalda Arnauth arrepiou o mais adormecido
sentir. No percurso final a viagem fez-se por fados mais popularizados, como a Marcha do Centenário ou Vira da minha rua,
instigando a participação dos espectadores.
Na dicção, Mafalda Arnauth tem um ‘carregar’ nos erres que para
alguns é uma falha e para mim uma característica que a distingue e a
identifica. Mafalda Arnauth tem o privilégio de encantar a cantar. Sabe e faz
questão de cantar a dor do amar lusitano. Rapta-nos no sentimento com que se
alia ao trinar das cordas das guitarras, como lágrimas e sorrisos que se
mesclam na face de quem se emociona. Mafalda Arnauth canta com a agitação
interior de quem sente e se apaixona pelo que faz, e inunda-nos nesse rio de
sensibilidades que desagua num oceano tão português que fala de todos nós, os que
acreditamos que vale a pena o amor, mesmo que magoe, desde que um dia acenda o
sol, num céu de lágrimas.
quinta-feira, 4 de março de 2010
Invictus
Quando um país vive no adormecimento duma separação
latejante marcada por diferenças de cores, de crenças e de linguagens, não será
suficiente a vontade duma maioria para apagar os rancores, a incredulidade e o
confronto enraizados nos mais profundos e inatos alicerces do racismo. Haverá
que recorrer à alma indomável dum líder sabedor de que a união fará a força, que
assume o passado como isso mesmo: algo a que não se volta; que acredita no
futuro como o único caminho para ser feliz.
Um líder que aposta na surpresa, no agir contrariamente ao
que o outro prevê. Em Invictus, de
Clint Eastwood, Morgan Freeman encarna o líder Nelson Mandela, que se empenha
em mudar a imagem da África do Sul. Numa opção prioritariamente política,
aproveita a organização da Taça de Mundo de Rugby, e os milhões de olhares que estão
sobre o País, para provar que um novo sol brilha sobre a sua população.
Nelson Mandela acredita que a inspiração é o caminho para a
mudança e para o sucesso. Os exemplos serão sempre coadjuvantes para isso. O
exemplo é ele próprio. Ele será o instigador da confiança. Ele será o mentor
que fará os outros reconhecerem-se na auto-confiança individual. Ele respeita e
incita a respeitar. Ele distingue e ensina a distinguir. Ele reconhece e obriga
a reconhecer.
O êxito arrasta a crença. O êxito provoca a valorização. O
êxito une. Os resultados surgem porque a responsabilidade atraiu a segurança.
Os cépticos tornam-se devotos. Quando as vitórias acontecem, esquecem-se as
diferenças e um país ousa acreditar ir mais longe. Independentemente da raça,
da fé, da admiração, da ideologia, um país uniu-se em torno do desejo de
ganhar. E a África do Sul conseguiu! Porque houve um homem que foi ‘senhor do
seu destino! Comandante da sua alma!’ e o exemplo para que outro homem sentisse que também o poderia ser. O País ganhou!!!
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