quinta-feira, 11 de março de 2010

Quando a saudade chega...


São mais fáceis de atravessar rios revoltos em grande caudal de paixão,
do que pequenos ribeiros em cujas margens nascem silvados de saudade.

Na procura das palavras esquecidas



Abandonaram-se, nos veios da carne estrangulados por reminiscências de abraços, o sentido das palavras inutilizadas na repetição. Na amálgama de pensamentos, arrumados na urgência dum beijo, dispensaram-se cores esquecidas de vocábulos enjeitados pela busca da novidade. Adormeceram, em páginas amarelecidas pela preterição, vontades de expressões mordidas na entrega dos corpos. Hoje, procura-se a ressurreição dum sentimento em traduções ressequidas pela distância, pelo desprezo, pela ingratidão, pela sobranceria. Mas estão secos pelas lágrimas, os outrora rebentos verdejantes, cansados de não serem reconhecidos.

quarta-feira, 10 de março de 2010

História em continuação


Era uma vez uma noite em que as palavras se abraçaram à vontade e abriram janelas de vida. Solto num imaginário incandescente, o sentimento correra em mensagens que esboçavam olhares ansiosos dum peito onde aportar. Nessa noite, as pedras da calçada testemunharam o prazer não revelado dos passos caminharem juntos. Os olhares confirmaram o apetite até então por provar. Enquanto os corações aprendiam a sintonizar o ritmo, foram as mãos que os aceleraram por uma via repentinamente mais vasta do que a galáxia por onde as palavras se haviam atrevido entrar. O dia preparava-se para a sucessão quando um abraço pedido desaguou num beijo sem fronteira, horizonte ou norma. Libertava-se a inibição numa planície de tempo por segurar. Degustaram-se os paladares das bocas franqueadas sob o suster duma circulação que descobriu novas veias para percorrer. Hoje, quando a cabeça pousa no seu regaço, mesclam-se imagens num álbum por organizar. Esquecera-se da máquina fotográfica, do relógio, da folha branca e do lápis em punho. Registou na memória pormenores que se apoderaram de vida própria. Permanece uma ténue neblina sobre a precisão, ainda que se revele inconfundível a história naquela noite iniciada. Repousa a paz em degraus por escalar, porque amanhã novo dia se acrescentará a esta narrativa em que as palavras se abraçam ao desejo de nova página desfolhar.

terça-feira, 9 de março de 2010

Post it


Quando o teu olhar se mareja em felicidade, não são lágrimas que jorram, mas cristais de diamante que desejo sorver para guardar
num cofre alojado no meu peito.

O comboio da noite


O comboio da noite
passa pela linha do tempo.
Partiu do cais do adeus
entre despedidas remotas e breves,
atravessa estações de receio,
vales escondidos em insónias.
Sobe montanhas de dúvidas,
planaltos áridos de suor.
Acelera por planícies sem sombra,
recolhe silhuetas de ansiedade,
cruza pontes de desejo,
desce em vertigens de sobressalto.
Estremece os pilares do sono
e sufoca descarrilado em pesadelos…
O comboio da noite
franqueia as portas do sossego
e só adormece
quando a manhã acordar…

segunda-feira, 8 de março de 2010

Instantes rasos ao mar


Há um fado que entra mar adentro
quando as ondas ecoam arrepios na memória,
entregam-se águas que já se pertencem
sob constelações cintilantes
com morada num céu adormecido.
Desenho na palma da minha mão
o grito crescente dos teus passos
e num percurso de chegada irregressível
fazes do teu corpo, o mar
onde escrevo versos para mais logo lembrar.


Deixar de ver, de Pedro Cláudio



Deixar de ver, exposição de Pedro Cláudio patente na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, é uma contemplação de paisagens sonegadas a sonhos e extrapoladas para uma realidade, algumas vezes, intencionalmente difícil de identificar. Algumas das imagens, concebidas pelo fotógrafo integralmente a partir de poemas de Ricardo Reis, comungam de ambiências que nos permitem agrupá-las em universos característicos. Poderão ser neblinas indefinidas, ou desfocagens dissimuladas, adivinhando vultos no caminho do sonho. Poderão ser perspectivas que se abrem para o céu, instantes congelados pelo olhar revelando cartografias de leitura multifacetada. Voos sem limite acabando por aterrar na bainha do sol. Astros perdidos na definição de serem estrelas ou planetas iluminados pelo sonho de terem luz própria. Fronteiras na distinção entre o ver e o fantasiar. A força dum rochedo reinando no centro do mar ou a fragilidade dum ponto cardeal na imensidão cinzenta do céu. A luz natural dum dia acordando uma montanha, ou a luz artificial, projectada e cruzada a partir do interior de duas portas abertas frente a frente, entre a magia do dizer e entorpecimento de deixar de ver, para vaguear entre as palavras e as imagens.

domingo, 7 de março de 2010

Certezas II



Eu quero viver na longevidade dos rochedos, para que as certezas de hoje perdurem para além do meu tempo e as dúvidas sejam grãos de areia levadas em cada maré.


Regresso à realidade


Por instantes
esqueço os passos incógnitos
onde, perdido,
encontro um rumo sem destino.

Existem pétalas de Primavera
nesse olhar em que, momentaneamente,
o Inverno se desfez.

Cobre-me uma ténue película
com que a pele se sente
em erupção de felicidade.

Sem olhar, vejo-me no espelho
onde no cerne do meu caminho
há um rosto sem carne
com o sorriso triste da sapiência
tingindo no muro da solidão
a extinção da ilusão
nas pegadas do meu futuro.

sábado, 6 de março de 2010

Questões de tempo


Viver é um verbo presente que, por vezes, sonha encontrar no futuro a possibilidade de reviver o passado.