segunda-feira, 15 de março de 2010

Tarda a Primavera II


Passam tão lentas as estações nesta espera que as pétalas da tua vontade abram rios na minha felicidade. Tardam os dias em que as nossas horas se encostam e as nossas peles se colam como páginas dum livro indestrutível. Adia-se o hoje em sucessivos amanhãs que chegarão para se dissiparem, como Primaveras desabrochadas na chegada do Outono. Mais não são do que ciclos de vida, estas delongas em que me deito na expectativa do teu acordar no meu olhar. Mas as marés não rebentam. Como se pontões opressivos as tivessem penetrado e estancado o seu desejo. Sou areal estendido numa planície onde as alvoradas se recusam começar. Adivinho-te as mãos nas memórias por onde passo na confirmação de certezas. Imagino-te algodão dos lençóis que me cobrem e translado para lágrimas tuas as gotas de chuva que me molham. Permaneço neste escalar até ao topo duma montanha aberta em falésia no lado oposto que só vislumbro quando a ti chego. Nesse instante em que o sol eclipsa a noite, numa fracção de tempo esgotada pelo rasgar dum clarão. É a tua mão a indicar-me o caminho. E quedo-me nas sombras do teu corpo, nos ecos da tua voz, na espuma do teu sabor aguardando o amanhã com a certeza do sol, símbolo da Primavera fecundando os passos do caminho lavrado com sementes que em beijos quero deixar nos teus lábios. Estendo a minha mão… na procura da tua.

domingo, 14 de março de 2010

Nas margens...


Nas margens daquele rio há um braço
que me segura na mão, o coração
ouvem-se-lhe sorrisos no talvegue,
pulsações que no meu pulso trago.


Nas margens daquele braço há um rio
navegando em direcção ao meu peito
enleiam-se em afectos os regaços
sulcando esteiros na solidão.


Nas margens de mim há um coração
que une os rios em abraços,
serão minhas mãos a várzea
onde semeias os dias com paixão.


sábado, 13 de março de 2010

'Poema' curto


Calem-se as memórias do que fizemos!
Emudeçam-se os projectos do que faremos!
Omitam-se os sonhos em que voamos!
Hoje, é aqui que quero estar, 
vivendo a realidade deste projecto
que somos nós!


sexta-feira, 12 de março de 2010

Perda involuntária


Não esqueças o livro aberto,
na página daquele poema
de que tanto gostaste e que até foi escrito para ti.
Alguém poderá passar,
distraidamente lê-lo
e fazê-lo seu…

Tarda a Primavera


Tarda a Primavera, meu amor…

Florescem espaços
                 nas mãos vazias à espera dos teus dedos,
Brotam, na minha,
                 beijos para a tua boca beber,
Rasgam-se planícies
                 no meu olhar que o teu procura,
Correm rios de carecimento
                 na direcção dos teus braços afluentes,
Amadurecem as palavras
                 por desabrochar no teu poema,
Constroem-se sonhados
                 os voos em busca de ninhos por inventar…

Tarda a Primavera, meu amor…

E os corpos anseiam pelo Verão,
                onde arder…

quinta-feira, 11 de março de 2010

Quando a saudade chega...


São mais fáceis de atravessar rios revoltos em grande caudal de paixão,
do que pequenos ribeiros em cujas margens nascem silvados de saudade.

Na procura das palavras esquecidas



Abandonaram-se, nos veios da carne estrangulados por reminiscências de abraços, o sentido das palavras inutilizadas na repetição. Na amálgama de pensamentos, arrumados na urgência dum beijo, dispensaram-se cores esquecidas de vocábulos enjeitados pela busca da novidade. Adormeceram, em páginas amarelecidas pela preterição, vontades de expressões mordidas na entrega dos corpos. Hoje, procura-se a ressurreição dum sentimento em traduções ressequidas pela distância, pelo desprezo, pela ingratidão, pela sobranceria. Mas estão secos pelas lágrimas, os outrora rebentos verdejantes, cansados de não serem reconhecidos.

quarta-feira, 10 de março de 2010

História em continuação


Era uma vez uma noite em que as palavras se abraçaram à vontade e abriram janelas de vida. Solto num imaginário incandescente, o sentimento correra em mensagens que esboçavam olhares ansiosos dum peito onde aportar. Nessa noite, as pedras da calçada testemunharam o prazer não revelado dos passos caminharem juntos. Os olhares confirmaram o apetite até então por provar. Enquanto os corações aprendiam a sintonizar o ritmo, foram as mãos que os aceleraram por uma via repentinamente mais vasta do que a galáxia por onde as palavras se haviam atrevido entrar. O dia preparava-se para a sucessão quando um abraço pedido desaguou num beijo sem fronteira, horizonte ou norma. Libertava-se a inibição numa planície de tempo por segurar. Degustaram-se os paladares das bocas franqueadas sob o suster duma circulação que descobriu novas veias para percorrer. Hoje, quando a cabeça pousa no seu regaço, mesclam-se imagens num álbum por organizar. Esquecera-se da máquina fotográfica, do relógio, da folha branca e do lápis em punho. Registou na memória pormenores que se apoderaram de vida própria. Permanece uma ténue neblina sobre a precisão, ainda que se revele inconfundível a história naquela noite iniciada. Repousa a paz em degraus por escalar, porque amanhã novo dia se acrescentará a esta narrativa em que as palavras se abraçam ao desejo de nova página desfolhar.

terça-feira, 9 de março de 2010

Post it


Quando o teu olhar se mareja em felicidade, não são lágrimas que jorram, mas cristais de diamante que desejo sorver para guardar
num cofre alojado no meu peito.

O comboio da noite


O comboio da noite
passa pela linha do tempo.
Partiu do cais do adeus
entre despedidas remotas e breves,
atravessa estações de receio,
vales escondidos em insónias.
Sobe montanhas de dúvidas,
planaltos áridos de suor.
Acelera por planícies sem sombra,
recolhe silhuetas de ansiedade,
cruza pontes de desejo,
desce em vertigens de sobressalto.
Estremece os pilares do sono
e sufoca descarrilado em pesadelos…
O comboio da noite
franqueia as portas do sossego
e só adormece
quando a manhã acordar…