terça-feira, 23 de março de 2010

Não sei viver no silêncio


Não sei viver no silêncio que me despe
o fogo em que o coração arde
quando as tuas mãos são janelas abertas
e o teu peito cheira à infusão de ervas
colhidas no chão que te desvendo.

Não sei viver no silêncio que me cala
as palavras perdidas de significado
num olhar despojado e sem horizonte
quando só o branco do algodão repousa
nas páginas vazias esquecidas da tua pele.

Não sei viver no silêncio que me morde
as horas errantes duns lábios lívidos
empedernidos no arrefecer das bocas 
soçobradas na noite invasora de dúvidas
sulcando um vale entre dois corpos.

Não sei viver no silêncio que me veste,
de tristeza, um coração que não vê
para além do que sente e acredita
como verdade arraigada num sentimento
que precisa do presente para viver.


Perdido no tempo


Planto-me neste vazio das horas
não sei se aguardando o tempo
se à espera de alguém…
e vou-me esquecendo de mim
na insistência dos dias quererem te pertencer…

segunda-feira, 22 de março de 2010

O sabor da memória


Quando o olhar me lambe a memória com a mesma língua que passei na tua pele, há um sabor doce na saliva, qual espuma que se espalha sobre as pedras escondidas entre as rochas. Cobre a neblina a voz da maré, como a vontade se inibe na luz do dia. É a razão farol timoneiro de avanços calados nas mãos e esmagados pelos dedos. Abraço-te o corpo na solidez de cada penedo. Partem em sonhos histórias onde voaste e prendo-te no calor com que te faço tarde derretida seduzindo recifes. Aspergem-me em dúvidas as vagas desconhecidas em que te adivinho. Que serei eu mais do que porto ansiando a tua chegada de embarcação atracada confirmando o lastro? Não sou luz, nem norte, tão só horizonte onde a verdade e o sonho se tocam. Quando a noite transpôs o tempo, os passos ousaram chegar mais longe e os corpos dobraram o cabo. O desejo ergueu-se sobre a referência iluminada e os olhos da razão foram vendados pelo tocar das mãos nas muralhas da resistência. Soltaram-se os mantos para exalar o sal da pele e o fogo abraçou a ondulação. Uma língua de mar toca na minha memória e há um odor de ti na praia duma história em que me escrevo.

domingo, 21 de março de 2010

Declaração


Deixa-me dizer que te amo
repetidas vezes
como se fosse a primeira.

Deixa-me dizer que te amo
para que o ouças,
que o leias,
que o sintas.

Deixa-me dizer que te amo,
uma vez mais,
pois nunca saberei
qual será a última.

Deixa-me dizer que te amo
antes que as palavras se gastem,
antes que o amor adormeça,
antes que a vida se esgote!


Talvez um dia


Talvez um dia
o amor acorde sem horas marcadas para viver
E o teu olhar seja horizonte onde o meu se reflecte
E as minhas mãos sejam rede, no regresso duma faina repleta de ti
E as palavras se dispensem porque até nos silêncios te oiço
E a imaginação se confine à escolha de onde lavrar carícias
E as vozes se calem porque os sentires gritarão
E os caminhos serenem porque os passos se unem
E o abraço seja um nó onde as sombras não se distanciam
E a vontade seja esteira do nosso permanecer
E o amor durma por saber que nela estaremos ao acordar

Ou talvez um dia
o amor acorde sem ter chegado
a ter horas para viver…

sábado, 20 de março de 2010

Adiar os dias


Adio a tentação;
posso questionar o sentimento,
mas não tenho como parar a emoção.


Um quarto dentro de mim *


Descobri, dentro de mim, um quarto por onde entra a luz discreta dum sorriso, como um feixe de poesia que aparta o ar e corta a pele. E nesse quarto há um céu onde o silêncio fala em ramadas de estrelas, presas no tronco imaginário dum corpo que dispo com o desejo do mar. E não se ouvem ondas, apenas o respirar das mãos nos dedos viajantes em busca das horas duma tarde onde acordar. E dentro desse quarto há uma constelação de cedros onde as luzes se projectam nos lábios acesos de sede. E os pássaros são bandos de certezas planando sobre um leito onde adormece a inquietude da paixão. Lá fora há um dia estendendo-se no esquecimento do tempo. E os teus braços são uma cortina de linho com que me fechas dentro deste quarto, onde moras.


* a partir da imagem Quietude, de Sonja Valentina

sexta-feira, 19 de março de 2010

A Single Man de Tom Ford


‘Acordar é ser… agora’. Numa manhã, um homem acorda com a decisão de reagir à incapacidade de esquecer a perda do seu grande amor. O passado desenha-se em retrocesso a partir do presente. Esse hoje em que ‘só os loucos poderão refutar a verdade de que o agora nada mais é do que o agora: é uma lembrança fria. Um dia mais do que ontem, um ano depois de há um ano atrás e que, mais cedo ou mais tarde, chegará’. A história desse homem vai sendo revelada perdendo proximidade com esse hoje. Esse agora em que pensamentos descarnados se mesclam com a personagem que todas as manhãs veste. Uma viagem lenta no tempo, nessa contagem de horas em que se arrasta à espera que o ponteiro se mova. Deixa-se comandar pelo relógio. Desistiu de ver o futuro. Ficou à espera que ela chegasse. ‘A morte é o futuro.’

Ao longo dum único dia conhecemos a vida do professor catedrático George Falconer. Na duração dum dia acompanhamo-lo na organização do puzzle da sua vida. Adivinhamos a sua decisão para desistir de esquecer quem lhe foi, inesperadamente, roubado.

Mas… talvez todos tenhamos um anjo-da-guarda. George teve-o. Um alguém que nos protege, que nos ilumina caminhos, que nos afasta da descrença.

Em A Single Man, de Tom Ford, são-nos mostrados a força, a dor, o sofrimento, a implacabilidade do amor personalizados num homem homossexual. É-o, contudo, de uma forma tão depurada, tão crua, tão sensível que nos assegura que a verdade do sentimento amor não tem de diferir em função dos seus intérpretes.

Tom Ford, na sua estreia como realizador e em que conta com deslumbrantes composições musicais de Abel Korzeniowski, tem a arte de nos proporcionar constantes e sucessivas surpresas ao longo de todo o filme. São frequentes os afastamentos dos caminhos para os quais nos havia parecido convidar. É assim até ao último instante. No dia em que George Falconer decidiu voltar a olhar para o futuro, eis que ela chega por vontade própria.



quinta-feira, 18 de março de 2010

Gota a gota


Dispo
as palavras
o sorriso
as lágrimas
e a pele
para que vistas
a transparência
do silêncio
como um manto
com que te cubro
o coração
agasalhado
nas minhas mãos
para beber
gota a gota
a efusão
do teu amor.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Não sei...


Não sei…
onde colocar os passos
neste vazio que me enubla o hoje.

Não sei…
se perdi as asas
se a vontade de voar.

Não sei sonhar…
esqueci como ler o amanhã.

Existe em mim
um dia que teima não nascer;
uma alvorada adormecida
ou uma noite infinita.

Não sei…
onde guardei o sol.
Talvez num bolso roto,
perdido num caminhar sem passos
incógnitos
no espelho em que não me reconheço.

Não sei…
das asas, nem do voo.
Fico neste tronco sem sol,
arrepiando a pele
e a necessidade de avançar
à procura dum futuro
onde me encontre,
em passos fugindo
deste lago onde me afogo
em incertezas de quem sou!