quinta-feira, 25 de março de 2010

Partidas


Muitas partidas implicam perdas. E se as há fruto de decisões assumidas, outras são-nos incontroláveis. Doem mais as inesperadas ou mesmo as que ainda saibamos irem um dia acontecer, se tornam irrevogáveis. Consequência de algumas delas, a saudade abraça-nos na falta. Guardam-se memórias, encetam-se regressos nunca iguais porque algo mais não é do que lembrança. Porque há partidas que não nos oferecem possibilidade de discussão, que não conseguimos evitar, cabe-nos evitar outras sobre as quais temos domínio. Talvez nessa permanência consigamos, nunca a substituição, nunca a compensação, tão só o conforto de poder evocar o que conservamos perante um olhar invisível, mas que sentimos presente, de gratidão por nos perceber[mos] felizes.

Na ausência do olhar


Há dias em que o Mundo aparta a distância intocável e ficam mais afastados os olhares que não se vêem. Espreitas o tempo como quem chega à janela para saber notícias desse Mundo correndo na perpetuidade dum movimento que as tuas mãos não seguram. Fogem-me os caminhos desse olhar que me guia, nos percursos dum mundo que me ofereceste. Estilhaça-se a transparência da certeza em voos picados cujo itinerário não alcanço. Seguras-te a um pilar que só a ti pertence e ficam mais ausentes os meus dedos, dessa janela do teu peito onde ontem desenhara vitrais da minha felicidade.

Madrugada no peito


No vidro da janela escorrem gotas, cujo movimento meu dedo acompanha a uma curta distância suficiente para não lhes tocar, 


Fluem lágrimas no teu rosto que o meu olhar não pode seguir
mas que traçam feridas no meu peito, por não as saber curar…

Um desejo


Que o silêncio em que te enterras não seja armadilha onde se afogue a vontade de te dizer o que sinto!

quarta-feira, 24 de março de 2010

Escrevo-te...


Escrevo-te para tentar descrever-me,
escrevo-te para tentar me mostrar,
para que saibas o que me acorda, o que me fere
e o que me sara essas chagas que o amor lavra
e o que me mutila quando a saudade fica.



Escrevo-te para tentar dizer
detalhes que as palavras esquecem,
acrescentos que os sorrisos encobrem,
sentires que as mãos sufocam,
desejos que a língua enrola.



Escrevo-te para tentar despir-me
e na minha nudez vejas o vidro que me cobre
e o entendas tão transparente quanto a sede
e o percebas tão frágil quanto a minha resistência
em calar a verdade de que só quando me desnudas
e a tua pele se faz mar para nele me descrever
o sentimento consegue dizer
a impossibilidade de te escrever tudo o que sou
por te amar!


Carta de espera


Cansa-se-me o olhar de fixar o horizonte na espera de descobrir o mastro do teu sorriso por entre os troncos de dúvidas com que foste enchendo o tempo. Serenaram as águas onde o vórtice da paixão criara marés na calmaria das horas. Pouco mais sobram do que reflexos, sombras, ecos no vazio com que o dia me esquece. Calaram-se as palavras, secas pelas sementes de desprezo que soltaste no abandono das noites. Arde, cada vez mais distante, o fogo em que cri acreditarmos, brasas que foste esquecendo atear conforme a tua margem, mais ausente foi ficando da minha paisagem. Esvaziou-se de pegadas o caminho onde trilháramos os passos que quisemos fazer uníssonos. Até as aves parecem ter mudado o rumo enfadadas de nos deixarem asas para os nossos sonhos. E apenas o fumo que ao cair da noite começar a soltar-se na chaminé daquela casa, me acalentará a esperança de que vida só se apaga quando desistir for o verbo a conjugar.

terça-feira, 23 de março de 2010

As minhas mãos hoje


Quando minhas mãos fecho,
aperto um vazio que me sabe a ti


Não sei viver no silêncio


Não sei viver no silêncio que me despe
o fogo em que o coração arde
quando as tuas mãos são janelas abertas
e o teu peito cheira à infusão de ervas
colhidas no chão que te desvendo.

Não sei viver no silêncio que me cala
as palavras perdidas de significado
num olhar despojado e sem horizonte
quando só o branco do algodão repousa
nas páginas vazias esquecidas da tua pele.

Não sei viver no silêncio que me morde
as horas errantes duns lábios lívidos
empedernidos no arrefecer das bocas 
soçobradas na noite invasora de dúvidas
sulcando um vale entre dois corpos.

Não sei viver no silêncio que me veste,
de tristeza, um coração que não vê
para além do que sente e acredita
como verdade arraigada num sentimento
que precisa do presente para viver.


Perdido no tempo


Planto-me neste vazio das horas
não sei se aguardando o tempo
se à espera de alguém…
e vou-me esquecendo de mim
na insistência dos dias quererem te pertencer…

segunda-feira, 22 de março de 2010

O sabor da memória


Quando o olhar me lambe a memória com a mesma língua que passei na tua pele, há um sabor doce na saliva, qual espuma que se espalha sobre as pedras escondidas entre as rochas. Cobre a neblina a voz da maré, como a vontade se inibe na luz do dia. É a razão farol timoneiro de avanços calados nas mãos e esmagados pelos dedos. Abraço-te o corpo na solidez de cada penedo. Partem em sonhos histórias onde voaste e prendo-te no calor com que te faço tarde derretida seduzindo recifes. Aspergem-me em dúvidas as vagas desconhecidas em que te adivinho. Que serei eu mais do que porto ansiando a tua chegada de embarcação atracada confirmando o lastro? Não sou luz, nem norte, tão só horizonte onde a verdade e o sonho se tocam. Quando a noite transpôs o tempo, os passos ousaram chegar mais longe e os corpos dobraram o cabo. O desejo ergueu-se sobre a referência iluminada e os olhos da razão foram vendados pelo tocar das mãos nas muralhas da resistência. Soltaram-se os mantos para exalar o sal da pele e o fogo abraçou a ondulação. Uma língua de mar toca na minha memória e há um odor de ti na praia duma história em que me escrevo.