terça-feira, 30 de março de 2010

Distância


Parecem tão apartadas as mãos que não se tocam
que os olhares já não se adivinham,
ocultam-se no silêncio os espaços percorridos,
esbatem-se na saudade as pegadas repartidas.
Há um voo soprado de gaivota
no vento que afasta o navio da margem,
um adeus indesejado dissimula-se nas nuvens cinza
que vendam o sol onde o sorriso brilhou.
A vontade é âncora fundeada
nas memórias desfibradas pela distância que o tempo arrasta.
E o coração fica à deriva por entre vagas erosivas
que lhe desvendam um mar de solidão.
Perdem-se os passos partilhados
nas marés intrometidas que separam as mãos
e desviam olhares pelo horizonte do esquecimento.


Ardem-me os olhos...


Ardem-me os olhos…
não sei se é do sol
se das lágrimas,
o primeiro não sei onde brilha,
as segundas teimam em não cair.

Talvez seja do nó na garganta
que me salga a solidão
e ressique a tristeza…

Ardem-me os olhos…
mas não vejo
a luz aberta feita caminho,
onde o pranto se evapora
no raiar dum novo dia.

Perdido...


Perdido de mim próprio
quanto mais me movo
mais me isolo,
já não avisto terra
nem sei onde nasce o sol…
Paro
e fico sem saber onde estou.
Perdido de mim próprio
ou do Mundo?
Onde fica a realidade?
Sonhei ou acreditei?
Que vazio me rodeia
nesta imensidão de tempo sobrante,
parece cada vez maior
o caminho para chegar…
onde?

segunda-feira, 29 de março de 2010

Pergunta com data[s]



Será que aquele dia sem data marcada,
pelo qual espero num constante adiar dos dias,
terá data para chegar?
Ou será uma data,
sem data para viver
e a minha esperança uma contínua ilusão
de a fixar no meu calendário,
como o principio dum tempo onde permanecer?

Lago sem tempo


Quando o tempo corre sem destino,
alaga-me o peito a desfocagem da outra margem.


Istmo


© eintoern


Quando a saudade invade o continente deserto onde permaneço,
procuro nas palavras a saliva que me humedece o coração
e avivando memórias torno-me istmo para a ti chegar.


domingo, 28 de março de 2010

Segredos guardados



No tronco do meu peito havia um esconderijo, onde todas as noites, um mocho me roubava silêncios para usar como resposta aos enamorados que o abordavam. Hoje, quando as palavras me sufocam em apneia, corro desesperado em busca desse sábio que dizem ter sido raptado por alguém guardador dos segredos do meu coração.

sábado, 27 de março de 2010

O tempo e eu


O tempo é uma corda que trepo até ti chegar,
partículas que se esfumam na [im]permanência do estar,
um oceano sem limites que as asas demoram sobrevoar
… e eu ilha esperando a tua vela avistar.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Esboço de ti

© kadox

Numa página cândida,
traço com um lápis branco
o esboço do teu corpo.

Para que só eu saiba onde te toco,
para que só eu perceba onde te contemplo,
para que só eu atinja onde te gosto,
para que só o meu olhar beije a pele onde te quero.

Desenho-te tal e qual
como te vejo,
como te sinto,
como me delicio contigo.

Só eu sei
quando largas o meu espaço,
sais da minha imaginação
e te tornas espectro
nesta página cândida,
onde te apago com meus próprios dedos
para não te ver partir…

apenas sentir…

Para onde caminho?


Diz-me para onde caminho…
nestes passos sem rumo,
de olhares perdidos
como pétalas esquecidas sem ramo.

Diz-me para onde caminho…
nesta sensação que ao fundo há sempre noite.


Vem! Diz-me…
que no amanhã há uma porta
de chegada.


E que são apenas um deserto
estes dias de eternas despedidas.

Diz-me que é apenas ilusão
esta sensação de vazio
em que caminho sem solo,
sem ficar…


E saio em constantes partidas,
contínuos adeus
a caminho da solidão!