segunda-feira, 12 de abril de 2010

À espera do tempo



Estava, sem que soubesse, na paragem à espera do tempo. Do tempo passado que precisava guardar numa caixa esquecida a que precisava voltar apenas para lembrar como não fazer. Esperava pelo tempo presente que me levasse num qualquer transporte para outro tempo onde fazer futuro. Passaste por mim. Não sei. Já não me lembro se te procurei. Mas avistei-te e chamei-te sem saber quem eras. Apenas porque as tuas palavras eram redes onde guardavas descobertas e descobridores, histórias e historiadores, sonhos e sonhadores. Eu que esperava pelo tempo, vi-te passar. Deste-me boleia para um tempo presente onde as tuas redes se abriram e as minhas palavras se prenderam. Sem pressa do futuro corremos. As palavras, as redes, as surpresas, os tempos, os presentes prenderam-se. Quando olhámos as palavras, os tempos, os presentes entrelaçavam-se num enrodilhado de segredos sonhados. Ou talvez fossem sonhos por segredar… Nos tempos abriram-se novos tempos e hoje, nas redes, guardam-se memórias, histórias, descobertas e sonhos que são nossos. De nós que ficamos em consecutivas paragens à espera que o tempo passe por nós e nos dê boleia para amanhã.

domingo, 11 de abril de 2010

Saudade



A saudade é um presídio de asas cegadas pela indefinição de retomar o voo perdido

Entra e fica em mim


Entra e fica em mim
como um sol que pede para passar a noite,
traz a serenidade das montanhas
e sopra-me a certeza de ficares
feita mar na firmeza de não partir.

Entra e fica em mim
como leitura interminável
decifrando caracteres enigmáticos do meu ser
escritos antes de existir
a espera dum abraço vestido na permanência.

Entra e fica em mim
como passos de destino único,
traz o fresco matinal nas mãos
e molha-me com os lábios melados
de antídoto certificado contra a ausência.

Entra e fica em mim
como névoa que se dissipa
revelando os cumes dos teus sonhos
na crença de seres luar
nas noites infindas de futuro.

Entra e fica em mim
como estrela que a cada dia
... em mim se põe.

Um instante no tempo



Tento deter no tempo, um instante
onde os olhares rumorejaram
na incerteza segura de quererem ficar
tão sós quanto a ilusão permita
pensarem-se incógnitos na multidão.


Detenho-me em frente ao espelho
na procura desse instante em mim,
mas não me encontro nessa névoa
de corpúsculos fragilizados em versos
roubados a pensamentos esmorecidos.


Há um tremor líquido nas lágrimas
que choro para me encontrar
neste tempo em fuga dum instante
onde os gestos correram carícias
numa pele percorrida devagar.


Dispo a solidão da madrugada
descascando favos de memórias,
procuro no rendilhado dos dias
um instante para deter o tempo
onde me encontre em mim.

sábado, 10 de abril de 2010

Inquietudes


Inquieta-me
a indomabilidade do mar,
a imprevisibilidade do fogo,
a indefinição do nevoeiro,
a imensurabilidade do fumo.


Inquieta-me
a impalpabilidade da melancolia,
a insustentabilidade da mentira,
a finitude da Primavera;
a inexplicabilidade do sentir.


Constrangem-me
os paralelismos com o amor!

Na força da noite


Espreito pela janela. É a noite que está lá fora. Inúmeras luzes artificiais tentam iludir a escuridão, mas se se apagarem é a força da noite que prevalece. Não pode o homem alterar o rumo do que ALGUÉM determinou. As nossas capacidades de ser humanos são ínfimas e nunca suficientes para determinar o que já foi decidido. O que poderemos nós se não prosseguir no percurso que nos foi escolhido e sonhar que, por vezes, nos iludiremos julgando-nos habilitados a decidir o amanhã? E se nos cansarmos de sonhar?...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Sonhos...


Os sonhos são dias que se empilham na esperança de voar até alcançar o cume,
face privilegiada da felicidade invariavelmente mais próximo dum sorriso...
de sol... que derreterá o gelo da saudade.

Emudece-me o desejo


Emudece-me o desejo
numa boca aberta de segredos
que deixas voar
entre a madrugada em que te guardas
e os sonhos em que te escondes!

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Perguntas


Que força atrai dois corações suspensos em balançares diferentes e com segredos guardados?

Tons melancólicos


Que caminhos sinuosos tomam os silêncios
nas manhãs frias que gelam cumplicidades
nas águas frias da ausência?

Distanciam-se as margens
separadas nas sombras das palavras
esquecidas na humidade da memória.

São escassos os raios de sorrisos
penetrando a densidade de ramos melancólicos
que obscurecem esse percurso deserto
onde os vocábulos teimam em não entrar.

Há um brilho de luz sobre o mainel da direcção
onde, hoje, apenas restam pegadas
dos passos noutro tempo fogosos.

Esmorecem os impulsos do outro lado alcançar,
inventam-se degraus de incerteza
para deter a partida desejada.

Inquietam-se as mãos no mutismo
dum peito adivinhado na distância.
Derreter-se-ão as lajes de interrogações
no calor dos sentimentos adormecidos?