quinta-feira, 15 de abril de 2010

À espera de nós

© Maxey


Atravesso a tua imagem e não te reconheço, perdido em pensamentos que te procuram realidade feita pó expirado no prazo de entrega por acontecer. Percorro o rio seco e pergunto-te aos peixes recolhidos nas árvores onde as folhas guardam gotas do último dilúvio e lhes ensinam a verdade da míngua. Dizem-me nada te saber. Uma torrente de paixão terá levado o caudal para o mar e uma tempestade de ausência desviado a água da nascente para outro leito. Também eles, se soubessem, chorariam a dissipação de nós. Mas são simples joguetes do destino a quem roubaram o tabuleiro onde se moviam sob vontades que não dominavam. Agradeço-lhes inebriado por um desencantamento trôpego que afasto com as mãos do querer continuar. Permaneço na margem à nossa espera.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Já não sei voar...


É tão longa esta estrada onde, hoje, os meus passos se perdem de ti, afundando-se num lodo do esquecimento. Derretem as cores das palavras que antes por aqui galopavam na necessidade de te dizer que eras o caminho único dos meus dias. Já nem as mãos guardam o perfume das tuas como malhas onde se entrelaçavam, seguras de terem ancorado no porto desejado. Queimam, nas minhas costas, fogueiras acesas em noites de paixão mas que o fogo foi esquecendo de atear. São as folhas rejeitadas pelo Outono que me oferecem trilhos para pisar. É tão árduo o meu caminhar que, nos pântanos que se me abrem, os nenúfares já não resistem ao pousar duma borboleta e antes de chorarem, mergulham para abraçar as raízes. Desfocaram-se os teus braços onde eu desejei me enraizar. E hoje o meu mergulho desconhece o retorno. Afundo-me nesta estrada tão longa sem te encontrar no meu destino. Ter-te-ás perdido nalguma orla? Ou ter-te-ei deixado fugir nalgum desvio longe do meu olhar? Hoje percebo já não saber voar...

Partida sem adeus


A sombra dos continentes
distancia-se na vastidão do oceano,
há um Verão que arrefece
no esmorecimento das palavras,
esquecem-se os olhares
no fulgor dos peitos
apagado no espaço
duma viagem sem regresso.

terça-feira, 13 de abril de 2010

[IN] serenidades


São de mãos
os nossos lábios que se agarram
no sonho de dois corpos
acordados no deitar dos dias.

Embrenham-se pensamentos
na humidade salivar
das peles que transpiram
um desejo por adormentar.

Tocam-se os olhares
desvendados no raiar alvorejante
de duas bocas que se seguram
no prelúdio dum beijo.


Viagem ausente


Há um sabor de viagem
nesta permanência de estar
na tua ausência.
Sinto falta do eco das tuas sombras
no soalho dos meus passos.
Ouço minhas mãos gritarem desapertadas
num vale aberto
para apartar as nossas encostas.
Sobra um sorriso sem densidade,
em que as palavras se afundam,
nesta viagem perdendo o sabor
de data para regressar…

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Devaneios confessados


Conseguisse eu escrever
o que os poetas não lêem
e não te diria
serem teus lábios guloseimas
cobertas de chocolate
com que sulco a linha da vida
nas palmas das mãos
onde te trago.


À espera do tempo



Estava, sem que soubesse, na paragem à espera do tempo. Do tempo passado que precisava guardar numa caixa esquecida a que precisava voltar apenas para lembrar como não fazer. Esperava pelo tempo presente que me levasse num qualquer transporte para outro tempo onde fazer futuro. Passaste por mim. Não sei. Já não me lembro se te procurei. Mas avistei-te e chamei-te sem saber quem eras. Apenas porque as tuas palavras eram redes onde guardavas descobertas e descobridores, histórias e historiadores, sonhos e sonhadores. Eu que esperava pelo tempo, vi-te passar. Deste-me boleia para um tempo presente onde as tuas redes se abriram e as minhas palavras se prenderam. Sem pressa do futuro corremos. As palavras, as redes, as surpresas, os tempos, os presentes prenderam-se. Quando olhámos as palavras, os tempos, os presentes entrelaçavam-se num enrodilhado de segredos sonhados. Ou talvez fossem sonhos por segredar… Nos tempos abriram-se novos tempos e hoje, nas redes, guardam-se memórias, histórias, descobertas e sonhos que são nossos. De nós que ficamos em consecutivas paragens à espera que o tempo passe por nós e nos dê boleia para amanhã.

domingo, 11 de abril de 2010

Saudade



A saudade é um presídio de asas cegadas pela indefinição de retomar o voo perdido

Entra e fica em mim


Entra e fica em mim
como um sol que pede para passar a noite,
traz a serenidade das montanhas
e sopra-me a certeza de ficares
feita mar na firmeza de não partir.

Entra e fica em mim
como leitura interminável
decifrando caracteres enigmáticos do meu ser
escritos antes de existir
a espera dum abraço vestido na permanência.

Entra e fica em mim
como passos de destino único,
traz o fresco matinal nas mãos
e molha-me com os lábios melados
de antídoto certificado contra a ausência.

Entra e fica em mim
como névoa que se dissipa
revelando os cumes dos teus sonhos
na crença de seres luar
nas noites infindas de futuro.

Entra e fica em mim
como estrela que a cada dia
... em mim se põe.

Um instante no tempo



Tento deter no tempo, um instante
onde os olhares rumorejaram
na incerteza segura de quererem ficar
tão sós quanto a ilusão permita
pensarem-se incógnitos na multidão.


Detenho-me em frente ao espelho
na procura desse instante em mim,
mas não me encontro nessa névoa
de corpúsculos fragilizados em versos
roubados a pensamentos esmorecidos.


Há um tremor líquido nas lágrimas
que choro para me encontrar
neste tempo em fuga dum instante
onde os gestos correram carícias
numa pele percorrida devagar.


Dispo a solidão da madrugada
descascando favos de memórias,
procuro no rendilhado dos dias
um instante para deter o tempo
onde me encontre em mim.