domingo, 25 de abril de 2010

Oferenda

© S-t-r-a-n-g-e


Serenamente
regresso
àquela praia
onde nos teus dias
mergulho.



Recolho
um punhado de felicidade
que se esvai,
no tempo duma ampulheta de areia,
por entre os dedos abertos
que se te oferecem…
enquanto a vida se esgota
sem ti.

sábado, 24 de abril de 2010

[Des]Ilusão


Enchem-se de [des]ilusão
as horas estendidas pelos dias
de pegadas repetidas nas areias
onde a maré teima em não chegar.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

A verdade da mentira

© De-mure


A verdade é que quanto mais fingimos acreditar na mentira,
mais nos enganamos e distanciamos da nossa verdade!

quinta-feira, 22 de abril de 2010

A extensão da fogosidade


Por mais extensas
que as minhas palavras sejam,
nunca nelas lerás
o que te digo
na fogosidade dum olhar

Acordar amanhã


Acendo em cada parede
o branco imaculado por violar.
Meio algodão, meio cal
estendo os meus dedos por esse vazio
como se lençóis fossem onde me deitar.
Capaz eu fosse de cerrar os olhos
e com eles este presente
onde os pilares de amanhã tremem
na melodia por compor.
Contemplo o molho de chaves
que os dias me oferecem como percurso
para alcançar uma árvore de sonhos aferrolhados
em combinações secretas
que os pássaros um dia levaram
para inventar novas paixões.
Estremece-me o olhar quando leio
o branco brilhante que eu próprio escrevi
em cada uma das paredes com que me fecho
e cubro a incapacidade de alumiar a sombra
que me capeia o medo
de não saber acordar.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Ilusão


Nem toda a vida adiada caberá no futuro que nos resta!

Voo preso no porto

© Helena Paixão



Trazes um voo rasante de gaivota
nas mãos com que rasgas o peito da tarde
para desvendar puridades
cravadas no empíreo do teu olhar.

São nuvens de resistência desconhecida
os trilhos de memórias a que não pertenço,
franqueias-me o abrigo dum porto
em rumos explorados sem guia.

Contemplo a melancolia das redes
serenas no esperar das horas,
inquiro-me se suas malhas serão capazes

de escorar o amanhã, sem que te percam.

Atracam-se no cais as traineiras
onde embarcas sonhos de recordações,
partiram para descanso os marinheiros
e tu tomas a proa dum mar por enfrentar.

Permaneço num abrir de peito
onde te sinto as mãos, leme sem destino...
arrastam-se as gaivotas num voo planado
e eu, desembarcadouro de dias por agarrar,
percebo que só os seres alados
poderão ter a veleidade
de navegar sem âncora
nem a cabos aprisionados.


terça-feira, 20 de abril de 2010

Desventuras ao largo


Imperceptível ao desejo,
sopra na vela daquele navio
um vento acre de ciúme
quando o marinheiro sucumbe
à sedução marítima dum novo porto.

Secam na garganta

as sílabas crestadas pela traição
que a pele não evitou beber
ávida dum êxtase por descobrir.

Quando o corpo acorda saciado
na areia duma cama não dormida
há um cheiro a pão quente que lhe evoca
a distância por cumprir até chegar
ao porto seguro de regresso.

E por entre os dedos sobram
restos de tentação por mascar,
impregnando a carne com confissões
que o álcool do amor não saberá perdoar.


segunda-feira, 19 de abril de 2010

Na ilusão do sentir...

© not-yet-forgotten



… surpreso
… resisto
à tentação de perceber
se o que senti no meu rosto
foi o calor da tua mão,
a intensidade do teu olhar
ou apenas uma brisa da tua ausência…

domingo, 18 de abril de 2010

Mar em ti



O mar invade teus seios
como as minhas mãos
naquela noite de luar
em que as estrelas
se apagaram para ouvir
o silêncio gritar teu nome.

Os grãos de areia
intumescem as dunas
onde o vento hesita
entre a chegada e a partida
do lume que os dedos desenham
nas grutas de teu corpo.

Ficam na tua pele
algas soltas dos lábios
com que o sol beija amanhã.
Deito-me no teu sono
sentindo escorrer o pólen
que num voo asfixiado
transformas em sémen
do mar a que te entregas.

Nesse instante,
encho-me em marés no teu corpo.