sábado, 22 de maio de 2010

Na rota dum sentimento


Veleja comigo
por essa estrada de sinais
onde as palavras se perdem
e a velocidade não passa duma ilusão
com que o vento nos provoca o desequilíbrio.

Solta as amarras
dum beijo sem tempo
que se prenda nos meus lábios
e a corrente livre em que mergulhamos
seja o perfume dum sorriso que não se deixe apagar.

Ancora teu olhar
no mapa dos meus dias,
descobre as rotas dum horizonte
onde as lágrimas se entregam em ocaso
e a espera é indelével na luz duma vela por acender.

Aporta teu peito
no desejo de meu abraço
feito de sonhos desaguados
e a realidade se torna cais derradeiro
aonde as vidas se escondem do espectro da separação.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Lugares


Tenho dentro de mim um discreto conjunto de cadeirões onde se sentam aqueles em cujo coração existe um lugar onde me acomodo. São diferentes os seus rostos, as suas histórias, as suas intensidades. O que têm em comum é a existência duma data por mim guardada e em cujas memórias deles eu habito. Quanto mais distante elas perduram, mais confortavelmente se sentam em mim e eu me apaziguo neles.

Mas há sorrisos nascentes que tentam encontrar o seu lugar, enquanto tento perceber que espaço me oferecem. Nesse discreto conjunto de cadeirões que existe dentro de mim, há um lugar que guardo para ti. Assim consigas fazer-me sentir onde precisas que me aloje em ti.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Haverá?...


Haverá prazer que se estenda
para além do fugaz instante em que se o vive?...


Sopra um vento quente


Sopra um vento quente na vela branca do barco que se afasta. Não sabe, o vento quente, se a embarcação se separa se é ele próprio que a impele. A vela branca inunda-se dum laranja que pretende ser dourado, enquanto o sol desce sobre o mar, onde a ilha se aparta. Sopra um vento quente que varre a praia dessa ilha, onde as sombras se alongam distanciando-se do mar. Mergulha o dia na água onde dois seres se abraçaram. Sopra um vento quente sobre o sol que desce do céu para se esconder atrás do horizonte. Não há braços estendidos, nem olhares presos. Há um sabor de final de história sobre a água onde flutuam uma ilha e um barco soprados por um vento quente que não sabe os despegar. Recolhe-se a vontade na distância que se alonga sobre o olhar duma luz que se desencadeia. Sopra um vento quente arrefecendo o desejo de novos pores-do-sol. Adormece a ilha virando-se para nascente. Fecha os olhos, o marinheiro para não saber como nascerá o novo dia. Sopra um vento quente no escuro que abraça as novas horas. E quando a bola de fogo se levantar, numa nova manhã, do outro lado do mar, quem saberá dizer se os sonhos alcançarão o perfil duma mesma vela soprada por um vento quente que a assoprou para a imensidão solitária dum oceano, onde o marinheiro soltou as lágrimas de não sentir, na pele, o arrepio frio da areia dessa ilha onde deitou os seus desejos?

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Na insónia dos sonhos


Quando a ausência se deita na noite, as horas estendem-se numa auto-estrada muito para além dos quilómetros por percorrer. As recordações escoam-se por entre instantes arrastados de vigília e as memórias confundem-se no respirar de sonhos por acordar. Deito o meu corpo na tua ausência e sobra-me demasiado caminho até te alcançar. Oiço o ressoar do desejo na almofada onde os sonhos não conseguem adormecer as horas de vigília.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Inconfidências


As indicações que trouxera permitiram-lhe chegar, sem equívocos, da estação à morada que iria servir de primeiro refúgio nesta cidade onde passava as primeiras horas. Pousara a mala sem a desfazer e voltara a sair, sem noção de para, ou por, onde ir. As ruas estreitas davam-lhe a ideia de estar num bairro muito antigo, tradicional, de baixos recursos, certamente com muita história, com gente de idade muito avançada. Ao acaso, entrou num beco até cruzar uma perpendicular que percebeu descer em direcção a uma rua mais larga. Estava a sair do bairro. Os carros cruzavam-se em dois sentidos, num movimento permanente. A luz parecia irradiar dos dois lados. A sombra que lhe cobria o caminho abria-se, de ambos os lados, em largos de claridade. Passavam turistas de mapa na mão, verificando as identificações toponímicas. Optou por virar para a esquerda. Em pouco mais de cem metros entrava numa zona ajardinada, delimitada por um muro de onde se avistava um mar de céu desaguando sobre as telhas dum areal de edifícios das mais diversas dimensões. Estava num miradouro, no topo duma colina da cidade. Procurou um banco que não estivesse ocupado pelos que procuravam o registo fotográfico da vista deslumbrante, nem pelos que, alheios a ela, se entregavam à leitura dum jornal, dum livro ou duma simples folha de correspondência. Umas pequenas mesas com tampos redondos em pedra, serviam uma esplanada sombreada por árvores que impunham a sua existência e que alguns arrojados raios de sol se permitiam penetrar com júbilo. Soaram, na torre duma igreja que não deveria estar distante, seis badaladas. Captou-lhe a atenção o movimento repentino dum jovem sentado numa das cadeiras das referidas mesas, procurando reunir e transportar desordenadamente os volumes que estavam espalhados sobre ela.

outras inconfidências I

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Que...


Que as tuas últimas alegrias terrenas se insuflem como balões dos sorrisos que deixaste para trás e o sol te prove as memórias que deixas nos que, sem qualquer condição, te quiseram saber feliz…

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Quero ler-te devagar


Quero ler-te devagar
sem acender as luzes que acordarão a madrugada
letra por letra
para que os dias se tornem intermináveis;

Quero ler-te devagar
como sangue que escorre sem saber que irá secar
palavra por palavra
para que o amanhã não se esqueça de nós;

Quero ler-te devagar
sem antecipar as luas que chamarão as marés
linha por linha
para que os olhos não se cansem do teu sorrir;

Quero ler-te devagar
sem sobrepor as estrelas que indiciam novas noites
página por página
para que a vida se abra em renovados capítulos onde me escrever.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Inconfidências


Sentou-se na mesa e estendeu o seu desejo sobre aquela folha branca que já cortejara de soslaio. Como se num acto de contrição fosse explorando a razão daqueles actos e compulsivamente confessando o incumprimento das contenções a que o obrigava uma lei que adoptara como caminho de vida. Escreveu como se o tempo duma vida precisasse ser derramado sobre aquela mesa para ganhar espaço dentro de si, para tomar um novo rumo ou, como devido, afastar-se daquele a que fora incapaz de resistir, mas não sabia se queria esquecer.

Escreveu sem saber se o fazia para se purificar ou se como confidência a partilhar garantindo que o testemunho não se diluiria nas memórias. Jogava palavras sobre a mesa como se fossem cartas dum baralho em que apostara para ganhar, mas sem a certeza de o conseguir. Soltava-as sem pensar. Na realidade, como fora incapaz de fazer quando sucumbiu ao que muitos chamarão de prazer e alguns de tentação.

Obcecadamente escreveu como se as palavras não parassem e atropelassem o cântico que se começara a ouvir como cenário musical inesperado. Absorto não deu pelo tempo passar, nem pelo significado das badaladas que ressoavam na torre da igreja.


segunda-feira, 10 de maio de 2010

No trono do tempo *


Sento-me.
A demora não espera.
O tempo passa lá fora.
Espreita pelo vidro como se apreciasse uma natureza morta.
Olha-me com persistência como se esperasse que o fixasse nos olhos.
Como se quisesse recordar-me
que por mais que o ignore,
ele passa e arrasta-me no seu caminho.
Mas a verdade é que ele corre e eu fico.
Involuntariamente.
Aqui.
Sentado.
Neste lugar que torno trono do meu tempo.
Abro as mãos.
Estão vazias.
Levo-as à boca quando um aroma me acorda o olfacto da memória.
Uma luz entrou dentro de mim e acendeu a esplanada dum novo tempo.
Foi por este caminho que aqui cheguei.
É por essa felicidade que me demoro
nessa espera que tu chegues,
para ficares numa entrega sem tempo,
nesse lugar que te ofereço
diante daquele onde me sentei,
dentro de ti.

* a partir da imagem naquele lugar..., de sonja valentina