quinta-feira, 3 de junho de 2010

[Sobre]vivo


Sobreviver é permanecer vivo naquele fio que se estreita, numa espera [in]consciente do suspiro derradeiro, ou permanecer neste aguardar cônscio por um suspiro diferente que nos mostre valer a pena estar vivo.

Vazio

© serrah



Quando sobra noite nos lençóis em que me deito,
sinto o vazio do teu corpo na memória da minha pele.

Tarde na noite


Deita-se tarde esta noite
em que o silêncio tarda em calar-se.
Cheira a retardada a mortalha desta verdade
que se enruga na sombra dos sonhos.
São demasiados os passos
para alcançar a placidez da certeza.
Entalham-se em dúvida os trilhos desta calçada
subida no latejar da demora.
Alaga-se o espaço que se alarga
em soluços inquietos anoitecidos
na delonga deste deserto por adormecer.
Dispo a mudez e estendo-me no leito desmanchado
à espera que o amanhã se prostre a meu lado.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Como?


Como poderei apagar este fogo que me consome
se me falta a tua boca para beijar a sede?
Como poderei atracar este desejo que me atormenta
se me falta a tua mão para aportar a saudade?
Como poderei elevar esta visão que me adormece
se me falta o teu olhar para mergulhar a contemplação?
Como poderei enterrar este sofrimento que me amaldiçoa
se me falta a tua presença para afugentar a solidão?

No canavial dos teus pensamentos


Quando venta na esperança, uma suave brisa de inquietude, entro no canavial do teu pensamento desbravando trilhos onde me encontre. Roubo-te uma folha para enxertar a tua seiva no meu sangue, até chegar à eira onde me deito recuperando o calor do teu sonho …e espero que te desfolhes em mim.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Na embriaguez da saudade


Passas descalça pela longevidade da ausência
e sinto o frio dos teus pés em bagos de saudade.
Colho um cacho de memórias,
vindimadas no intervalo em que as minhas mãos,
cheias de tempo, pisaram a sícera da tua presença,
na qual me embriaguei até mergulhar nesta saudade descalça
da minha pele nua das tuas mãos.


sexta-feira, 28 de maio de 2010

Palavras Mágicas II



Tinha-as debaixo da pele, sob aquela camada com que se protegia para recusar os sentimentos e mostrar aos outros que não era ‘fraco’. Tinha-as escondidas, esquecidas, apagadas por aquele manto com que se cobria para recusar admitir que a emoção pode falar, ele que asseverava ser a razão o caminho único. Até que numa noite, um beijo, igual a tantos outros que trocara, teve um sabor diferente, estranho no princípio, saborosamente diferente sempre que, depois, o quis lembrar. E sem que o percebesse, em cada vez que o recuperou, foi-se despindo e elas, as palavras, acordaram e saíram pelos poros mais ensebados de protecção. Espreguiçaram-se e mostraram que os livros escrevem-se com sentimento e emoção. Os números são a razão. As palavras a magia…




Palavras Mágicas foi um desafio da Mafalda Branco que aceitei com muito prazer.
Transcrevo para a Calçada algumas dessas palavras que fui estimulado a deixar por lá.


Metamorfose dum abraço

© Rolka



Se um dia a lua se cansar de ver nossos corpos enlaçados,
diz-lhe que somos apenas cinzas de memória.
Fujamos nas asas duma Fénix e escondamo-nos,
num abraço fecundo, para além da borda da noite.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Adiar?...


Quando se adia, na incerteza de o dever fazer hoje,
que segurança se julga encontrar para além da vida?

Palavras Mágicas I


© Nic Duncan


Quantas palavras enchem um coração, guardadas nas incertezas, nos preconceitos, na timidez, na insegurança? Até que alguém entra, na procura de abrigo e, esquecendo-se duma pequena fresta aberta, as solta deixando voar punhados de sorrisos, de lágrimas, de magia...



Palavras Mágicas foi um desafio da Mafalda Branco que aceitei com muito prazer. Transcrevo para a Calçada algumas dessas palavras que fui estimulado a deixar por lá.