sexta-feira, 2 de julho de 2010

Pegadas de ti

© Neil-Claydon


Procuro no areal, as pegadas que a onda apagou,
mas os teus passos não regressam depois que a maré vazou,
resta-me inventá-los na espuma adormecida
que o sal dos teus beijos, nos meus lábios deixou…


Percurso


É tão longo o extenso corredor
que percorro para a ti chegar
na confiança emudecida de dar vida
a esta melodia composta para em ti ficar.

Pedes-me um sorriso para te semear
a felicidade infinita que te ilumina.
Há uma verdade simples mas opaca
que me detém no cruzar de cada esquina.

É tão infindável este corredor que corro,
enquanto a vida se emudece no adiar
da crença inata que se desmorona,
no tempo que tarda para a ti chegar.


quinta-feira, 1 de julho de 2010

Inexistência


Flutuam trechos de ausência
neste ecrã que se enche
com o vazio da tua distância.

Grande metragem sem intérprete,
invisibilidade incompreendida
ou partida antecipada.

Espelho sem imagem,
poema sem verso,
amar sem amanhã.

Folha escrita sem musa,
areal despido de pegadas
numa maré que não chega.

Vou apagar o dia
em que sem anúncio te apartaste
e só em memórias sobraste.


O amor



Não precisas de o fechar num gaiola,
nem de lhe prender qualquer baraço.
Porém, não esqueças de todos os dias
abrir a janela e mostrar-lhe que gostas
de o ver voar no teu horizonte.

Acordar *


Alonga-se o corpo,
prolongamento do acordar,
vontade de ir mais longe
do que o son[h]o deixou… 






* inspirado em 'dessins'

Alforria


Concedes-me alforria
e eu parto no primeiro galeão
sem timoneiro, nem destino.
Parto para a liberdade de ficar preso
a uma imensidão onde não me encontro
,
procuro o significado dos silêncios
em excertos de sombras que não desvendo.

Sopram ventos, formam-se tempestades,
raiam bonanças em céus aventurados.
Desfraldam-se olhares, despem-se palavras,
mas por mais paisagens que invente
é na areia conquistada da tua ilha
que a minha emancipação irá naufragar.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Pára sobre mim o teu luar


Pára sobre mim o luar
neste mar em que me abro
para tocar as margens da tua vontade.
Sente nas veias esta corrente
que os rios me trouxeram com o teu nome.
Flutuam à superfície sílabas de beijos,
alfabeto bordado na vertigem
de me entregar precipício
no livro que não me deixas ler-te.
Pára sobre mim o luar
e verás o sorriso soprar nas velas
das embarcações que dos meus sonhos partem
rumo ao oceano dos teus dias.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Sonho


Sonho-te onda ansiando pela preia-mar para me inundar areal seco pela saudade.

Fronteiras desp[ed]idas


Perco a fronteira do meu corpo
quando em gestos secretos
te lanças em poeira de desejo
sobre meu sono acordado.
Levanto-me dum poente adormecido
para te amanhecer além da ternura,
desnudo-te palavras e gemidos,
perdidos no sangue alvoraçado
que rasga o outono dos teus lábios.
Despeço-me do meu corpo
para entrar no teu
e nada mais quero
do que aquilo que te dou.

No silêncio das palavras não ditas


Procuro abrigo no silêncio
mas apenas sinto o frio
do teu não estar.
De que falam as palavras não ditas
se lhes falta o olhar
que se pede em lábios por beijar?