sexta-feira, 10 de setembro de 2010

De que me servem as palavras?...


De que me servem as palavras
se já não te inflamam o coração,
se apenas se resumem a chuva repetida
no lamaçal baldio em que me despojaste?

De que me servem as palavras
se da moldura ausentaste tua foto,
e as memórias não chegam para registar
os instantes que a tua fotogenia me fez escrever?

De que me servem as palavras
se já não caminhas sobre elas,
se tão sós ficam como pedras desprezadas
numa praça vazia ao cair da noite sobre a cidade?

De que me servem as palavras
se já não te embriagam o desejo,
se lhes sorveste todos os paladares,
se as gastei na ansiedade de te alimentar?

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Voo cego



Corro para um ninho
com desejo alado,
poeira de ansiedade
pousando em cegueira,
antecipando o que as mãos
não ousarão tocar
e os olhos recusam ver,
para não apagar
o deslumbre de ser meu,
esse ninho pra onde voo
sem olhar...



[palavras resposta inspiradas no poema "
Degraus", de Paula Raposo]


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Futuro

© CM

Na impossibilidade de ler o futuro,
aproveito para te escrever nele
e antes que o tempo do amor se esgote,
crio ruas para que sejas toponímia do meu coração.

Confissão


Há dias em que quero morrer para não sofrer…
Há dias em que quero morrer sem sofrer…
noutros sofro para não morrer.
… o amor é testemunha e réu deste sofrimento
em que permaneço, por querer morrer amado.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Na incandescência das palavras


Desabotoo cada palavra que te dispo
no anseio de aprazer tua chamada.
Arranco com os lábios cada sílaba,
que ainda colada na pele,
te impede a nudez total…
que só o meu olhar lobriga,
no escuro em que nos enclaustras,
ao apagares a luz da razão.
Percorro cada centímetro de ti
enquanto silencias gemidos solícitos
que não ousas verbalizar.
E quando te penetro
sinto-te, em arrepio, a traição
cometida à própria vida,
ao sorveres nas minhas veias
os sibilos de poesia com que te acirras.

domingo, 5 de setembro de 2010

Acreditar



Hoje, eu não quero ter passado!
... porque hoje quero fecundar-te a certeza
de nascer em ti
amanhã.

Resíduos de versos


Espalha as tuas letras
pelas palavras com que escrevo
a confissão dos sentimentos;

Desliza pela minha, a tua pele
como o casco que sulca na água
os trilhos reconhecidos pelas marés;

Prende em mim, teu olhar
como o sol que se demora ao longo do dia
recolhendo segredos que à noite sonha;

Fortalece no meu peito, teu abraço
onde os corações retêm os impulsos
e o desejo reivindica o desfalecimento.

Na antecedência da dúvida,
acende-me os faróis da certeza
que dizem ser efémeras as feridas,
cicatrizando-se na intimidade dos versos,
com que o amor acorda a loucura dos lábios
e o teu nome se torna eco
no declínio de cada beijo.

sábado, 4 de setembro de 2010

Equívoco


Não confundas a amizade com o amor.
Não confundas o entardecer, com o pôr-do-sol.
Não confundas a quem pertences, com quem te conquista.

Não confundas amizade com amor;
porque uma não precisa de ver, para sentir…
enquanto o outro é incapaz de ver, pois só consegue sentir.

A amizade, uma vez acesa, mantém-se brasa incandescente,
suporta rios, tempestades e tumultos.
O amor é fogo necessitando de lume aceso para arder,
enfraquece com as lágrimas, com a dúvida, com o silêncio...


Banco [ou uma declaração em pé]

© CM


Talvez um dia, quando a vida for um pôr-do-sol sem esperança, peça para te sentares ao meu lado, naquele banco de jardim desviado para um tempo onde o futuro já não floresce. Talvez um dia, quando o coração fraquejar e as batidas se espaçarem, te queira sentada ao meu lado, segurando o fôlego restante, escapando por entre as barras desse banco a que o tempo foi esquecendo de dar assento. Talvez um dia, quando o sorriso se apressar num suspiro débil, te peça para não partires e ocupes o lugar que fiz teu, nesse banco que roubei a um jardim sonhado, onde te plantei para que soubesses todos os arrepios que só a pele conhece. Até lá esperarei por ti. Mesmo que apenas as palavras sejam o beijo que não te disse. Mesmo que o medo não passe dum delírio de quem ama. Mesmo que os teus dedos se limitem a ser mares nas mãos que não sei navegar. Mesmo que a ausência gele a fogueira onde nos quero arder. Mesmo que a memória se esqueça de te lembrar o olhar que te aprisiona. Eu esperarei por ti! Ficarei, neste banco que o teu olhar fotografou, à espera que peças, para me sentar ao teu lado e contemplar a planície como um futuro onde os bandos quebram a ardência da dúvida, para pousarem num banco em que, sem certezas, esperarei por ti como o sentimento que fez do teu coração, o lugar de onde não quero me levantar.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Epílogo duma chegada em espera

© CM

Subi, pelas escadas do desejo,
ao trono do teu reino,
a noite reverberava-se na água
em manchas noctívagas
embriagadas de luz,
a monumentalidade da história
transpirava nas linhas das mãos
onde os dedos reaviam morada,
soltavam-se das paredes em espera
silêncios de vontade adiada,
a melodia agradecia à vida
o tanto que as sombras
declamam no saciar da chama
e o amor tornou-se soberano
num jogo onde os corpos
derreteram a distância…