Uma calçada para subir com o fulgor da paixão e descer com a convicção de regressar. Um espelho de momentos de contemplação, em que sentado num degrau observo, ouço e sinto privilégios que me sejam concedidos. Um lugar de recato onde semear divagações será a forma de descobrir novos caminhos.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
'Os livros que estou a ler' com Graça Morais
imagem recolhida aqui
Ainda gosto de ouvir
histórias. Mais me encanto quando elas narram episódios vividos com
personalidades que aprendi a ler, a ouvir, a olhar. No passado dia 12,
sentei-me no auditório da Casa Fernando Pessoa, para assistir a uma conversa de
Inês Pedrosa com Graça Morais, acerca de livros. A directora da casa anfitriã
fez uma sucinta apresentação biográfica da pintora, aludindo às exposições
patentes no espaço sobre duas obras de parceria de Graça Morais com Sophia de
Mello Breyner Andresen: Orfeu e Eurydice
e O Anjo de Timor. E foi por esta
relação com a poetisa que a artista plástica iniciou a conversa testemunhando o
deslumbre que lhe causara a escritora numa viagem que realizaram, integradas
numa comitiva presidencial, à Grécia. Os trabalhos de Graça Morais que
constituem a exposição Orfeu e Eurydice
foram realizados em papel para partitura. O papel branco não lhe é confortável,
revelou. E aquelas folhas, usadas pelo marido Pedro Caldeira Cabral para
transposição de partituras clássicas, têm desde logo as linhas das pautas.
Graça Morais enunciou alguns dos escritores com quem interpretou colaborações, na ilustração das suas obras escritas: Manuel António Pina, José Saramago,
Augustina Bessa Luís, Miguel Torga, etc. Falou das suas primeiras experiências de leitura
quando as bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian levavam a
Trás-os-Montes, livros que tinham de ser lidos em cerca de quatro dias. Leitora
especialmente de ficção, tem em A Sibila,
de Augustina, um dos livros mais memoráveis por ter reencontrado nas personagens
a vivificação das suas próprias tias. Natural de Vieiro, Graça Morais tem
ascendências rurais, por parte da família materna, e algo mais erudita, por
parte da paterna. Com conhecimento de causa, defendeu a importância do tratamento
da terra para acreditar na vida. Os que, por exemplo, cultivam uma horta,
argumentou, são estimulados pelo cíclico renascer; mesmo quando algo corre mal,
sabem que será uma fase pois a Primavera voltará a regressar. Graça Morais falou
ainda do seu fascínio por Cabo Verde e do seu interesse, enquanto leitora, por obras acerca do acto criativo. Referiu alguns livros que tem em
mãos e que deixou como sugestões de leitura: Nelson Mandela, uma lição de vida, de Jack Lang ou O Livro da Consciência, de António
Damásio. Confessou que se, hoje, tivesse possibilidade refaria as ilustrações
de O Ano de 1993, de Saramago
concedendo-lhes maior liberdade. E falou de África, da empatia que tem pelo
povo daquele continente e da forma como ele interfere em alguns dos seus trabalhos.
Para quem esteja
interessado, a Antena 1 transmite na íntegra, esta conversa, na próxima
sexta-feira, dia 15 pelas 21h00.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Noite vaza
Engravida de espera
este tempo em que te aguardo,
à beira-noite,
na ansiedade da enseada,
e que as tuas ondas de desejo
molhem as praias do meu corpo
e a espuma da entrega
permaneça sem horário
na memória das peles
até ao gerar dum novo abraço.
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domingo, 10 de outubro de 2010
No vão do tempo
Escondia-se, todas as noites, naquele vão de escadas por onde a ausência não passava. Permanecia! Naquele espaço esconso fazia por esquecer a vida, que se esquecia de si. Conhecia os passos que se perdiam periodicamente, numa rotina inconscientemente repetida. Passos indiferentes aos estados de alma dum tempo que caía pelos vidros estilhaçados, lá no topo, onde o telhado marcava a fronteira com o céu. Passos carregados pela idade, arrastados na doença, dolentes em vida que se alongava para além do limite do prazer, embebidos em sacrifício. Passos dissonantes, marcando ritmos disformes, incapazes de lembrar o que já teriam testemunhado. Passos últimos duma escala que teimava não ser concluída. Passos sobrevivendo sem fulgor. Sabia-os de cor. Em que momento chegavam. Por quantos minutos se demoravam. A ordenação que cumpriam. Conhecia-os como escritos que se identificam, palavras que se adivinham quando a alma indica a emoção a transcrever. O cansaço falava mais alto quando todas as portas adormeciam. Caía então, irrecuperavelmente, no sono. Até àquela noite em que novos passos lhe violaram a dormência. Eram leves, enérgicos, corridos. Saltavam os degraus, como pequenas aves de ramo em ramo. Levantou-se para tentar escutar melhor… sorrisos segredados, segredos suspirados, suspiros apaixonados. Dois andares acima, os sons abafaram-se na porta que se fechou. Com decisão caminhou até à da rua. Abriu-a e sonhou!
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
No cerco da noite
Acerco-me da amurada onde as aves noctívagas vêm depositar os segredos saqueados a rostos viúvos de ternura que perderam os gestos em viagens que não fizeram. Farrapos de desejo salgados por marés de lágrimas e vazados no exílio da espera inócua por onde as palavras se toldaram com lençóis ainda marcados pelas dobras engomadas no sorriso da esperança. Cercam-me lanchas com olhares de outros corpos. Vejo-lhes as correntes, as algemas, os cadeados, na tensão das pupilas, nas garras das gargantas, na erecção dos peitos. Furto-me a esse vento que move os mastros despidos de velas. Escuso-me aos chamamentos e reparo num par de asas esquecido por uma das aves na voracidade de entregar o seu corpo à convocatória do prazer. Alo os meus passos para depressa alcançar aquela ilha onde uma estrela se abrigou da chuva de luz que roubou à madrugada. Vi-a descer sobre o areal e dourá-lo. A espuma descuida-se pelos dedos dos pés… Mas? É então que reparo ser um corpo de mulher acolhido de costas, pelos grãos arrefecidos na noite. Inerte. Tomo-lhe o pulso. Reconheço-lhe o ritmo porque corre a vida. Levanto-lhe as pálpebras e identifico a cor de avelã esverdeada, percorro-lhe a pele e sei o lugar dos sinais, das marcas deixadas na pele, das cicatrizes que singularizam um percurso. Conheço-lhe o odor. E quando os seus braços me envolvem e os nossos peitos se colam, sinto nossos corações compassarem-se em uníssono… sei que és tu! Abro os olhos e confirmo que nessa noite pousaste na minha cama, qual ave em busca dum conforto, não de um ninho mas das asas com que te ofereço a certeza do amanhã.
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quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Visão
Olhei para trás
e não te vi,
não te anunciaras às
molduras
onde o passado se guarda…
Olhei em frente
e descobri
uma aura de ti
nas marcas das carícias
que o futuro
deixará como peugadas
dos teus gestos
em mim.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Dá-me palavras
Dá-me palavras
quando me faltas com beijos,
sê ilusão
desta certeza em que te procuro
sempre que me escrevo
por não te alcançar
o olhar do meu abraço.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Prova
Vem provar nos meus lábios
o sabor desta nau
de panos desfraldados
soprada pelo vento da saudade
em espirais de incenso,
eleva-te pelo mastro de canela
onde se iça uma vela
de chama acesa de desejo,
prende-te neste sonho timoneiro
segurando-te ao meu olhar
e prova-me que só a
morte
ordenará às pálpebras que desçam.
domingo, 3 de outubro de 2010
Espera
A noite inundou o silêncio
que já nublara o dia…
enquanto continuo na espera que chovam palavras.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
A TEMPO
Hoje
apetece-me sentar
no degrau do teu minuto seguinte
e,
ao passares por mim,
pedir-te
que não continues
com o tempo…
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