segunda-feira, 26 de março de 2012

Simples


Para ti MULHER
que te vestes
com as minhas palavras,
não sei
que mais genuínas carícias
sentirias
se o que escrevo
tivesse mãos… 

sábado, 24 de março de 2012

No vazio da noite

© Branka Kurz 

Inquietam-me as noites alagadas de palavras
preenchendo vazios deixados por nós,
nódulos de significados impraticáveis na escrita
que os corpos não se gravam por espaços de silêncio;
inquietam-me as palavras tingidas pela noite
em gritos mudos de apelo sem nome,
nós duma oração teimando em ser vocabulário,
pétalas desenganadas secando em altar protelado;
inquieta-me este lamento feito poema,
versos escurecendo no eclipse da esperança,
amanhã novo dia a madrugada acordará
e o corpo cansado pela inquietação do sossego
será um nó atando vocábulos alagados pelas noites
… só.

domingo, 18 de março de 2012

Tivesse eu


Tivesse eu um corpo
para nele escrever o meu
e assim sem pecado
vencer a mórbida solidão…
tivesse eu uns lábios
para de prantos fazer beijos,
imergindo o fogo das palavras
no intenso oceano das bocas…
tivesse eu um olhar
para nele tomar caminho
e de sonho bem aberto
fundear esta névoa sem destino…
tivesse eu uma noite
para nela acordar o dia
estendendo a madrugada
num labirinto de esperança
com saída para a vida…

sexta-feira, 16 de março de 2012

Assim


Prendes-me os braços,
pedes-me para ganhar asas
e eu cubro o peito,
com um véu translúcido de vontade
que descubras as palavras nele guardadas
à espera que me faças voo…

domingo, 4 de março de 2012

Ecos assombrados *


Moro na ilegibilidade do vazio,
endereço esquizofrénico da noite,
enlouqueço num monólogo repetido
e ensurdeço no sufoco da resposta
inventada porque impossível,
desmedida porque inexistente.
Soam ecos do que não sei ser,
a dúvida tece-se em obstinação
e a certeza entedia-se por não suceder.
Os pensamentos cruzam-se,
engradando a raia luminosa.
Esbate-se o negro em neblina,
seduzindo o olhar com ilusão,
mas por mim apenas passa
um laivo de esperança,
na cegueira embutida em solidão.

Lá fora,
dizem haver um bando de asas,
com rota definida…
e que os olhares repetem-se pelos dias.


* a partir da imagem meus silêncios, de sonja valentina

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Desvelar


Trouxe o fogo do mar
em ondas
para derramar sobre teu corpo
e ser areal virgem
que tuas mãos, em lume,
desbravam
até não haver mais noite,
nem velas,
por apagar…

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Acqua IV *


à superfície
a virgindade que meu olhar espreita
e, em silêncio, anseia desflorar
ao alcance dos segredos
que a transparência oculta
mas chama[-me]
para mergulhar
em vagas
que são o teu grito
[que não ouço]
porque quero calar…


* título aproveitado do álbum a que a fotografia pertence

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Pedra_das... XIII


talvez um dia te leia a profundeza das águas

quando teu olhar for fluido sobre a folha branca da minha sede.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A Cadeira do Tempo



Tiro ao tempo a cadeira
onde se senta
à espera que eu me canse
e desespere
e consumido
e exasperado
me deixe manietar pela sua implacabilidade.
Ah... pudesse eu tirar o tempo à cadeira
e sabê-la sem idade,
abrindo-me os braços para um enleio,
convidando-me para o descanso de sentir o tempo passar
como uma brisa que não me inquieta
porque descanso ao vê-lo suceder-se,
imperturbável à sua teimosia
em não se moldar ao meu caminhar.


domingo, 19 de fevereiro de 2012

Pedra_das... XII



arde num fogo por atear, o limite do grito que é sonho desenhando-se contorno dum coração... a descobrir e inspirar.