terça-feira, 29 de maio de 2012

A Sagração da Primavera

© Olga Roriz

A sombra faz-se sol
e a semente gesto,
rasgam-se os corpos

em gritos de terra,
rastilhos guerreiros
desventrando o poema.

Desnuda-se a vontade
de jáculos rítmicos
na lavra sublevada
pela impossibilidade do silêncio.

Do céu jorram contornos,
quiçá de corpos angélicos
sedentos do movimento
que se torna infinito,
até à hipnose visceral
da dança feita oração.

Teu será o reino
onde a areia se borda de ouro,
antes de ser território
para que teu corpo telúrico
seja resistência infindável.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Interregno


levas em cada partida
a veste de um sorriso
e deixas-me prisioneiro do frio
até que o sol me anuncie a sombra
do teu regresso.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Viver


o tempo passa devagar,
deixa-me medir-lhe cada segundo,
mas não o pulso
de artérias vazas,
sem o sabor
de se encher
lentamente
de felicidade.

domingo, 6 de maio de 2012

Máscara[s]


Na casa onde o céu mora
as mãos do homem moldam máscaras
que a mulher veste com timidez
sobre a nudez em que se entrega,
enquanto a sua voz íntima
se deita sobre as cinzas dum beijo
como se fosse ventre, a palavra
que nenhum dos dois reconhece
mas a que se acomodam
porque a noite é verbo
e os corpos conjugação.

sábado, 5 de maio de 2012

Fumaça


Enrolo as palavras
em mortalhas de confissão,
segredos inflamados na verdade
de códigos velados sob brasa;
ateia-lhes o lume de teu olhar
para que eu guarde o prazer
de me saber arder
soletrado na tua boca.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

À procura de futuro


Como última linha de um poema mal_dito
desfoca-se a narrativa a que [não] pertenço,
perco a geografia da tristeza nas palavras imigradas
e a dor é uma lâmina que se aguça no aprender da vida.

A cada pedaço em que morro
há uma confissão disfarçada,
extrema unção de um destino
em contra_tempo com a corrente.

Culpo os outros mas sou eu que não entendo
o idioma dos dias,
solitária clausura em que tento o regresso a mim mesmo,
de punhos algemados pelo medo
de não alcançar o derradeiro futuro.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Simples


Para ti MULHER
que te vestes
com as minhas palavras,
não sei
que mais genuínas carícias
sentirias
se o que escrevo
tivesse mãos… 

sábado, 24 de março de 2012

No vazio da noite

© Branka Kurz 

Inquietam-me as noites alagadas de palavras
preenchendo vazios deixados por nós,
nódulos de significados impraticáveis na escrita
que os corpos não se gravam por espaços de silêncio;
inquietam-me as palavras tingidas pela noite
em gritos mudos de apelo sem nome,
nós duma oração teimando em ser vocabulário,
pétalas desenganadas secando em altar protelado;
inquieta-me este lamento feito poema,
versos escurecendo no eclipse da esperança,
amanhã novo dia a madrugada acordará
e o corpo cansado pela inquietação do sossego
será um nó atando vocábulos alagados pelas noites
… só.

domingo, 18 de março de 2012

Tivesse eu


Tivesse eu um corpo
para nele escrever o meu
e assim sem pecado
vencer a mórbida solidão…
tivesse eu uns lábios
para de prantos fazer beijos,
imergindo o fogo das palavras
no intenso oceano das bocas…
tivesse eu um olhar
para nele tomar caminho
e de sonho bem aberto
fundear esta névoa sem destino…
tivesse eu uma noite
para nela acordar o dia
estendendo a madrugada
num labirinto de esperança
com saída para a vida…

sexta-feira, 16 de março de 2012

Assim


Prendes-me os braços,
pedes-me para ganhar asas
e eu cubro o peito,
com um véu translúcido de vontade
que descubras as palavras nele guardadas
à espera que me faças voo…