domingo, 22 de julho de 2012

Pedra_das... XV

© Luis

basta que haja um céu a convidar-nos para voar
e nas nossas costas abriremos o silêncio.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Pedra-das... XIV



aquietam-se em silêncio
as manhãs que te acordam em cio
e o meu corpo é jeira
onde teus dedos semeiam desejo...
para quê as palavras
quando a vontade ultrapassa o tempo?

quarta-feira, 4 de julho de 2012

como se o corpo fosse uma língua por aprender...


como se o corpo fosse uma língua por aprender
e o fogo adormecesse na tradução da teia,
os dedos tecem o caminho das sílabas
que os lábios insistem provar noutra boca. 

enleado devoro o cheiro ébrio da nudez
descarnada pelas mãos peias em loucura;
chegas repetidamente com o nome da noite
trazendo o braseiro do leito no teu ventre. 

decifro o significado onde o prazer se confunde
no escuro e no lume do rio que me arrepia,
aí começa o sangue a inflamar essa língua
com que me ensinas o latejar dos corpos. 

como se o corpo fosse uma língua por aprender…
ou por navegar.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Duas páginas

© Techo

permanecemos abertos lado a lado, como dois desertos sem género, no prefácio da irrupção. separa-nos uma sutura que nos une, qual fronteira que nos define território. escrevo-me em ti. escreves-te em mim. e assim iniciamos a profanação da virgindade. sedução que não se ouve, mas por onde se avança, como mar invadindo o areal sequioso de se sentir banhado. crescem palavras em ondulação e enche a maré que já fez esquecer o deserto. e quando em nós nada mais cabe, fechamo-nos. e unidos tornamo-nos um único. tocamo-nos, provamos os sabores, aromas e intensidades do que escrevemos quando éramos desertos sem género, preenchendo-se de desejo. na tua página em branco, escrevo-me. escreves-te na minha página por satisfazer. também assim se escrevem histórias de amor.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Vem acender-me a noite!


traz-me a energia de um beijo,
devolve-me o fogo dos lábios,
devora comigo a sede das bocas,
enfeitiça o sabor das línguas
esquecidas de que há mais do que palavras
para silabar em murmúrios desvendados;
vem roubar-me o tempo que te ofereço,
ser retrato do que teimo não revelar,
segurar as horas esvaídas em silêncios,
vestir o ocaso do voo desnudado
desesperado pela infinita delonga
da pele por escalar em aromas de suor;
vem acender-me a noite!...
bastará seguires o calendário
omissor das folhas de futuro
onde os dias se jogam a dois.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Nas margens da noite


Deita-te
nesta alcova de palavras,
deixa-me acariciar-te em significados,
intumescer-te o verbo
até que sejas imperativo,
deixa-me ser segredo
da noite que adivinho
e em que te surpreendo
na margem duma página
onde te esqueceste do corpo,
nota que me explica a sombra…

apago a luz e escrevo
para te sentir chegar.

terça-feira, 29 de maio de 2012

A Sagração da Primavera

© Olga Roriz

A sombra faz-se sol
e a semente gesto,
rasgam-se os corpos

em gritos de terra,
rastilhos guerreiros
desventrando o poema.

Desnuda-se a vontade
de jáculos rítmicos
na lavra sublevada
pela impossibilidade do silêncio.

Do céu jorram contornos,
quiçá de corpos angélicos
sedentos do movimento
que se torna infinito,
até à hipnose visceral
da dança feita oração.

Teu será o reino
onde a areia se borda de ouro,
antes de ser território
para que teu corpo telúrico
seja resistência infindável.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Interregno


levas em cada partida
a veste de um sorriso
e deixas-me prisioneiro do frio
até que o sol me anuncie a sombra
do teu regresso.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Viver


o tempo passa devagar,
deixa-me medir-lhe cada segundo,
mas não o pulso
de artérias vazas,
sem o sabor
de se encher
lentamente
de felicidade.

domingo, 6 de maio de 2012

Máscara[s]


Na casa onde o céu mora
as mãos do homem moldam máscaras
que a mulher veste com timidez
sobre a nudez em que se entrega,
enquanto a sua voz íntima
se deita sobre as cinzas dum beijo
como se fosse ventre, a palavra
que nenhum dos dois reconhece
mas a que se acomodam
porque a noite é verbo
e os corpos conjugação.