Uma calçada para subir com o fulgor da paixão e descer com a convicção de regressar. Um espelho de momentos de contemplação, em que sentado num degrau observo, ouço e sinto privilégios que me sejam concedidos. Um lugar de recato onde semear divagações será a forma de descobrir novos caminhos.
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
Inóspito
Já não te vibra na boca
o nome
que mãos diluídas
deixaram pelo chão,
em sombras
de passos... partidos.
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
Pedra_das... XVI
há - no meio da multidão - um vácuo
que se torna cárcere das palavras, eco de passos perdidos.
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
O Prisioneiro do Céu
Num regresso ao universo dos livros esquecidos e de autores
malditos, Zafón leva-nos pela Barcelona franquista, num enredo de ficção que
esbate fronteiras com a realidade duma Espanha sob a batuta da ditadura. Em O Prisioneiro do Céu, um livro abre-nos
as páginas do passado dos protagonistas e arrasta-nos para as memórias dum
cárcere político, narradas com tal pormenor e sentir que quase se julga
impossível que o autor não o tenha vivido na pele. Num exímio e contínuo
revelar de detalhes da vida espanhola do pós-guerra, a ‘história’ da vida dos
Sempere é revelada. O Prisioneiro do Céu
é um labirinto em que corremos pelos enigmas e tensão usados pelo autor na sua
escrita, a qual transporta sempre tal dose de sentimento que todos os factos se
nos afiguram verídicos. Mas Zafón, através da sagacidade de Fermín, usa também
o humor condimentando a obra com um rasgo muito próximo da perfeição. A mim,
esta mais recente publicação do escritor catalão, devolveu-me o entusiasmo de
leitura experimentado com A Sombra do
Vento. E ao chegar ao fim, fica a vontade de repegar nas duas obras que
antecedem O Prisioneiro do Céu, para
[re]organizar todos os detalhes duma teia em torno da família Sempre, do
Cemitério dos Livros Esquecidos e do fascínio por uma Barcelona acinzentada por
mistérios que nos prendem, arrepiam e emocionam.
terça-feira, 28 de agosto de 2012
Jurar-te
jurar-te
o sonho consagrado
em que minhas mãos te esboçam o corpo
e nos teus lábios bebo a confissão ansiada
de que acordar
não será o desfalecer desta fantasia
em que nos quero.
domingo, 22 de julho de 2012
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Pedra-das... XIV
aquietam-se em silêncio
as manhãs que te acordam em cio
e o meu corpo é jeira
onde teus dedos semeiam desejo...
para quê as palavras
quando a vontade ultrapassa o tempo?
quarta-feira, 4 de julho de 2012
como se o corpo fosse uma língua por aprender...
como se o corpo fosse uma língua por aprender
e o fogo adormecesse na tradução da teia,
os dedos tecem o caminho das sílabas
que os lábios insistem provar noutra boca.
enleado devoro o cheiro ébrio da nudez
descarnada pelas mãos peias em loucura;
chegas repetidamente com o nome da noite
trazendo o braseiro do leito no teu ventre.
decifro o significado onde o prazer se confunde
no escuro e no lume do rio que me arrepia,
aí começa o sangue a inflamar essa língua
com que me ensinas o latejar dos corpos.
como se o corpo fosse uma língua por aprender…
ou por navegar.
terça-feira, 26 de junho de 2012
Duas páginas
© Techo
permanecemos abertos lado a lado, como dois desertos sem género, no prefácio da irrupção. separa-nos uma sutura que nos une, qual fronteira que nos define território. escrevo-me em ti. escreves-te em mim. e assim iniciamos a profanação da virgindade. sedução que não se ouve, mas por onde se avança, como mar invadindo o areal sequioso de se sentir banhado. crescem palavras em ondulação e enche a maré que já fez esquecer o deserto. e quando em nós nada mais cabe, fechamo-nos. e unidos tornamo-nos um único. tocamo-nos, provamos os sabores, aromas e intensidades do que escrevemos quando éramos desertos sem género, preenchendo-se de desejo. na tua página em branco, escrevo-me. escreves-te na minha página por satisfazer. também assim se escrevem histórias de amor.
terça-feira, 19 de junho de 2012
Vem acender-me a noite!
traz-me a energia de um beijo,
devolve-me o fogo dos lábios,
devora comigo a sede das bocas,
enfeitiça o sabor das línguas
esquecidas de que há mais do que palavras
para silabar em murmúrios desvendados;
vem roubar-me o tempo que te ofereço,
ser retrato do que teimo não revelar,
segurar as horas esvaídas em silêncios,
vestir o ocaso do voo desnudado
desesperado pela infinita delonga
da pele por escalar em aromas de suor;
vem acender-me a noite!...
bastará seguires o calendário
omissor das folhas de futuro
onde os dias se jogam a dois.
sexta-feira, 15 de junho de 2012
Nas margens da noite
© CelineM
Deita-te
nesta alcova de palavras,
deixa-me acariciar-te em significados,
intumescer-te o verbo
até que sejas imperativo,
deixa-me ser segredo
da noite que adivinho
e em que te surpreendo
na margem duma página
onde te esqueceste do corpo,
nota que me explica a sombra…
apago a luz e escrevo
para te sentir chegar.
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