domingo, 20 de janeiro de 2013

Desflorar


esconde-me incauta na pena das asas
na dilação para o voo sob tua anágua,
é em surpresa que o vento sopra brasas
e me deixa ditoso cativo de tua frágua.
antes ser restolho do que promessa,
cântico velhão que insistes aprender,
oculto-me na sílaba que te atravessa
e te fecunda em gemido de prazer.
sê salvádega de meu naufrágio em ti,
acoita-me no dulcificar que se ordena
quando tua volúpia lodosa em mim sorri.
prende-me casto, nessas asas. sem pena!

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Incendiado

© JCGrant

sê vela
e veia!
incendeia-me
sangue
dentro de ti!


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Rogo


que as palavras se recolham na gruta onde os sentimentos nascem
e dela apenas saiam as inadiáveis e transparentes.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

O Poema


depurado,
o poema fecha-se na boca
até que um beijo o abra.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Violeta

© Jason P

tinha um vestido violeta
cobrindo-lhe toda a nudez
e o sangue só me perguntava
qual o segredo da sua tez.


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Circular


antes que o sangue seja estátua, incendiaremos a confissão das noites e a febre descerá sobre a intranquilidade das pálpebras. a inconsciência esgotar-se-á no perdão rebuscado, pintado de vontade, pretensão de ser escora. façamo-nos língua, pois só no verbo a exuberância do infinito não coagulará.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Palavras em Outono

© auster

caídas, as palavras cobrem em manto o território dos passos. significados vazados pela indiferença de rumos em rotina. esbatidas pelo alhear dos olhares, as cores anunciam ter o outono descido sobre a inspiração. secam vocábulos por endossar, no rumorejar de sílabas esmagadas sem vindima.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Uma manhã...


incapaz de subir acima do horizonte, um sol débil de dezembro beijava-lhe o rosto. disfarçava num olhar distante, a atenção descida sobre si. comprimia-se para segurar as águas que o olhar dele lhe despertavam, ao pretender tocar o invisível.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Voando


sobre a sombra,
voa em silhueta,
talvez em busca de pouso,
quiçá de rota...
segura
que nem só de sol
se tecem os endereços cálidos.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Pintar.te


eram frutadas
as manhãs em que o meu corpo
chegava com o sabor da tua vontade
e a primavera se desdobrava
nas cores de um quadro,
no qual
deitada te aprestavas
para o silêncio do meu abeirar-te,
antes dos nossos olhos se fecharem,
na noite
e em relâmpagos acendermos
a rendição embriagada.



© palavras minhas para uma pintura de Eduardo Afonso Viana [1881-1967]