segunda-feira, 17 de junho de 2013

Lembrou-o...


lembrou-o,
naquela tarde,
como à ferida quente
caída sobre o peito
onde a vida corria
sem engano.

esboçou uma linha,
simples tentativa interrompida,
pois contínua
só a mentira
mordida no bago
escorrendo
a ilusão de não ter idade.

lembrou-o
naquele pensamento
onde o amor se disfarçava
de memória.

sábado, 4 de maio de 2013

Nuno Guimarães [1960 - 2013]


É tão vasta e abrangente a sua escrita que quase não parece possível de um único ser. Mas tu foste um Ser enorme, Nuno!

Acredito que a empatia entre nós terá nascido, quase de imediato, nas primeiras palavras que nos lemos. Nos cerca de trinta e dois meses em que nos conhecemos, o que nos oferecemos foi, creio, sempre uma permuta de entendimento, de respeito e de admiração.

Era enorme o teu saber arrumar as palavras, jogar com elas, calculá-las, elaborar equações com elas, adocicá-las, mas também provar-lhes o seu flanco acre.

Permito-me afirmar que se sente como o teu sangue queimava o que escreveste. Também se te sentia a dor da distância. Porventura terá sido esta que te concebeu o amor à língua, à arte e à cultura que são nossas. Porventura terá sido ela que te deu a força para diariamente içares a bandeira do que te pertencia, do que é nosso. Porventura terá sido ela que terá permitido aos lituanos - que amaste e te amam – conhecerem, pela tua mão, a criatividade artística lusa, seguramente melhor do que muitos portugueses conseguirão neste nosso território.

Já é tarde, Nuno. Hoje, já é tarde para te pedir que não pares essa cruzada. Hoje já é tarde para te pedir que não pares de escrever. Mas hoje ainda há tempo, hoje ainda nos sobra tempo, para te ler. Uma, duas, três, repetidas vezes te ler. Até que as tuas palavras nos sejam pele. Ou então até que te sigamos ao encontro desse dia em que iremos ser felizes “voando talvez noutro céu, talvez pisando outro chão, chorando talvez noutro véu”.

Sobrevivemos-te Nuno, mas não o faremos, segura e felizmente, a muitas das palavras que deixaste como testemunho do que és. Felizmente!

Um abraço, Nuno! Como todos os outros: sentido!!!

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Pares



gosto de provar-te a pele


lavada no viço da minha

lavada no viço da minha
tua boca alvoroça o fogo

tua boca alvoroça o fogo
aceso em noites de sede

aceso em noites de sede
transpiro a míngua do corpo

transpiro a míngua do corpo
vestido com arrepios ardentes

vestido com arrepios ardentes
de saliva debutante tecido.
  

domingo, 21 de abril de 2013

Renascer



a primavera
ainda não aprendeu a ludibriar a tristeza,
mas os pássaros já regressam,
tudo cresce;
há uma nova melodia
nos aromas por redescobrir,
e, nas bocas, ribeiros por inventar

de beijos por repetir;
já não preciso dos livros,
as palavras desfiam retratos
de momentos por emoldurar,
memorizo a receita para as noites deitadas no linho
e espero-te com um cálice de verão
por provar.


sexta-feira, 19 de abril de 2013

Regaço de palavras



nos silêncios sepulcrais,
pousava palavras no regaço.
mas não as lia!

antes esperava que elas lhe tomassem o pulso
e lhe lessem a orfandade que alaga o futuro
a quem castraram o sorrir.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Desnudar o segredo


desnudar-se-á o segredo
quando me despir em palavras
e for meu o teu olhar,
segurar-me-ás cada sílaba 
como quem agarra a carne nua
com as unhas que deseja tatuar.

desnudar-se-á o segredo
quando me provares as palavras
e for meu o teu hálito,
saborearás cada significado
como quem se entrega à pele nua
no instante inadiável.

desnudar-se-á o segredo
quando sem palavras, revelares
ser eu
o teu segredo
nu.


segunda-feira, 15 de abril de 2013

Lentidão veloz


é lento,
não sei se o tempo,
se o passo
a que os versos se desmoronam
num querer penitente
por não alcançarem
o consentimento do destino
para serem livres
na velocidade obscena
com que o desejo
quebra o sossego.

sábado, 13 de abril de 2013

Caminhos


deixei as mãos caírem 
no caminho dos passos,
talvez em busca do tacto,
porventura de um rumo...
porque os pés não agarram 
e só as mãos
poderão encher-se do vazio
que a tua veste já não cobre,
pois que dos passos
remanesce o caminho
por onde o vento se arrasta
numa rota de pegadas
...
apagadas!


quinta-feira, 11 de abril de 2013

Crepitante


há um corpo que não dorme
porque a lareira crepita
e chamas
com essa voz que não ouço,
nessa vez em que não chegas,
as horas tecem um labirinto
e o fogo fraqueja,
num voo frágil de cansaço
porque há um corpo que não dorme
e é o meu,
porque o teu não chega,
nem ouves o tremor
em que me estendo,
enquanto o desejo adormece.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Depressa



enquanto se faz tarde
risco teu nome
numa ardósia de horas
frias e esquecidas
do silêncio
quando o vento declamava,
no teu decote,
os segredos roubados
às horas em que sem voz
te chamava
nas tardes que nasciam cedo.