quarta-feira, 3 de julho de 2013

Desnudação


com que palavras te vestes
quando das minhas me dispo 
e na nudez em que me ofereço 
leio-te a dúvida de seres tentação?

[a]tira[-me] todas as palavras!
para que na tua candidez 
o meu olhar se escreva
nu
e lento
se deite 
na tua pele em vigília.



segunda-feira, 1 de julho de 2013

Pensamento


um dia serei o banco onde sentas os teus pensamentos
e esperarei que o teu suspiro se acomode no lugar vago
de onde parto para viajar.

sábado, 29 de junho de 2013

Inspiração


não sei se me escrevo,
se te escrevo...
sei que me exponho 
para que me recolhas.


quinta-feira, 27 de junho de 2013

Vertigem


tão fugaz a tontura,
tão ébrias as palavras,
tão virgens os lençóis da noite
na transparente primeira fusão dos corpos.


terça-feira, 25 de junho de 2013

Esquecido(s)


comemos o pão, as memórias e o cheiro,
o vento cobre-nos com cinzas
talvez o passado,
porventura o presente 
de horas sem fim
sem aroma,
sem lembranças,
apenas com os grãos
em que ardemos
sem percebermos
que não sendo alimento,
seremos esquecidos
antes que as horas
não tenham fim.


domingo, 23 de junho de 2013

Horas incompletas


houvesse uma hora incompleta
e nossa história fosse um corredor
de portas por fechar,
houvesse uma história incompleta
de horas por percorrer
e por acabar...


sexta-feira, 21 de junho de 2013

Rendo-me!


rendo-me,
se a boca te cala
e as mãos discursam
provo-te a fome
enquanto amadureço
e aguardo,
pacientemente,
perante a impaciência 
que te descontrola;
dominado
perco-me
na tua boca
nova
que não fala
e me acolhe,
em profundidade
rendo-me.


quarta-feira, 19 de junho de 2013

Dá-me a noite!


dá-me a noite!
de todas a mais longa,
aquela em que nossos corpos não se cansaram 
na demora de se pertencerem.


segunda-feira, 17 de junho de 2013

Lembrou-o...


lembrou-o,
naquela tarde,
como à ferida quente
caída sobre o peito
onde a vida corria
sem engano.

esboçou uma linha,
simples tentativa interrompida,
pois contínua
só a mentira
mordida no bago
escorrendo
a ilusão de não ter idade.

lembrou-o
naquele pensamento
onde o amor se disfarçava
de memória.

sábado, 4 de maio de 2013

Nuno Guimarães [1960 - 2013]


É tão vasta e abrangente a sua escrita que quase não parece possível de um único ser. Mas tu foste um Ser enorme, Nuno!

Acredito que a empatia entre nós terá nascido, quase de imediato, nas primeiras palavras que nos lemos. Nos cerca de trinta e dois meses em que nos conhecemos, o que nos oferecemos foi, creio, sempre uma permuta de entendimento, de respeito e de admiração.

Era enorme o teu saber arrumar as palavras, jogar com elas, calculá-las, elaborar equações com elas, adocicá-las, mas também provar-lhes o seu flanco acre.

Permito-me afirmar que se sente como o teu sangue queimava o que escreveste. Também se te sentia a dor da distância. Porventura terá sido esta que te concebeu o amor à língua, à arte e à cultura que são nossas. Porventura terá sido ela que te deu a força para diariamente içares a bandeira do que te pertencia, do que é nosso. Porventura terá sido ela que terá permitido aos lituanos - que amaste e te amam – conhecerem, pela tua mão, a criatividade artística lusa, seguramente melhor do que muitos portugueses conseguirão neste nosso território.

Já é tarde, Nuno. Hoje, já é tarde para te pedir que não pares essa cruzada. Hoje já é tarde para te pedir que não pares de escrever. Mas hoje ainda há tempo, hoje ainda nos sobra tempo, para te ler. Uma, duas, três, repetidas vezes te ler. Até que as tuas palavras nos sejam pele. Ou então até que te sigamos ao encontro desse dia em que iremos ser felizes “voando talvez noutro céu, talvez pisando outro chão, chorando talvez noutro véu”.

Sobrevivemos-te Nuno, mas não o faremos, segura e felizmente, a muitas das palavras que deixaste como testemunho do que és. Felizmente!

Um abraço, Nuno! Como todos os outros: sentido!!!