quinta-feira, 13 de março de 2014

"Orfeu e Eurídice", de Olga Roriz, pela Companhia Nacional de Bailado

© CNB, Rodrigo de Souza [intérpretes: Filipa de Castro e Carlos Pinillos]

como um vento,
um rodopio de pensamentos
seduz-me e verga-me.

na crucificação da atracção
o grito toma corpo
numa dialéctica de lamentos.

há uma prece
e uma súplica de sangue
e um nome feito voz
em mortalhas de memória
por despir,
ecos do meu querer
feito pranto.

elevam-se voos de feminilidade,
bordados em mel
e na amplidão de asas.

sobre o frenesim de violinos,
sussurros espalham-se pelo chão
em pulsar universal.

desenha-se um círculo de âmbar,
sinto o intangível,
na ausência de ti
construo-te presença
em que só a pele te sabe
aroma recuperado,
abraço impraticável.

no reino de Hades
há jogos de invisibilidade
e cantam os anjos
serpenteando ,
por entre o vibrato das cordas,
a permissão de felicidade.

carregar-te-ei
rumo à vida.
segue-me! segue-me!
segue-me até que a tentação nos condene
e a multidão,
elegendo-se juiz,
nos separar territórios.
dançaremos!
encandeados pela luminosidade
que nos é visão
e cegueira.

depois…
depois, num labirinto de espelhos
a demanda de um rosto
que personifique a memoração
e justifique o crer.
depois…
depois fugirei,
tanto quanto possa
até ao lugar da morte
e aí me finarei
iluminado pela lua,
a única que ousa
roubar-nos em luz,
o sol.


domingo, 19 de janeiro de 2014

O Passado


Nem sempre é fácil, nos regressos, recusar aromas do passado. Ao regressar a Paris, para formalizar o rompimento com o passado, Ahmad, talvez não adivinhasse o quanto iria ter de mexer no seu passado, mas sobretudo o quanto o presente iria dificultar os passos imediatos para o futuro. Ao regressar, Ahmad, vê-se envolvido num trama de dilemas morais e emocionais que, frequentes vezes, mais do que realidades, são suposições com que as complexidades humanas fazem tremer os dias.

Quantas ruínas se poderão descobrir num regresso ao passado? Quantas feridas, abertas por mal-entendidos, ficarão por sarar por não se enfrentar, um regresso ao passado, com a capacidade de franquear a verdade e desmistificar segredos?


Com este regresso a um conflito familiar, em “O Passado”, Asghar Farhadi – vencedor do Óscar para Melhor Filme Estrangeiro 2012 – revela-nos ainda que enquanto uns recusam aromas para romperem com uma vida passada de que tentam fugir no presente, para outros a fragrância do passado é a forma de devolver à vida quem se recusara a continuar presente.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Criação

© Arild Heitmann

invento um deserto
onde só existe a tua boca
e o oásis dos meus lábios.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Formas


é nesse teu modo irreverente de seres oceano que encontro as formas do teu mar, os limites da minha vontade ancorando nas margens do teu desejo e o sal da sede demorando-se nas ondas que atormentam os corpos.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Mulher

© Judy W

surpreendeu-se!
... como se ela fosse uma obra de arte.
contemplou-a!
... como se um modelo fosse.
tocou-lhe!
... como se a pele lho pedisse.
beijou-a!
... como se a boca falasse.
e amou-a só...
como uma mulher poderá ser!

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Romance de um dia de estrada


chegou-lhe na maresia das horas.
esquecido pelo tempo,
fora um caminheiro sem bússola.
no alpendre da desesperança
sentou-se num banco exausto pela espera.
soltou uma página do manancial que lhe é sangue
e ela, enfeitiçada pelo que ouvira,
arrendou-lhe a assoalhada que mantinha vazia:
o seu peito;
que ele pagaria com versos
roubados à brisa dos dias.
e assim preencheram as horas
que de tão cheias
lhes secaram as bocas,
que de tão impacientes
ensandeceram as peles,
que de tão abrasadas
despiram o alqueive legado pelo rigor do inverno
e, em marés cheias, vestiram-se mutuamente
esquecendo o tempo que resta
para o ponto cardeal
onde a vida termina.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Adiante


fechei a noite
como quem arruma uma gaveta
a que não voltará nas próximas estações. 
horas e horas por usar. 
cores desbotadas
por tantos olhares sem razão. 
um vazio de lugares 
cheios de ausências. 
e no fundo
uma folha
onde um dia
escreveras uma manhã 
inundada de cidades por conquistar.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Dança

© Jane

pudesse meu olhar acordar um lago de luz onde teus pés dançassem e num sopro as cordas abraçassem a melodia para fazer do teu movimento, canto.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Infinitus


é nesse limite infinito de onde me chamas, que me conjugo.

imperfeito será, eternamente, o tempo onde não nos perpetuamos.


domingo, 1 de dezembro de 2013

Convite


escrevamos nomes numa rocha
a que o mar deu corpo
no resgate das ilhas. 
perdamo-nos do vento da prosa,
se na poesia temos por percorrer
incomensuráveis milhas.