Uma calçada para subir com o fulgor da paixão e descer com a convicção de regressar. Um espelho de momentos de contemplação, em que sentado num degrau observo, ouço e sinto privilégios que me sejam concedidos. Um lugar de recato onde semear divagações será a forma de descobrir novos caminhos.
terça-feira, 16 de setembro de 2014
Por vezes...
trazes o cheiro a terra molhada
e versos, que não sabes,
escrevem-te desejos moldados ao corpo.
amanheces cores de madrugada
e eu lavo, em ti, meu olhar.
voa-te dos dedos a intransigência dos gestos,
mil vezes ensaiados em lençóis de linho vazio.
pouso a vida num teorema adiado
e desfaço em sementes o manto de solidão
... enquanto dizes bom dia
e me fazes caminho.
terça-feira, 27 de maio de 2014
Ficarei *
ficarei!
um pouco
mais
do que a
despedida do sol.
para além
do caminho
desenhado pela luz
e do adeus
que prometo não dizer.
deixa-me
ficar
no regresso
do silêncio
que aplana
o areal
e desvenda
o espelho
onde o mar
vem repousar.
deixa-me
ficar
até que a
maré
chame de
novo
o coração
ao mar
e o
pesqueiro lance redes
onde o dia
nos virá
acordar.
segunda-feira, 24 de março de 2014
sábado, 22 de março de 2014
Cárcere
desviem de mim os parcos raios de sol.
não quero calendários em contagem decrescente,
nem o merecimento de indultos,
enquanto tua volúpia me for cela,
sussurrando na escrita que me é ópio.
quinta-feira, 20 de março de 2014
A tua mão
a tua mão
esquecida sobre o meu peito...
esfriando na distância,
derrete a insistência de um fogo
há muito extinto,
congela horas cheias de vazio;
a tua mão
esquecida sobre o meu peito
é a fragilidade de abandonarmos vida.
terça-feira, 18 de março de 2014
Era...
era... talvez fosse um pássaro. só poderia ser uma ave que sobrevoou o cálice e, com uma brisa, ergueu uma lacónica ondulação na sícera intacta. só podem ser de asas, os rumores que se constroem em ninho, no meu peito. e que crescem em sismo abalando a lucidez, a racionalidade, a quietude. nada permanece vertical. perdi os passos, perdi o pé e o solo. mas para que precisaremos do chão, se caminhamos sobre nuvens? talvez seja um voo o que se alojou no meu peito e me roubou a sobriedade. ímpeto anónimo que calou a razão. doce embriaguez que me extasia, mesmo que ilesa a sícera continue no cálice. só eu sei destas asas que me tentam rasgar o peito... e o meu voo já vai mais longe do que os pássaros.
domingo, 16 de março de 2014
Página em Branco
se indecifrável esta página
de escrita prometida
onde todos os dias
nos enfrentamos
por entre formalidades
que os olhares não conhecem
e só uma repressora
chamada razão
coíbe a tentação das mãos.
talvez de silêncios
se encha este poema
onde nos prometemos ardentes,
mas em que teimamos não pousar,
ainda que em fuga
como o fogo
corrente para a água
pensando:
é eterno o meu fervor
se me detenho em ti!
disfarçamos a sede…
quinta-feira, 13 de março de 2014
"Orfeu e Eurídice", de Olga Roriz, pela Companhia Nacional de Bailado
© CNB, Rodrigo de Souza [intérpretes: Filipa de Castro e Carlos Pinillos]
como um vento,
um rodopio de pensamentos
seduz-me e verga-me.
na crucificação da atracção
o grito toma corpo
numa dialéctica de lamentos.
há uma prece
e uma súplica de sangue
e um nome feito voz
em mortalhas de memória
por despir,
ecos do meu querer
feito pranto.
elevam-se voos de feminilidade,
bordados em mel
e na amplidão de asas.
sobre o frenesim de violinos,
sussurros espalham-se pelo chão
em pulsar universal.
desenha-se um círculo de âmbar,
sinto o intangível,
na ausência de ti
construo-te presença
em que só a pele te sabe
aroma recuperado,
abraço impraticável.
no reino de Hades
há jogos de invisibilidade
e cantam os anjos
serpenteando ,
por entre o vibrato das cordas,
a permissão de felicidade.
carregar-te-ei
rumo à vida.
segue-me! segue-me!
segue-me até que a tentação nos condene
e a multidão,
elegendo-se juiz,
nos separar territórios.
dançaremos!
encandeados pela luminosidade
que nos é visão
e cegueira.
depois…
depois, num labirinto de espelhos
a demanda de um rosto
que personifique a memoração
e justifique o crer.
depois…
depois fugirei,
tanto quanto possa
até ao lugar da morte
e aí me finarei
iluminado pela lua,
a única que ousa
roubar-nos em luz,
o sol.
domingo, 19 de janeiro de 2014
O Passado
Nem sempre é fácil, nos regressos, recusar aromas do
passado. Ao regressar a Paris, para formalizar o rompimento com o passado,
Ahmad, talvez não adivinhasse o quanto iria ter de mexer no seu passado, mas
sobretudo o quanto o presente iria dificultar os passos imediatos para o
futuro. Ao regressar, Ahmad, vê-se envolvido num trama de dilemas morais e
emocionais que, frequentes vezes, mais do que realidades, são suposições com
que as complexidades humanas fazem tremer os dias.
Quantas ruínas se poderão descobrir num regresso ao passado?
Quantas feridas, abertas por mal-entendidos, ficarão por sarar por não se
enfrentar, um regresso ao passado, com a capacidade de franquear a verdade e
desmistificar segredos?
Com este regresso a um conflito familiar, em “O Passado”, Asghar
Farhadi – vencedor do Óscar para Melhor Filme Estrangeiro 2012 – revela-nos
ainda que enquanto uns recusam aromas para romperem com uma vida passada de que
tentam fugir no presente, para outros a fragrância do passado é a forma de
devolver à vida quem se recusara a continuar presente.
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
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