terça-feira, 30 de junho de 2015

Traz-me

© Christoph Hessel

traz-me
um abraço de pássaro,
ou um voo.

imensas asas
vergam-se
aos olhares dos homens
deslumbrados
peitos abandonando a criança
que não nega,
acredita
e vai.

encontrar-nos-emos
nas infâncias escondidas,
nas copas das árvores
contando as pegadas
das vozes levadas

mas por esquecer.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Em gritos


segura-me a pele
que já se despega.
tenho um grito
cravado no ventre
e outro
gravado na memória
quando nas arribas dos corpos
se abrem desfiladeiros
por onde a Primavera corre
incendiando os poros
em Verão.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Ocaso


entardeço a cada pôr-do-sol,
para além de um horizonte
a que não chego mais do que com a fantasia.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Falésia


Passeio pela música como poderia ser no topo de uma arriba. Num contínuo agudo, melódico e encantatório, ouço as fragas que te chamaram. Tocas no mar. E os dedos salgam as teclas. O vento rasga a paisagem e um insinuador tango arrebata os sentidos. Quem lhe consegue resistir? Quem não se deixa tentar por esse afoguear dos corpos? Ouço-te. Sorris. Ris como quem se vangloria da vitória por ter antecipado a partida. As tuas mãos também riam, antes de partires. Seduziam a vida como só os génios conseguem. Deixam-nos partidos, músicas inteiras, tocadas antes da tua partida. Restam-nos tempos interrompidos, preenchidos com expectativas de excertos que se completem. Antes de partirmos.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Dias Especiais




era uma vez um tempo em que os dias especiais tinham data.

mas o rio da vida foi afundando esse sabor particular às datas que se distinguiam das demais.

hoje, os dias especiais não passam de casas meio vazias, por vezes habitadas pela surpresa de instantes dispersos que emudece as expectativas.


terça-feira, 16 de setembro de 2014

Por vezes...


trazes o cheiro a terra molhada
e versos, que não sabes,
escrevem-te desejos moldados ao corpo.
amanheces cores de madrugada
e eu lavo, em ti, meu olhar.
voa-te dos dedos a intransigência dos gestos,
mil vezes ensaiados em lençóis de linho vazio.
pouso a vida num teorema adiado
e desfaço em sementes o manto de solidão
... enquanto dizes bom dia
e me fazes caminho.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Ficarei *


ficarei!
um pouco mais
do que a despedida do sol.
para além
do caminho desenhado pela luz
e do adeus que prometo não dizer.
deixa-me ficar
no regresso do silêncio
que aplana o areal
e desvenda o espelho
onde o mar vem repousar.
deixa-me ficar
até que a maré
chame de novo
o coração ao mar
e o pesqueiro lance redes
onde o dia
nos virá acordar.


a partir da imagem entardecer, de sonja valentina



segunda-feira, 24 de março de 2014

Conselho

© Jen

não estendas o amor lá fora!
chove e ao frio retrai-se.
cá dentro há uma fogueira a pedir lume para arder.

sábado, 22 de março de 2014

Cárcere


desviem de mim os parcos raios de sol.
não quero calendários em contagem decrescente,
nem o merecimento de indultos,
enquanto tua volúpia me for cela,
sussurrando na escrita que me é ópio.

quinta-feira, 20 de março de 2014

A tua mão


a tua mão
esquecida sobre o meu peito...
esfriando na distância,
derrete a insistência de um fogo
há muito extinto,
congela horas cheias de vazio;
a tua mão
esquecida sobre o meu peito
é a fragilidade de abandonarmos vida.