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terça-feira, 27 de maio de 2014

Ficarei *


ficarei!
um pouco mais
do que a despedida do sol.
para além
do caminho desenhado pela luz
e do adeus que prometo não dizer.
deixa-me ficar
no regresso do silêncio
que aplana o areal
e desvenda o espelho
onde o mar vem repousar.
deixa-me ficar
até que a maré
chame de novo
o coração ao mar
e o pesqueiro lance redes
onde o dia
nos virá acordar.


* a partir da imagem entardecer, de sonja valentina



domingo, 4 de março de 2012

Ecos assombrados *


Moro na ilegibilidade do vazio,
endereço esquizofrénico da noite,
enlouqueço num monólogo repetido
e ensurdeço no sufoco da resposta
inventada porque impossível,
desmedida porque inexistente.
Soam ecos do que não sei ser,
a dúvida tece-se em obstinação
e a certeza entedia-se por não suceder.
Os pensamentos cruzam-se,
engradando a raia luminosa.
Esbate-se o negro em neblina,
seduzindo o olhar com ilusão,
mas por mim apenas passa
um laivo de esperança,
na cegueira embutida em solidão.

Lá fora,
dizem haver um bando de asas,
com rota definida…
e que os olhares repetem-se pelos dias.


* a partir da imagem meus silêncios, de sonja valentina

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Envelhecer *


Envelheci,

na espera
de que se abrisse…

o tempo a romper por mim
esse abraço,
desenferrujando guarnições,
enfrentando a luz,
desguarnecendo a dúvida…
diante de mim o espaço,
largo de futuro,
chamando-me,
esperando-me,
desesperando…
que o futuro também se esgota
e o passado torna-se uma espera

por onde passei

a envelhecer.


* a partir da imagem espera(r), de sonja valentina

quinta-feira, 24 de março de 2011

Cinza *


Cinza
sombra da cor,
reflexo da luz onde a alegria se esconde.

Cinza
superfície vazia,
eco de silêncio onde a vida se esbate.

Cinza
resíduos extintos,
marcha de despedida onde o adeus se senta
e a dor se levanta.




* a partir da imagem esquecimento, de sonja valentina

terça-feira, 1 de março de 2011

Por um... *


Procuro
na reminiscência dum olhar
a tradução do sentimento,
emaranhado de caracteres por explicar,
na ilegibilidade do dizer
decifro sinais de incerteza,
símbolos impressos de timidez
na teoria lúgubre dum desejo
e por esclarecer ficarão,
na sepultura duma sombra,
as certezas
gravadas no mármore duma lápide
por um amor que não viveu.


* a partir da imagem [sem palavras], de sonja valentina

sábado, 29 de janeiro de 2011

Cálice de luz


Na distância do Verão
silencia-se o sorriso,
longínqua dúvida
soprando o esmorecimento da vida.
Uma leda melodia
esboça em quietude o voo das nuvens.
Resguarda-se o olhar
no remanso do medo,
mergulham afundadas as estrelas,
sombras dum sacerdócio descrente.
Escorrem palavras pelos degraus
cobertas por um véu de delírio
e num cálice de luz
bebe-se uma réstia de esperança…
talvez amanhã chegue a Primavera.




* a partir da imagem mesmo que nada reste..., de sonja valentina

segunda-feira, 10 de maio de 2010

No trono do tempo *


Sento-me.
A demora não espera.
O tempo passa lá fora.
Espreita pelo vidro como se apreciasse uma natureza morta.
Olha-me com persistência como se esperasse que o fixasse nos olhos.
Como se quisesse recordar-me
que por mais que o ignore,
ele passa e arrasta-me no seu caminho.
Mas a verdade é que ele corre e eu fico.
Involuntariamente.
Aqui.
Sentado.
Neste lugar que torno trono do meu tempo.
Abro as mãos.
Estão vazias.
Levo-as à boca quando um aroma me acorda o olfacto da memória.
Uma luz entrou dentro de mim e acendeu a esplanada dum novo tempo.
Foi por este caminho que aqui cheguei.
É por essa felicidade que me demoro
nessa espera que tu chegues,
para ficares numa entrega sem tempo,
nesse lugar que te ofereço
diante daquele onde me sentei,
dentro de ti.

* a partir da imagem naquele lugar..., de sonja valentina

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Sombras em valsa



Danço num sonho onde não vejo a música. Diante de mim uma partitura ensaia, com esboços de figuras musicais, os passos que meus pés teimam em repetir. Alongo o tempo daquela valsa embebida em reflexos que o sol transforma em sombras. Umdoistrês, umdoistrês, umdoistrês, umdoistrês… há um ritmo sincopado na silhueta dum coração que se esconde na página por virar. Não sei se a folheie, se a desfolhe. Guardo na mão o perfume dessa folha que passou pelo olhar dos meus dedos. Despiu os sigilos no convite que não me fez, mas deixou-me na garganta um desejo engolido, solto nos lábios. Tomo-lhe a mão fria. Inflama-me em sangue num intervalo de beijos sem lugar. E enquanto os peitos se tocam, um ritmo desenha-se na indolência de duas sombras e a música dança num sonho que não vê.




* a partir da imagem entre o ser e o não ser, de Sonja Valentina

sábado, 20 de março de 2010

Um quarto dentro de mim *


Descobri, dentro de mim, um quarto por onde entra a luz discreta dum sorriso, como um feixe de poesia que aparta o ar e corta a pele. E nesse quarto há um céu onde o silêncio fala em ramadas de estrelas, presas no tronco imaginário dum corpo que dispo com o desejo do mar. E não se ouvem ondas, apenas o respirar das mãos nos dedos viajantes em busca das horas duma tarde onde acordar. E dentro desse quarto há uma constelação de cedros onde as luzes se projectam nos lábios acesos de sede. E os pássaros são bandos de certezas planando sobre um leito onde adormece a inquietude da paixão. Lá fora há um dia estendendo-se no esquecimento do tempo. E os teus braços são uma cortina de linho com que me fechas dentro deste quarto, onde moras.


* a partir da imagem Quietude, de Sonja Valentina

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Farol *



Perco-me no caminho
onde meus passos se encontram
num rumo sem destino.
Na orla da manhã
delimitam-me bermas
segurando as pegadas
que embebo em direcção ao mar.
Teu coração é meu farol
troando a cada vacilar
entre a melancolia e a confiança.

Do outro lado há essa imensidão
horizonte do teu sonhar
onde reina o teu olhar.
Em cada vaga que se ergue
suspendes a emoção
fundeada nos braços
presos à margem.
São teu farol
as palavras arremessadas
no vento indomável
que me exaure o peito.

'No fim da estrada'
há o oceano
e entre nós
um farol
que ritma os pensamentos
em chegadas a um cais,
perdidos nas marés
e atracados no regresso
de cada beijo.




* a partir da imagem No fim da estrada, de Sonja Valentina