sexta-feira, 9 de abril de 2010

Emudece-me o desejo


Emudece-me o desejo
numa boca aberta de segredos
que deixas voar
entre a madrugada em que te guardas
e os sonhos em que te escondes!

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Perguntas


Que força atrai dois corações suspensos em balançares diferentes e com segredos guardados?

Tons melancólicos


Que caminhos sinuosos tomam os silêncios
nas manhãs frias que gelam cumplicidades
nas águas frias da ausência?

Distanciam-se as margens
separadas nas sombras das palavras
esquecidas na humidade da memória.

São escassos os raios de sorrisos
penetrando a densidade de ramos melancólicos
que obscurecem esse percurso deserto
onde os vocábulos teimam em não entrar.

Há um brilho de luz sobre o mainel da direcção
onde, hoje, apenas restam pegadas
dos passos noutro tempo fogosos.

Esmorecem os impulsos do outro lado alcançar,
inventam-se degraus de incerteza
para deter a partida desejada.

Inquietam-se as mãos no mutismo
dum peito adivinhado na distância.
Derreter-se-ão as lajes de interrogações
no calor dos sentimentos adormecidos?

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Na crista da saudade


Desfraldo meu peito ao vento
confiante de ver chegar
a maré onde és fragata,
feérica em fragrâncias de paixão,
arremessada contra o cais
em sulcos penetrando no meu olhar.

És mulher com asas de gaivota
ou ave com perfume feminino.
Embriago-me antes de te beber
sorvendo memórias acordadas,
mordidas pela fome sem saliva
nos lábios ciosos de te beijar.

Nas mãos abrem-se-me desertos
outrora florestas apertadas,
desbravadas por dedos bailarinos,
navegantes de segredos embarcados
em presídios de línguas enroladas
na minha boca pela tua fechada.

Aquieto-me nesta hora infinita
prospectando tua voz no horizonte,
antecipo códigos ocultos nos peitos
a saciar num ansiado abraço
extinguindo o paladar agridoce
desta manhã nascida na saudade.

Confissão sussurrada


Tento-me dizer-te: “Vem, nem que seja fugazmente, acender um céu de Primavera no horizonte cinzento da ausência, onde a saudade é um pôr-do-sol que se eterniza!” Pura mentira de amante, pois logo quando partes inunda-me a perda e nem sou capaz de te revelar querer ser Verão infinito, em chama intensa ardendo nas mãos com que em teus lábios me seguras.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Cântico de amor


Faz da tua pele, meu manto
e do teu corpo meu leito,
antes que a noite adormeça
e a lua se afunde no mar.
Se no alvor ouvires um canto,
faz almofada no meu peito,
sossega nele tua cabeça
e esquece a manhã por chegar.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Pelo teu rosto...


Passo meus dedos no teu rosto
para ouvir o teu olhar.
Fala-me da invenção de sonhos
a que as mãos não chegam,
de territórios conquistados pelo coração,
onde plantas sementes a florirem amanhã.
E fecha-los…
para que os segredos não se ausentem
e não revelem as paredes em que te escondes.

Passo meus dedos no teu rosto
para sentir os teus lábios.
Molham-me num frio indiscreto
quando te deitas à beira-noite,
nos luares que te descobrem
areal desperto aguardando a maré.
E fecha-los…
para que os desejos não se esgotem
e não mostrem as histórias que protagonizas.

Encontro nos dedos,
que passei no teu rosto,
aromas infinitos de ti.
Guardo-os num bolso da memória,
para neles te inspirar. 

De mim


Escrevo para não calar
este pássaro que me voa no peito
em busca de ninho onde pousar.
Escrevo em linhas,
ramos tenros duma árvore
curtindo-se no avelar das palavras.
Escrevo para soltar o pranto
dum rio que corre sem foz
ferindo cada margem que me toca.
Escrevo em páginas doadas
por uma pele que se estende
num pedido juvenil para ser lavrada.
Escrevo para me encontrar
e tantas vezes me perco
num labirinto celestial
onde não sei ser nem luz, nem escuridão.
Escrevo para me derramar,
para me renovar,
para partir e adejar.
Mas acabo sempre por chegar
a este porto onde se atracam
as águas do meu ser.


domingo, 4 de abril de 2010

Na suspensão do voo

© Mikesi

Fica comigo na suspensão do voo
em que as nossas bocas se agarram,
permanece em mim com a certeza
de ser no teu céu que sei voar.
E mesmo que esqueçamos as asas,
os nossos olhares prender-se-ão
para encherem as horas apartadas
com cânticos roucos de gargantas
gritando vontades uníssonas.
Deixa ficar teus lábios nos meus,
não separes a tua da minha pele.
Pede-me para seguir tua rota
e em cada noite fogosa de amor,
coloca no meu leito mais uma pena
com que farei um novo ninho
onde te quero viver.

sábado, 3 de abril de 2010

... segurar a lua


Sonhei, um dia, segurar a lua!

Para quê?

Quem sabe se para comandar o dia. Porque a lua era redonda e branca. Gorda como quando cheia se espelha no mar e o parece incendiar de luz. Mas… era branca. Aquela cor que toma ao subir no céu, durante a tarde. Antes da noite chegar. Quem sabe se eu quereria ficar no dia… e impedir a noite de chegar…

Segurava-a num cordão onde atei dezenas de bandeiras. Nesse cordão liguei a vontade de dezenas de vontades se unirem nesta minha vontade de segurar a lua. Um querer conjunto de segurar o dia. Aquele dia em que muitos sonharam se unirem à lua.

E segurando a lua, viajei num barco de oceanos. Eram as águas que navegavam no meu barco. Era dentro dele que as marés aconteciam, quando eu queria, quando eu decidia… porque caso já não se lembrem, era eu que segurava a lua.

E não parei. Não sei se a viagem, se o sonho. Se o sonho de viajar… Se a viagem de sonho…

Quem sabe eu quereria não adormecer… e mais não sonhar… ou simplesmente ficar no sonho de, um dia, poder segurar a lua…