domingo, 9 de maio de 2010

Por mais que...


Por mais que me enraíze neste solo
onde os meus passos têm espaço,
há um voo em que embarco indomável.

Por mais que me segure a esta terra
que guarda o paladar do meu ser,
há uma noite irrefreável que me seduz.

Por mais que o dia grite o meu nome
em línguas arregaçadas ao sol,
é o teu que os meus olhos escrevem.

Abandono-me, então, em palavras
com que te enleio como abraço
e das sílabas tónicas faço beijos
depositados como dádiva em teu regaço.

Serpenteio num labirinto de horas
em busca dum minuto no teu peito,
soletro teu nome em loucuras confessadas
para preencher este vazio onde me deito.

E fico à espera que me respondas,
o silêncio é batente no meu coração
num mar ilegível onde te contemplo
com um vento de desejo preso na mão.

Por mais que me enraíze neste solo
é na tua sombra que meu sonho se acoita,
deixo-o ir feito brisa de Verão
em que te enrolas à minha procura.

sábado, 8 de maio de 2010

Jogo de memórias no vazio


Hoje, só tenho memórias
sentadas neste lugar vazio
onde costumo fixar teu olhar
e esquecer que há tantos momentos
onde no lugar em que te sentas
usam acomodar-se memórias
à espera que me olhes de frente
enchendo este enorme vazio
que sempre preencho com memórias
quando nele não vens sentar-te.

Clausura

© steelcity




Deixa-me tomar-te a virgindade dos sonhos
e penetrar nessa bíblia em que te transmutas.

Deixa-me procurar por entre a púbis das dúvidas sem nome,
os dedos que escrevem uma lama de noites
em que, segura, te deitas numa enxerga,
onde amontoas páginas de histórias escritas por outros
e que roubas para iluminar certezas.

Deixa-me ouvir os gemidos dos seios,
esconderijos do sarcasmo que te exalta
e tocar-te nos mamilos dos pensamentos
que se azedam de tão ocultos.

Implora-me e fecunda-me neste compêndio de ansiedade,
roja-me e acaricia-te nesta demora de verdade
e nas dores não arrecadadas, sara as feridas
que em ti não podes encarnar!

sexta-feira, 7 de maio de 2010

A vida na mão

imagem recolhida aqui

Se eu soubesse ler as linhas da mão
talvez percebesse que a vida não é vazia,
assim resta-me esperar que me dês a tua
para sentir que te enches na minha.

Sombras em valsa



Danço num sonho onde não vejo a música. Diante de mim uma partitura ensaia, com esboços de figuras musicais, os passos que meus pés teimam em repetir. Alongo o tempo daquela valsa embebida em reflexos que o sol transforma em sombras. Umdoistrês, umdoistrês, umdoistrês, umdoistrês… há um ritmo sincopado na silhueta dum coração que se esconde na página por virar. Não sei se a folheie, se a desfolhe. Guardo na mão o perfume dessa folha que passou pelo olhar dos meus dedos. Despiu os sigilos no convite que não me fez, mas deixou-me na garganta um desejo engolido, solto nos lábios. Tomo-lhe a mão fria. Inflama-me em sangue num intervalo de beijos sem lugar. E enquanto os peitos se tocam, um ritmo desenha-se na indolência de duas sombras e a música dança num sonho que não vê.




* a partir da imagem entre o ser e o não ser, de Sonja Valentina

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Há um lugar...


Há um lugar onde o sol se põe num céu de luar. O silêncio fervilha na bruma que embala a tarde. A neve arrepia os ramos que se despiram na partida dos bandos de aves que deles haviam feito seu poiso. Há um cenário sem som, pintado pela luz do entardecer. Um ecrã sem limites onde o horizonte se foca na distância do querer. No chão apagaram-se os trilhos de pegadas que ditavam os rumos. A luz desmaia sobre um banco que te aguarda. Senta-te nele, ao lado daquele lugar vazio que mora no meu coração quando te espero. Sente o arrepio de pele que a tua voz acorda no meu nome. E sossega. As folhas quebrarão o silêncio logo que as batidas do meu coração derreterem a neve, em passadas largas, para te marcar o ritmo da noite.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

À porta do amanhã



À porta do amanhã,
paro no teu olhar
e enquanto espero o convite para entrar,
prometo voltar a cada manhã
para me sentar no degrau do teu desejo
e sentir tuas mãos abrirem,
em sílabas de luz,
as portadas do meu olhar.


terça-feira, 4 de maio de 2010

Mar poente


Quando a angústia se torna um nevoeiro que me inunda a alma
e uma camada translúcida de dúvidas me alaga as paredes do peito,
gosto de sentir os teus dedos, na minha pele, derretendo num sorriso
essa camada gélida que encobre o mar poente onde me deito,
à espera dos teus braços que em mim se fecham, no abrir-te do coração.

domingo, 2 de maio de 2010

A tempo



Vou!
antes que o prazer se esgote
e o coração pare.
Vou antes que a tua pele me olhe
como um leito seco
e o olhar se afunde num deserto escamado.
Vou antes que a tua boca se feche
e as mãos se tolham na ceifa da sede.
Quando? Não sei…
espero que a tempo de te ouvir dizer:
Vem!!!

sábado, 1 de maio de 2010

Palavras com objectiva


Hoje,
vou estar aqui



... mas as fotografias da Sónia e as minhas palavras vão continuar,
lado a lado, até ao próximo dia 14!