Mostrar mensagens com a etiqueta anfiteatro da calçada. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta anfiteatro da calçada. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 13 de março de 2014

"Orfeu e Eurídice", de Olga Roriz, pela Companhia Nacional de Bailado

© CNB, Rodrigo de Souza [intérpretes: Filipa de Castro e Carlos Pinillos]

como um vento,
um rodopio de pensamentos
seduz-me e verga-me.

na crucificação da atracção
o grito toma corpo
numa dialéctica de lamentos.

há uma prece
e uma súplica de sangue
e um nome feito voz
em mortalhas de memória
por despir,
ecos do meu querer
feito pranto.

elevam-se voos de feminilidade,
bordados em mel
e na amplidão de asas.

sobre o frenesim de violinos,
sussurros espalham-se pelo chão
em pulsar universal.

desenha-se um círculo de âmbar,
sinto o intangível,
na ausência de ti
construo-te presença
em que só a pele te sabe
aroma recuperado,
abraço impraticável.

no reino de Hades
há jogos de invisibilidade
e cantam os anjos
serpenteando ,
por entre o vibrato das cordas,
a permissão de felicidade.

carregar-te-ei
rumo à vida.
segue-me! segue-me!
segue-me até que a tentação nos condene
e a multidão,
elegendo-se juiz,
nos separar territórios.
dançaremos!
encandeados pela luminosidade
que nos é visão
e cegueira.

depois…
depois, num labirinto de espelhos
a demanda de um rosto
que personifique a memoração
e justifique o crer.
depois…
depois fugirei,
tanto quanto possa
até ao lugar da morte
e aí me finarei
iluminado pela lua,
a única que ousa
roubar-nos em luz,
o sol.


domingo, 19 de janeiro de 2014

O Passado


Nem sempre é fácil, nos regressos, recusar aromas do passado. Ao regressar a Paris, para formalizar o rompimento com o passado, Ahmad, talvez não adivinhasse o quanto iria ter de mexer no seu passado, mas sobretudo o quanto o presente iria dificultar os passos imediatos para o futuro. Ao regressar, Ahmad, vê-se envolvido num trama de dilemas morais e emocionais que, frequentes vezes, mais do que realidades, são suposições com que as complexidades humanas fazem tremer os dias.

Quantas ruínas se poderão descobrir num regresso ao passado? Quantas feridas, abertas por mal-entendidos, ficarão por sarar por não se enfrentar, um regresso ao passado, com a capacidade de franquear a verdade e desmistificar segredos?


Com este regresso a um conflito familiar, em “O Passado”, Asghar Farhadi – vencedor do Óscar para Melhor Filme Estrangeiro 2012 – revela-nos ainda que enquanto uns recusam aromas para romperem com uma vida passada de que tentam fugir no presente, para outros a fragrância do passado é a forma de devolver à vida quem se recusara a continuar presente.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A Cidade [de Olga Roriz]



será a neblina uma barreira
ou um preâmbulo de partida?
de um corpo que se desdobra,
memória de um mapa por percorrer.
chove e mitiga a densa envolvência
de um piano minimalista
que se cega em repetição contigua
violada pela imposição de um violino.

horas que se acrescentam
à rotina dos dias,
abraços que se inventam,
visões de futuro
ou talvez retratos do passado,
corpo que permanece
no abrigo do desabrigo,
decomposição impossível de reciclar.

percursos de exaustão
em que nos perseguimos a nós próprios,
fuga às horas
na repetição de roteiros,
cantilena pela viagem de um repasto
que não chega.

pela paisagem multirracial musical
o desfile em metamorfose
dos transeuntes citadinos.
quadros de uma cidade edificada
nas ruas que correm dentro de nós!



segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Sangue do meu sangue


O cinema português, por vezes, permite-nos alertas que valorizam a escassez de meios com que trabalha. As restrições de recursos e as limitações orçamentais para produção ‘obrigam’ a criatividade; em vez de se conceber a janela desejada e engrandecida, há que explorar a[s] forma[s] diferente[s] de olhar para uma janela comum, quiçá cansada de tanto ser olhada.

Em Sangue do meu sangue, de João Canijo, não é argumento - por infelizmente terem entrado na nossa rotina as surpresas que o deixam de ser e as desditas a que nos habituámos - que nos prende nos 140 minutos de duração. São alguns pormenores técnicos, a que o realizador repetidamente recorre, que nos prendem e acabam por se transformar marca do filme. Detalhes que se constroem sem meios especiais, apenas usando a já referida criatividade, a imaginação e o cunho pessoal artístico.

São planos que concedem prioridade ao pormenor, focando detalhes eleitos com minúcia em detrimento de tudo quanto os rodeia. Importância que lhes é reforçada quando esse detalhe sai do ângulo de visão e tudo o que fica permanece carente de nitidez.

Um segundo pormenor é a quase ininterrupta permanência de uma ambiência sonora combinada com o som da cena tida como principal. Uma necessidade de alertar para a impossibilidade de apagar sons que nos rodeiam, se somos elementos dum universo onde não estamos sozinhos. Sons e ruídos que talvez não valorizemos, mas que existem e persistem para além da nossa escolha. A intenção de mostrar que os sons têm vida para além da nossa voz.

Porventura, com a mesma intencionalidade, Canijo recorre a planos que revelam mais do que a cena que teríamos como a principal. Planos que nos mostram a sobreposição de cenas e nos chamam a atenção para a relatividade que poderá ter o que consideramos mais importante. Para lá da janela que queremos observar existe um outro drama tão ou mais forte do que aquele que vive para lá da parede. Para lá da montra vive a intensidade dum sentimento tão ou mais verdadeiro do que aquele que nos é transmitido do lado de cá do vidro. Na divisão contígua a dor é tão insuportável quanto a que adivinhamos para lá da ombreira da porta.

Seremos muitos os fascinados pelo ritmo do cinema americano, pela sua capacidade de ficcionar o real, transportando-nos inúmeras vezes para um patamar imaginativo, mesmo quando nos relata o quotidiano. Porém, há cinema português a quem os parcos recursos proporcionados obriga a improvisar, a criar… talvez falando-nos com mais verdade da realidade.

Mais do que construir o que a câmara vai ‘olhar’, há um cinema português que explora as diversas possibilidades da câmara poder olhar o que todos os olhares podem percepcionar. E aí… existe Arte!

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Meia-noite em Paris, de Woody Allen

imagem recolhida aqui


Praças, cafés, escadas, esplanadas, quiosques, margens do Sena, boulevares, tudo transpira romantismo, tudo respira passado, tudo é Paris. Talvez só os sonhadores o sintam, o adivinhem, o palpem, o anseiem.

Woody Allen confirma-o e consegue-o realizar. Depois da meia-noite… no tal sonho acordado de quem muito deseja. Ali junto ao Sena, num determinado banco, numa certa loja, num café, num alfarrabista, o passado vive. Paris respira Hemingway, Fitzgerald, Cole Porter, Picasso, Matisse, Dali, Buñel, Lautrec, Degas…

Woody Allen leva-nos nessa irrealidade, por vezes secreta, outras inconscientemente sonhada, a idealizados tempos unindo com surrealismo o hoje e o ontem. Woody Allen conduz cada uma das épocas com as certezas colhidas na outra.

O presente magoa. O passado atrai. Nele vive a Idade Dourada. Mas apenas até que essa revelação – a constante busca do passado – se consciencialize. Apenas até à decisão de dizer adeus ao passado.

Paris é luz, é romance, é nostalgia. Paris até pode ficar mais bonita, com chuva… Romântico? Talvez só os apaixonados o sintam…Mas Paris permite[-nos] sê-lo! Paris permite[-nos] amar! Porque o passado não morre… depois da meia-noite!


sexta-feira, 10 de junho de 2011

Ilimitação do Corpo

© Helena Gonçalves

Na simplicidade do vazio,
o foco
antecipa o movimento
livre
em busca das fronteiras do corpo
sem limites,
crucificado
pela água,
na água,
endurecido
mas pulsante,
pulsos
latejantes,
asas,
ave,
cisne
no seu pedestal,
em dias maus,
que crescem para semanas,
que crescem para meses,
um ano
mau!
mau?
rei
edificando seu trono,
autoproclamando-se,
autocoroando-se…
num discurso mudo,
surdo,
incompreendido,
incompreensível
até ao desnude
do pensamento que se move,
movimento que pensa,
só o pensar não tem limites,
por isso o movimento não pára,
pensa
corpo sem limites
para além das fronteiras do movimento,
rei
do palco!


* "The Old King", de Miguel Moreira e Romeu Runa, por Romeu Runa; dias 9, 11 e 12 de Junho, no Teatro Camões


quinta-feira, 28 de abril de 2011

Uma Coisa em Forma de Assim




Nove coreógrafos escrevem, cada um, o seu conto. Assim… como se fossem sílabas, juntam gestos, ora em narrativa ansiando um epílogo, ora como um poeta que utiliza a dualidade deixando ao leitor a opção do significado. Um compositor percorre, nas teclas dum piano, trilhos que esboçam horizontes. Assim… como se idealizasse casas onde o movimento habitará. Umas de soalho quente onde os passos desvendam o pulsar do coração, outras de paredes naïf onde se reflectem olhares inventados, outras ainda com lume onde incandescem inspirações que não se seguram nos limites físicos. Nove coreógrafos e um compositor reúnem-se num palco. Assim… como se tivessem de matizar uma mesma tela. Os corpos são paleta, pincel e tinta. Os corpos são folha, caneta e palavra. Os corpos são partitura, nota e som. Os corpos são emissão, eco e silêncio. Dez autores e dezasseis intérpretes desenham sem forma. Assim! Uma coisa… em forma de assim. 

domingo, 27 de março de 2011

Babel [words] *

imagem recolhida aqui


As paredes erguem-se em torres escritas por sombras. Raças distintas povoam o mapa do palco caotizando a expressão em diferentes línguas. A percussão uniformiza os gestos, ensurdece as palavras que divergem. Delimitam-se barreiras imaginárias, fronteiras de identidades a preservar. Estruturas metálicas suportam vidros invisíveis, confins de movimentos gritados. Movem-se, mudam de centro, derrubam-se, levantam-se, concêntricas transformam-se em torre, monumento indevido. A comunicação corporal ensaia uníssonos controlados, mecanicamente dirigidos. A razão conduzindo o movimento-emoção. Limita-se a geografia dos pensamentos, das reacções, das análises. Criam-se territórios para a privacidade, refúgios para o eu. Sobrevive-se numa luta generalizada, em câmara lenta cega-se na defesa do individualismo, da crença, da comunidade. Isolando-se, trancando as portas já fechadas. São diversas as torres enraizadas, crescendo em direcção a um cume desconhecido, tido como o supremo, o sublime. Quem sabe se desconhecendo que no extremo mais ermo será, porventura, possível olhar para o solo e perceber que existem caminhos partilhados, fés comuns, destinos únicos que os prendem como movimento unido, na necessidade de compreensão, no abandono pela sobrevivência, na busca pelo entendimento… e quando as palavras faltarem, recorrer-se-á à pele que se toca e explica o que a verbalização não compreende.

* Babel de Sidi Larbie Cherkaoui e Damien Jalet [no CCB]

domingo, 30 de janeiro de 2011

'José e Pilar'

imagem recolhida aqui

Quatro anos na vida dum génio. O tempo de uma viagem. A de um elefante. Para traduzir, num documentário, o tempo de escrita dum livro de José Saramago, o realizador Miguel Gonçalves Mendes terá recolhido infinitas horas de película que resumiu em cerca de duas horas e meia. Se muitas das cenas são de momentos incontornáveis, como lançamentos, exposições ou homenagens, outras apenas são possíveis por um acompanhamento muito cerrado ao quotidiano íntimo de um casal que abriu as portas da sua residência, das suas divisões, mas sobretudo dos seus corações. José e Pilar mostra-nos a sucessão de dias de organização de agenda dum homem que já passara as oito décadas de vida e que chegara à profissão de escritor apenas duas atrás. Permite-nos entrar na dedicação duma mulher, à vida do homem que ama, abdicando, em muito, da carreira que fizera sua. José e Pilar expõe-nos as convicções de dois seres que, em algumas situações, se opõem com perseverança a crenças de muitos que os rodeiam. Fazem-no por convencimento, por doutrina, por estratégia, por insegurança? Fazem-no! Demonstram-no! Assumem-no! Como ao amor que os liga e guia. Dois seres que se necessitam e por isso se amam. E porque o documentário é pleno de espontaneidades, a prova desse amor fica mais transparente e mais consolidada. Intermitências da Morte foi o livro que me convenceu a ler Saramago. De seguida li-lhe As pequenas memórias. Contudo quando o fiz não valorizei a dedicatória do mesmo: “A Pilar, que ainda não havia nascido, e tanto tardou a chegar”. Os mais cépticos poderão sempre relativizar a verdade destas palavras. José e Pilar prova a sua genuinidade!

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

'Os livros que estou a ler' com Graça Morais

imagem recolhida aqui

Ainda gosto de ouvir histórias. Mais me encanto quando elas narram episódios vividos com personalidades que aprendi a ler, a ouvir, a olhar. No passado dia 12, sentei-me no auditório da Casa Fernando Pessoa, para assistir a uma conversa de Inês Pedrosa com Graça Morais, acerca de livros. A directora da casa anfitriã fez uma sucinta apresentação biográfica da pintora, aludindo às exposições patentes no espaço sobre duas obras de parceria de Graça Morais com Sophia de Mello Breyner Andresen: Orfeu e Eurydice e O Anjo de Timor. E foi por esta relação com a poetisa que a artista plástica iniciou a conversa testemunhando o deslumbre que lhe causara a escritora numa viagem que realizaram, integradas numa comitiva presidencial, à Grécia. Os trabalhos de Graça Morais que constituem a exposição Orfeu e Eurydice foram realizados em papel para partitura. O papel branco não lhe é confortável, revelou. E aquelas folhas, usadas pelo marido Pedro Caldeira Cabral para transposição de partituras clássicas, têm desde logo as linhas das pautas. Graça Morais enunciou alguns dos escritores com quem interpretou colaborações, na ilustração das suas obras escritas: Manuel António Pina, José Saramago, Augustina Bessa Luís, Miguel Torga, etc. Falou das suas primeiras experiências de leitura quando as bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian levavam a Trás-os-Montes, livros que tinham de ser lidos em cerca de quatro dias. Leitora especialmente de ficção, tem em A Sibila, de Augustina, um dos livros mais memoráveis por ter reencontrado nas personagens a vivificação das suas próprias tias. Natural de Vieiro, Graça Morais tem ascendências rurais, por parte da família materna, e algo mais erudita, por parte da paterna. Com conhecimento de causa, defendeu a importância do tratamento da terra para acreditar na vida. Os que, por exemplo, cultivam uma horta, argumentou, são estimulados pelo cíclico renascer; mesmo quando algo corre mal, sabem que será uma fase pois a Primavera voltará a regressar. Graça Morais falou ainda do seu fascínio por Cabo Verde e do seu interesse, enquanto leitora, por obras acerca do acto criativo. Referiu alguns livros que tem em mãos e que deixou como sugestões de leitura: Nelson Mandela, uma lição de vida, de Jack Lang ou O Livro da Consciência, de António Damásio. Confessou que se, hoje, tivesse possibilidade refaria as ilustrações de O Ano de 1993, de Saramago concedendo-lhes maior liberdade. E falou de África, da empatia que tem pelo povo daquele continente e da forma como ele interfere em alguns dos seus trabalhos.

Para quem esteja interessado, a Antena 1 transmite na íntegra, esta conversa, na próxima sexta-feira, dia 15 pelas 21h00.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

"Algibeira sem forro"

imagem recolhida aqui

“Trazia o Bilhete de Identidade na algibeira de trás. Deve ter caído… o que vale, é que toda a gente sabe o meu nome”

Eram três. Todos com o mesmo nome: Fernando. Aconteceu na passada quarta-feira, dia 22, na antiga livraria Buchholz, na Rua Duque de Palmela, em Lisboa. Fernando Dacosta, Fernando Arrobas da Silva e Fernando Tordo. Um escritor e ex-jornalista [conforme fez questão de esclarecer], um advogado e um compositor/poeta reuniram-se para falar. De quê? Das suas identidades, sem dúvida. Quando se fala do que se sente, do que se pensa, do que se vive[u], será impossível não revelarmos a nossa identidade. Três homens, ao longo de quase hora e meia, contaram histórias, reavivaram memórias, arrepiaram sentires.

O moderador João Morales lançou o mote perguntando onde estava, cada um deles, quando Fernando Tordo venceu o Festival da Canção, em 1973, com “A Tourada”, uma das muitas co-autorias com José Carlos Ary dos Santos. Foi o caminho para se falar da censura, de como a contornar, do que era o jornalismo antes do 25 de Abril, de como era obrigatório estar perante as câmaras da RTP.

Fernando Dacosta alagou-nos com as suas vivências e convivências com grandes vultos da literatura e do jornalismo como José Cardoso Pires, Baptista-Bastos, José Saramago, Raul Rego, Natália Correia. Transmitiu-nos o seu olhar sobre o País actual, sobre a recusa de muitas cabeças com elevado responsabilidade nacional em aceitar que Portugal é um País com muitos séculos de História e com as mais antigas fronteiras no espaço europeu. Fez passar uma mensagem de esperança, crente num povo que tendo sabido ultrapassar inúmeras situações de crise, conseguirá seguramente superar o momento actual que apelidou de ‘pastoso’.

Fernando Arrobas da Silva, recorrendo à sua especialidade, tentou justificar porque o poder judicial passa incólume às mudanças de regime e de ideologias políticas. Mas também contou histórias. Daquelas que estão nos bastidores do que chega à imprensa e conhecimento público. Cativou com pormenores policiais, de direito, mas também de humor. Nas suas próprias palavras, contou-nos uma novela baseada em factos reais e que terão justificado a sua passagem pela SIC, como convidado permanente do programa “Casos de Polícia”.

Fernando Tordo tem, quanto a mim, o poder de encantar e emocionar quando conta as suas ‘histórias’ e levou-nos a recordações dos tempos em que começou a trabalhar com Ary dos Santos, quando há quarenta anos atrás terá ido um dia, ali perto da Duque de Palmela, para ensaiar o “Cavalo à Solta”. Revelou-nos o fascínio sentido pelo poeta quando, ao fornecer-lhe a terminologia das corridas tauromáquicas, Ary dos Santos soube que havia uma figura intitulada de ‘inteligente’. Nas palavras do compositor, o poema terá corrido tal era a vontade de poder ‘brincar’ com o ‘inteligente’. Fernando Tordo põe a vida no que escreve, no que compõe, no que canta, no que conta. Fala de si sem cuidados. Expõe-se. É quase impossível não nos sentirmos tocados pela comoção perante episódios tão simples, mas tão magnânimes, quanto o que narrou sobre um telefonema da sua filha em que lhe transmitia, nesse dia, ter sido identificada com o seu irmão, João Tordo. A felicidade do pai ao embevecer-se com o prestigio que o seu filho vem alcançando.

E foi a cantar os seus filhos que Fernando Tordo encerrou esta tertúlia em que todos os que tivemos o privilégio de estar presentes, encontrámos um pedaço dos Bilhetes de Identidade destes três Fernandos. Como se estivéssemos num encontro de amigos, repartindo cumplicidades.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

"O Papel da Segunda Pele", de Vera Castro

imagem recolhida aqui

Lembro da Vera o seu carácter discretamente meticuloso, pormenorizado e perfeccionista. Algo que, para mim e não se me pergunte porquê, assentava na perfeição, na sua figura adelgaçada. Uma ilusória fragilidade cobria uma personalidade tenaz que, por sua vez, se dissolvia numa delicadeza e cuidados cristalinos. A Vera deixou-nos em Fevereiro passado, mas não o fez sem nos herdar com uma obra: O Papel da Segunda Pele. Numa edição da editora ‘babel’, este é o legado que Vera Castro passa aos que, ao contrário dela, ainda não concluíram as suas breves passagens pela vida. Na passada segunda-feira, dia 20 de Setembro, decorreu no Jardim de Inverno, do Teatro São Luiz, o lançamento formal do último projecto da Vera Castro, o ‘seu último acto’, nas palavras de João Lourenço, que a par de Miguel Honrado, Dalila Rodrigues, António Lagarto, Olga Roriz e Jorge Salavisa falaram das suas vivências com a Vera. Numa reunião de amigos, o actual presidente da administração da OPART enalteceu o altruísmo de Vera Castro quando nesta obra perpetua a memória de colegas de profissão como Nuno Côrte-Real e Jasmim de Matos, a coreógrafa enfatizou a introdução da própria Vera no livro agora publicado e a importância do mesmo para as gerações que transversalmente atravessaram a sua carreira profissional e artística. O antigo director do Teatro Nacional D. Maria II, também ele cenógrafo e figurinista, confrontou-nos com um questionar pedagogo sobre a importância do figurino nas artes cénicas e uma incursão conhecedora sobre o livro em que intervém enquanto um dos entrevistados por Vera Castro. Contudo, foi João Lourenço que apresentou o testemunho mais pessoal, mais vivo, mais emotivo de quem foi Vera Castro e do que representava para ela este seu derradeiro projecto. Memórias emotivas da mulher que vestiu o teatro e a dança, em Portugal, e fez questão de herdar a cultura portuguesa com uma obra sobre o figurino, para que uns lembrem e outros se documentem. O testamento duma mulher ‘sem idade’, simultaneamente uma homenagem aos que, com ela, partilham a aventura de desenhar a segunda pele que os intérpretes vestem, nos palcos, para seduzir plateias. Bravo Vera!

quinta-feira, 29 de julho de 2010

El Secret de Sus Ojos

imagem recolhida aqui

Quando o presente se enche de vazio e se parece ter chegado à estação derradeira inundada de nada, o passado torna-se caminho único. No álbum de lembranças começam a recolher-se instantes que parecem convictos, mas que acabam por transparecer a incerteza da recordação, a diafanidade do que foi vivido sem o ímpeto do querer.

Regressa-se a pormenores, agora, com o olhar da distância turvado pela necessidade de compreender melhor, detalhes forçadamente esquecidos e ignorados. Hoje a maturidade e a posterioridade permitem rever, com acrescentos, pedaços da vida armazenados nas memórias. Busca-se resposta e resolução para o que não se conseguiu contestar e explicar.

O que se faz para viver uma vida vazia? O que fazer quando o presente parece demasiado tarde para alterar o passado a que se fugiu? Escrever com verdade uma ficção. Não desistir de encontrar e de nos encontrarmos. Perceber que o amanhã também é futuro que nos pertence. Acreditar. Pegar no ‘temo’, que o inconsciente fez escrever nas horas perdidas duma noite solitária, e descobrir que apenas lhe falta o ‘a’ que a máquina se recusava escrever. E resolver avançar e constatar que, afinal, não são precisas palavras quando o segredo está no olhar.

Inquestionável, ainda que sem termos comparativos, o merecimento do Óscar 2010 do melhor filme estrangeiro, para El Secreto de Sus Ojos, do argentino Juan José Campanella. Sublime a simplicidade e beleza com que transmite como a resolução de pequenos instantes que se adiam, ou ignoram, podem encher uma vida que se tinha como vazia. No querer está a decisão.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Caetano Veloso no Coliseu de Lisboa

imagem recolhida aqui

Ao subir do pano, Caetano Veloso está na boca de cena secundado por três jovens que compõem uma banda de sonoridade rock. É nela que Caetano viaja, ao longo de aproximadamente duas horas, pelas canções do seu último álbum Zii e Zié. É nela que revisita alguns – poucos – temas clássicos, com esta nova roupagem.

Irreverência? Inquietude? Necessidade de mostrar-se actual? Capaz de acompanhar novas ondas musicais? Apto a cruzar os mais recentes céus da composição? Tentando captar novas gerações?

Caetano apresta-se para celebrar o sexagésimo oitavo aniversário, dentro de dias. Sim! Mexe-se no palco, tentando mostrar não os possuir. Mas sabemo-lo ser um sexagenário avançado. Traçou e percorreu um caminho que angariou infinitos fãs. E foi, quando se sentou sozinho, com o violão nos joelhos, para interpretar Desde que o samba é samba, que se viu o verdadeiro, o amado Caetano. Precisará de mostrar-se competente para abraçar novos rumos musicais?...

As interpretações dadas a temas como Trem das cores ou Força Estranha, ainda que cantadas em coro, pelo Coliseu lisboeta, nada lhes acrescentou.

No final, sai-se com o prazer de [re]ver, ao vivo, esta figura proeminente da música brasileira. Contudo, fica um certo sabor perdido de não ter havido mais daquele Caetano intimista que nos prende nos acordes viajantes pelo braço do seu violão e nas letras de tantos hinos que escreveu. Em mim, ficou uma certa saudade do Caetano evocador daquela figura discreta com quem me cruzei, numa noite dum ido Abril de 1987, no Rio de Janeiro…

sábado, 1 de maio de 2010

Palavras com objectiva


Hoje,
vou estar aqui



... mas as fotografias da Sónia e as minhas palavras vão continuar,
lado a lado, até ao próximo dia 14!

terça-feira, 30 de março de 2010

Estão todos bem!

imagem recolhida aqui

A que distância fica a realidade do que desejámos, daquilo em que acreditamos?

Frank Goode [interpretado por Robert de Niro] enviuvou há oito meses. Confrontado com a nova realidade, preenche os seus dias cuidando da casa, assumindo tarefas, até aí, exclusivas da sua falecida mulher. Pai exigente, empenhado em proporcionar todas as condições para que os seus filhos vençam na vida, trabalhou anos e anos na produção de PVC para revestimento dos cabos usados nas telecomunicações. As metragens que saíram das suas mãos são o seu orgulho por certificar-lhe o conforto de assim ter criado filhos detentores, hoje, de distintas carreiras. Separados por longas distâncias, Frank planeia reuni-los. Nas vésperas da data marcada, mune-se dos melhores condimentos para que a recepção se torne memorável. Mas inesperadamente vê-lhe anunciadas as impossibilidades de todos o visitarem. Restabelecido da decepção, decide surpreendê-los e parte ao seu encontro. Em cada cidade que visita acaba por ser ele o surpreendido ao perceber que a realidade não é aquela em que acreditara, aquela que lhe fora transmitida. Apercebe-se que, quiçá por força das suas exigências, com a conivência da mãe, todos os seus filhos fizeram-no acreditar possuírem carreiras e vidas familiares distantes da realidade. Refeito do choque, percebendo a insensibilidade que o tomou durante anos, Frank acaba por reconhecer que apesar da realidade ser diferente, Estão todos bem!

Everybody’s fine, de Kirk Jones, confessa-se uma comédia comovente, onde perpassa o desconforto da solidão, sugere a distância e incompreensão que se crava no seio familiar, enaltece o empenho e o respeito, mas acaba por nos mostrar que apesar de fugirmos da realidade, pela escusa de nos magoarmos, teremos de olhá-la de frente e descobrir que mesmo distante do que desejámos e daquilo em que acreditámos, deveremos avaliar os factos pela felicidade que proporcionam. E se assim é… estaremos todos bem!...

sexta-feira, 19 de março de 2010

A Single Man de Tom Ford


‘Acordar é ser… agora’. Numa manhã, um homem acorda com a decisão de reagir à incapacidade de esquecer a perda do seu grande amor. O passado desenha-se em retrocesso a partir do presente. Esse hoje em que ‘só os loucos poderão refutar a verdade de que o agora nada mais é do que o agora: é uma lembrança fria. Um dia mais do que ontem, um ano depois de há um ano atrás e que, mais cedo ou mais tarde, chegará’. A história desse homem vai sendo revelada perdendo proximidade com esse hoje. Esse agora em que pensamentos descarnados se mesclam com a personagem que todas as manhãs veste. Uma viagem lenta no tempo, nessa contagem de horas em que se arrasta à espera que o ponteiro se mova. Deixa-se comandar pelo relógio. Desistiu de ver o futuro. Ficou à espera que ela chegasse. ‘A morte é o futuro.’

Ao longo dum único dia conhecemos a vida do professor catedrático George Falconer. Na duração dum dia acompanhamo-lo na organização do puzzle da sua vida. Adivinhamos a sua decisão para desistir de esquecer quem lhe foi, inesperadamente, roubado.

Mas… talvez todos tenhamos um anjo-da-guarda. George teve-o. Um alguém que nos protege, que nos ilumina caminhos, que nos afasta da descrença.

Em A Single Man, de Tom Ford, são-nos mostrados a força, a dor, o sofrimento, a implacabilidade do amor personalizados num homem homossexual. É-o, contudo, de uma forma tão depurada, tão crua, tão sensível que nos assegura que a verdade do sentimento amor não tem de diferir em função dos seus intérpretes.

Tom Ford, na sua estreia como realizador e em que conta com deslumbrantes composições musicais de Abel Korzeniowski, tem a arte de nos proporcionar constantes e sucessivas surpresas ao longo de todo o filme. São frequentes os afastamentos dos caminhos para os quais nos havia parecido convidar. É assim até ao último instante. No dia em que George Falconer decidiu voltar a olhar para o futuro, eis que ela chega por vontade própria.



segunda-feira, 8 de março de 2010

Deixar de ver, de Pedro Cláudio



Deixar de ver, exposição de Pedro Cláudio patente na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, é uma contemplação de paisagens sonegadas a sonhos e extrapoladas para uma realidade, algumas vezes, intencionalmente difícil de identificar. Algumas das imagens, concebidas pelo fotógrafo integralmente a partir de poemas de Ricardo Reis, comungam de ambiências que nos permitem agrupá-las em universos característicos. Poderão ser neblinas indefinidas, ou desfocagens dissimuladas, adivinhando vultos no caminho do sonho. Poderão ser perspectivas que se abrem para o céu, instantes congelados pelo olhar revelando cartografias de leitura multifacetada. Voos sem limite acabando por aterrar na bainha do sol. Astros perdidos na definição de serem estrelas ou planetas iluminados pelo sonho de terem luz própria. Fronteiras na distinção entre o ver e o fantasiar. A força dum rochedo reinando no centro do mar ou a fragilidade dum ponto cardeal na imensidão cinzenta do céu. A luz natural dum dia acordando uma montanha, ou a luz artificial, projectada e cruzada a partir do interior de duas portas abertas frente a frente, entre a magia do dizer e entorpecimento de deixar de ver, para vaguear entre as palavras e as imagens.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Mafalda Arnauth



Desta vez, foi Mafalda Arnauth que me levou de regresso ao ciclo de concertos íntimos que o Teatro da Trindade e a Fundação INATEL vêm promovendo nos finais de tarde, de três quartas-feiras de cada mês. Como a própria referiu, terá sido uma fuga rápida ao projecto Rua da Saudade, num regresso ao estilo que mais lhe pertence. Nunca a ouvira ao vivo, mas como apreciador da sua voz e de algum do seu reportório, não poderia desaproveitar a oportunidade.

Mafalda Arnauth tem uma figura que se impõe quando pisa o palco. Pareceu-me que a conversação com o público não será dos seus predicados mais espontâneos. Percepção errada ou decorrente do facto de que estes concertos possuem tempo marcado. Contudo, denotou um notável profissionalismo ao saber usar os minutos com precisão e sem exteriorizar qualquer ansiedade em geri-los. Perante uma plateia esgotada que se alargava simpaticamente pelo balcão, as primeiras interpretações lembraram temas tradicionais como Hortelã Mourisca, Saudades de Júlia Mendes ou Triste Sina.

Mafalda Arnauth é autora de muitos dos fados que canta. Porém, os que elegeu para apresentação neste concerto, privilegiaram palavras de outros. De Vitorino, ofereceu-nos Tinta Verde, de Manuel Alegre, Flôr de Verde Pinho, antes de cantar os seus próprios versos em Da palma da minha mão. Dois instantes mágicos estavam reservados, sensivelmente, para o meio da actuação: primeiro, uma interpretação integralmente musical pelas mãos de Luís Guerreiro na guitarra portuguesa, Marco André Oliveira na guitarra clássica e Fernando Júdice no baixo acústico. O que é possível ler nas cordas de três guitarras que se acompanham, se estimulam, se separam mas nunca deixam de, juntas, nos fazer correr pelas vielas lisboetas, pelas correntes do Tejo, pelos voos das gaivotas aterrando em memórias que a história não esquece; em seguida O mar fala de ti, um lindíssimo poema de Tiago Torres da Silva, na quarta-feira, introduzido pela fascinante arte de Fernando Júdice, com que Mafalda Arnauth arrepiou o mais adormecido sentir. No percurso final a viagem fez-se por fados mais popularizados, como a Marcha do Centenário ou Vira da minha rua, instigando a participação dos espectadores.

Na dicção, Mafalda Arnauth tem um ‘carregar’ nos erres que para alguns é uma falha e para mim uma característica que a distingue e a identifica. Mafalda Arnauth tem o privilégio de encantar a cantar. Sabe e faz questão de cantar a dor do amar lusitano. Rapta-nos no sentimento com que se alia ao trinar das cordas das guitarras, como lágrimas e sorrisos que se mesclam na face de quem se emociona. Mafalda Arnauth canta com a agitação interior de quem sente e se apaixona pelo que faz, e inunda-nos nesse rio de sensibilidades que desagua num oceano tão português que fala de todos nós, os que acreditamos que vale a pena o amor, mesmo que magoe, desde que um dia acenda o sol, num céu de lágrimas.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Invictus


Quando um país vive no adormecimento duma separação latejante marcada por diferenças de cores, de crenças e de linguagens, não será suficiente a vontade duma maioria para apagar os rancores, a incredulidade e o confronto enraizados nos mais profundos e inatos alicerces do racismo. Haverá que recorrer à alma indomável dum líder sabedor de que a união fará a força, que assume o passado como isso mesmo: algo a que não se volta; que acredita no futuro como o único caminho para ser feliz.

Um líder que aposta na surpresa, no agir contrariamente ao que o outro prevê. Em Invictus, de Clint Eastwood, Morgan Freeman encarna o líder Nelson Mandela, que se empenha em mudar a imagem da África do Sul. Numa opção prioritariamente política, aproveita a organização da Taça de Mundo de Rugby, e os milhões de olhares que estão sobre o País, para provar que um novo sol brilha sobre a sua população.

Nelson Mandela acredita que a inspiração é o caminho para a mudança e para o sucesso. Os exemplos serão sempre coadjuvantes para isso. O exemplo é ele próprio. Ele será o instigador da confiança. Ele será o mentor que fará os outros reconhecerem-se na auto-confiança individual. Ele respeita e incita a respeitar. Ele distingue e ensina a distinguir. Ele reconhece e obriga a reconhecer.

O êxito arrasta a crença. O êxito provoca a valorização. O êxito une. Os resultados surgem porque a responsabilidade atraiu a segurança. Os cépticos tornam-se devotos. Quando as vitórias acontecem, esquecem-se as diferenças e um país ousa acreditar ir mais longe. Independentemente da raça, da fé, da admiração, da ideologia, um país uniu-se em torno do desejo de ganhar. E a África do Sul conseguiu! Porque houve um homem que foi ‘senhor do seu destino! Comandante da sua alma!’ e o exemplo para que outro homem sentisse que também o poderia ser. O País ganhou!!!