sábado, 18 de junho de 2016

Quero

obra por identificar

quero noites escancaradas 
sobre o frémito dos sonhos,
o degelo da carne
rasgando-se em poema,
quero o imperativo de um voo
sobre a incerteza da manhã,
o tremor do branco
sobre a aguarela do gesto,
quero o murmúrio da dança
no corpo já sem endereço,
o ensaio da linguagem
nos silêncios sem nome
e o dicionário de teu olhar
entregando-se
ao desvelo da leitura.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

No teu ventre


no teu ventre nascem flores
como só aos deuses é possível. 

“E aos mortos!”, querem fazer crer…

"na nascente da vida!", asseguro eu,
que lhes conheço a fragrância.

sábado, 17 de outubro de 2015

Anoitecendo


senta-se
na margem extrema da tarde,
na espera pela noite;
quando ela chegar
despir-se-á
até que o seu brilho seja marca
no oceano de breu 
que nos fecha o dia.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Leituras


Eram muitas as palavras que se acumulavam em linhas e parágrafos e páginas e capítulos que ela lia. Aglomeravam-se como as pessoas na carruagem onde a manhã corria, sobre carris, rumo a um destino que parecia comum. Interrompendo a concentração da narrativa que o autor lhe oferecia, sentiu o olhar a seu lado invadir-lhe as páginas. Uma brisa há muito não experimentada, tocou-lhe o âmago. Espontaneamente assegurou-se de que a leitura seria possível a dois pares de olhos. E a descrição que seguia começou a ser conquistada por um questionar exterior: o que o levaria a seguir as palavras que em leitura lhe oferecia? Começou a demorar o virar de página com um espaço de tempo em que adivinhava a leitura dele já terminada. Sentia-lhe fervilhar, como se a ficção fosse realidade, a descoberta, a aventura, o desejo. Aos poucos a cidade ia apoderando-se de passageiros e a carruagem vazando. Com as páginas folheando-se a caminho do epílogo, as estações guardaram todos os viajantes. Na longa carruagem, agora, só ele permanecia com ela. Lado a lado, numa proximidade inquietante. Todos os outros lugares vazios. Desnecessários. No meio dos parágrafos imaginou-se transparente como a musselina da blusa que trazia vestida. Sonhava! que palavras se escreviam a partir da sua imaginação e ele poderia lê-las. Dizer-lhe mais do que as escritas no seu livro e que nesta manhã partilhava, inverosimilmente, com um desconhecido. Subitamente, ele levantou-se, encaminhou-se para a porta e na paragem seguinte saiu. Sem uma única palavra, sem um único olhar para além do que lhe deixara pelas linhas partilhadas, sem rasto. O livro ficou por concluir… quantas histórias haverá por terminar porque páginas ficaram em suspenso?... quantas viagens se diluem porque os destinos não coincidem?...

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

se eu pudesse tocar-te...


se eu pudesse tocar-te
perder-me-ia na sinuosidade da descoberta.
se eu pudesse tocar-te
embalaria em sopros, suspiros e percussões em surdina,
afinaria as cordas que me atam em ansiedade,
as mãos flutuariam entre a forma e o desejo,
e inventaria a sonoridade das gargantas abafadas.
se eu pudesse tocar-te
desafinar-me-ia em cada teu canto,
curvilíneo poema de um corpo por encantar.

... e a sinfonia na espera por um compasso desapertando-se.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Traz-me

© Christoph Hessel

traz-me
um abraço de pássaro,
ou um voo.

imensas asas
vergam-se
aos olhares dos homens
deslumbrados
peitos abandonando a criança
que não nega,
acredita
e vai.

encontrar-nos-emos
nas infâncias escondidas,
nas copas das árvores
contando as pegadas
das vozes levadas

mas por esquecer.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Em gritos


segura-me a pele
que já se despega.
tenho um grito
cravado no ventre
e outro
gravado na memória
quando nas arribas dos corpos
se abrem desfiladeiros
por onde a Primavera corre
incendiando os poros
em Verão.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Ocaso


entardeço a cada pôr-do-sol,
para além de um horizonte
a que não chego mais do que com a fantasia.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Falésia


Passeio pela música como poderia ser no topo de uma arriba. Num contínuo agudo, melódico e encantatório, ouço as fragas que te chamaram. Tocas no mar. E os dedos salgam as teclas. O vento rasga a paisagem e um insinuador tango arrebata os sentidos. Quem lhe consegue resistir? Quem não se deixa tentar por esse afoguear dos corpos? Ouço-te. Sorris. Ris como quem se vangloria da vitória por ter antecipado a partida. As tuas mãos também riam, antes de partires. Seduziam a vida como só os génios conseguem. Deixam-nos partidos, músicas inteiras, tocadas antes da tua partida. Restam-nos tempos interrompidos, preenchidos com expectativas de excertos que se completem. Antes de partirmos.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Dias Especiais




era uma vez um tempo em que os dias especiais tinham data.

mas o rio da vida foi afundando esse sabor particular às datas que se distinguiam das demais.

hoje, os dias especiais não passam de casas meio vazias, por vezes habitadas pela surpresa de instantes dispersos que emudece as expectativas.