terça-feira, 11 de maio de 2010

Inconfidências


Sentou-se na mesa e estendeu o seu desejo sobre aquela folha branca que já cortejara de soslaio. Como se num acto de contrição fosse explorando a razão daqueles actos e compulsivamente confessando o incumprimento das contenções a que o obrigava uma lei que adoptara como caminho de vida. Escreveu como se o tempo duma vida precisasse ser derramado sobre aquela mesa para ganhar espaço dentro de si, para tomar um novo rumo ou, como devido, afastar-se daquele a que fora incapaz de resistir, mas não sabia se queria esquecer.

Escreveu sem saber se o fazia para se purificar ou se como confidência a partilhar garantindo que o testemunho não se diluiria nas memórias. Jogava palavras sobre a mesa como se fossem cartas dum baralho em que apostara para ganhar, mas sem a certeza de o conseguir. Soltava-as sem pensar. Na realidade, como fora incapaz de fazer quando sucumbiu ao que muitos chamarão de prazer e alguns de tentação.

Obcecadamente escreveu como se as palavras não parassem e atropelassem o cântico que se começara a ouvir como cenário musical inesperado. Absorto não deu pelo tempo passar, nem pelo significado das badaladas que ressoavam na torre da igreja.


2 comentários:

Moon disse...

Esse que descreves, fica agora à espera que lhe digam os significados do que escreveu. Não se zanga por não fazer passar a sua mensagem de forma clarividente. Usa os reflexos da Lua que se dissipam nas ondas da água. Outros há que seguem o raio lunar até às areias do fundo, contando estórias com a precisão de cortes cirúrgicos.

in: Conversas de uma tarde no Norte

© Piedade Araújo Sol disse...

belissima prosa poética.

um beij