sexta-feira, 30 de abril de 2010

Passos na tua pele


No barro da tua pele
deixo marcas dos meus passos,
sou ave à procura de voo,
presa em busca de refúgio.
Escrevo no teu caminho
pegadas do meu querer,
sou folha perdida no tempo
expectante de sentir teus lábios
desabrocharem, nos meus, a Primavera.


quinta-feira, 29 de abril de 2010

Há um lugar


Há um lugar a que não pertenço
mas onde me sento todos os dias,
à espera de me sentir como num coração
onde o meu pulsar seja a vida desse lugar.


quarta-feira, 28 de abril de 2010

Declaração II


É na fragilidade que te amo,
é com inquietação que o faço,
porque é na incerteza que caminho
para te abrir o coração
e mostrar a certeza do que sinto!

terça-feira, 27 de abril de 2010

A morte do amor


Há um sepulcro de amor
espalhado nas folhas
esquecidas pelo chão.

Sentimentos rasgados
pela verdade desfeita
no desguarnecer da mentira.

Sustem-se a lembrança dum nome
no rosto de identidade defraudada.

Em cada gaveta do tempo
calam-se versículos de paixão
recitados no habitáculo das madrugadas.

A noite cansou-se de desfazer
camas onde os olhos se cegaram
na opacidade da traição.

Restam sombras de vida
nas veias vazadas de fulgor
estancando a hemorragia das palavras
que pereceram com o amor.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Fragilidade



Até a sinfonia mais heróica se fragiliza quando interceptada pelo inesperado dum raio frio de silêncio.

Partitura


Numa mão trago o coração,
na outra a tua mão,
que canto mais singular, os meus  olhos ouvem,
quando, sob a batuta dos meus passos,
escreves o ritmo dos teus sonhos
na partitura que te ofereço
em forma de vida por preencher[es]...


domingo, 25 de abril de 2010

Segredos [s]em forma

© morrow

Abri um pedaço de peito
e moldei-o à tua passagem,
nas mãos guardo as formas do teu corpo
onde o meu esconde os segredos do desejo.

Oferenda

© S-t-r-a-n-g-e


Serenamente
regresso
àquela praia
onde nos teus dias
mergulho.



Recolho
um punhado de felicidade
que se esvai,
no tempo duma ampulheta de areia,
por entre os dedos abertos
que se te oferecem…
enquanto a vida se esgota
sem ti.

sábado, 24 de abril de 2010

[Des]Ilusão


Enchem-se de [des]ilusão
as horas estendidas pelos dias
de pegadas repetidas nas areias
onde a maré teima em não chegar.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

A verdade da mentira

© De-mure


A verdade é que quanto mais fingimos acreditar na mentira,
mais nos enganamos e distanciamos da nossa verdade!

quinta-feira, 22 de abril de 2010

A extensão da fogosidade


Por mais extensas
que as minhas palavras sejam,
nunca nelas lerás
o que te digo
na fogosidade dum olhar

Acordar amanhã


Acendo em cada parede
o branco imaculado por violar.
Meio algodão, meio cal
estendo os meus dedos por esse vazio
como se lençóis fossem onde me deitar.
Capaz eu fosse de cerrar os olhos
e com eles este presente
onde os pilares de amanhã tremem
na melodia por compor.
Contemplo o molho de chaves
que os dias me oferecem como percurso
para alcançar uma árvore de sonhos aferrolhados
em combinações secretas
que os pássaros um dia levaram
para inventar novas paixões.
Estremece-me o olhar quando leio
o branco brilhante que eu próprio escrevi
em cada uma das paredes com que me fecho
e cubro a incapacidade de alumiar a sombra
que me capeia o medo
de não saber acordar.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Ilusão


Nem toda a vida adiada caberá no futuro que nos resta!

Voo preso no porto

© Helena Paixão



Trazes um voo rasante de gaivota
nas mãos com que rasgas o peito da tarde
para desvendar puridades
cravadas no empíreo do teu olhar.

São nuvens de resistência desconhecida
os trilhos de memórias a que não pertenço,
franqueias-me o abrigo dum porto
em rumos explorados sem guia.

Contemplo a melancolia das redes
serenas no esperar das horas,
inquiro-me se suas malhas serão capazes

de escorar o amanhã, sem que te percam.

Atracam-se no cais as traineiras
onde embarcas sonhos de recordações,
partiram para descanso os marinheiros
e tu tomas a proa dum mar por enfrentar.

Permaneço num abrir de peito
onde te sinto as mãos, leme sem destino...
arrastam-se as gaivotas num voo planado
e eu, desembarcadouro de dias por agarrar,
percebo que só os seres alados
poderão ter a veleidade
de navegar sem âncora
nem a cabos aprisionados.


terça-feira, 20 de abril de 2010

Desventuras ao largo


Imperceptível ao desejo,
sopra na vela daquele navio
um vento acre de ciúme
quando o marinheiro sucumbe
à sedução marítima dum novo porto.

Secam na garganta

as sílabas crestadas pela traição
que a pele não evitou beber
ávida dum êxtase por descobrir.

Quando o corpo acorda saciado
na areia duma cama não dormida
há um cheiro a pão quente que lhe evoca
a distância por cumprir até chegar
ao porto seguro de regresso.

E por entre os dedos sobram
restos de tentação por mascar,
impregnando a carne com confissões
que o álcool do amor não saberá perdoar.


segunda-feira, 19 de abril de 2010

Na ilusão do sentir...

© not-yet-forgotten



… surpreso
… resisto
à tentação de perceber
se o que senti no meu rosto
foi o calor da tua mão,
a intensidade do teu olhar
ou apenas uma brisa da tua ausência…

domingo, 18 de abril de 2010

Mar em ti



O mar invade teus seios
como as minhas mãos
naquela noite de luar
em que as estrelas
se apagaram para ouvir
o silêncio gritar teu nome.

Os grãos de areia
intumescem as dunas
onde o vento hesita
entre a chegada e a partida
do lume que os dedos desenham
nas grutas de teu corpo.

Ficam na tua pele
algas soltas dos lábios
com que o sol beija amanhã.
Deito-me no teu sono
sentindo escorrer o pólen
que num voo asfixiado
transformas em sémen
do mar a que te entregas.

Nesse instante,
encho-me em marés no teu corpo.

sábado, 17 de abril de 2010

Desejos duma tarde de Março

imagem recolhida aqui

Quereria eu que fosses menina
correndo, através dos anos, na areia
onde, pela mão, me levaste um dia
e eu duna onde te deitas,
a cada regresso, para eternizar os sonhos.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Poetas sem poesia


Tristes dos que tentam ler poesia com a ambição de a escreverem.
Nunca a saberão sentir, cegados pela obcecação de a superar.
Poeta não é o que redige para ser lido, mas o que o faz para oxigenar o coração.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Em demanda da bonança


Enquanto os pescadores procuram
o barco perdido na tempestade
e os poetas
o verso diluído pelas lágrimas,
tento espreitar por detrás das nuvens
e encontrar palavras que acendam estrelas
no céu da saudade.


À espera de nós

© Maxey


Atravesso a tua imagem e não te reconheço, perdido em pensamentos que te procuram realidade feita pó expirado no prazo de entrega por acontecer. Percorro o rio seco e pergunto-te aos peixes recolhidos nas árvores onde as folhas guardam gotas do último dilúvio e lhes ensinam a verdade da míngua. Dizem-me nada te saber. Uma torrente de paixão terá levado o caudal para o mar e uma tempestade de ausência desviado a água da nascente para outro leito. Também eles, se soubessem, chorariam a dissipação de nós. Mas são simples joguetes do destino a quem roubaram o tabuleiro onde se moviam sob vontades que não dominavam. Agradeço-lhes inebriado por um desencantamento trôpego que afasto com as mãos do querer continuar. Permaneço na margem à nossa espera.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Já não sei voar...


É tão longa esta estrada onde, hoje, os meus passos se perdem de ti, afundando-se num lodo do esquecimento. Derretem as cores das palavras que antes por aqui galopavam na necessidade de te dizer que eras o caminho único dos meus dias. Já nem as mãos guardam o perfume das tuas como malhas onde se entrelaçavam, seguras de terem ancorado no porto desejado. Queimam, nas minhas costas, fogueiras acesas em noites de paixão mas que o fogo foi esquecendo de atear. São as folhas rejeitadas pelo Outono que me oferecem trilhos para pisar. É tão árduo o meu caminhar que, nos pântanos que se me abrem, os nenúfares já não resistem ao pousar duma borboleta e antes de chorarem, mergulham para abraçar as raízes. Desfocaram-se os teus braços onde eu desejei me enraizar. E hoje o meu mergulho desconhece o retorno. Afundo-me nesta estrada tão longa sem te encontrar no meu destino. Ter-te-ás perdido nalguma orla? Ou ter-te-ei deixado fugir nalgum desvio longe do meu olhar? Hoje percebo já não saber voar...

Partida sem adeus


A sombra dos continentes
distancia-se na vastidão do oceano,
há um Verão que arrefece
no esmorecimento das palavras,
esquecem-se os olhares
no fulgor dos peitos
apagado no espaço
duma viagem sem regresso.

terça-feira, 13 de abril de 2010

[IN] serenidades


São de mãos
os nossos lábios que se agarram
no sonho de dois corpos
acordados no deitar dos dias.

Embrenham-se pensamentos
na humidade salivar
das peles que transpiram
um desejo por adormentar.

Tocam-se os olhares
desvendados no raiar alvorejante
de duas bocas que se seguram
no prelúdio dum beijo.


Viagem ausente


Há um sabor de viagem
nesta permanência de estar
na tua ausência.
Sinto falta do eco das tuas sombras
no soalho dos meus passos.
Ouço minhas mãos gritarem desapertadas
num vale aberto
para apartar as nossas encostas.
Sobra um sorriso sem densidade,
em que as palavras se afundam,
nesta viagem perdendo o sabor
de data para regressar…

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Devaneios confessados


Conseguisse eu escrever
o que os poetas não lêem
e não te diria
serem teus lábios guloseimas
cobertas de chocolate
com que sulco a linha da vida
nas palmas das mãos
onde te trago.


À espera do tempo



Estava, sem que soubesse, na paragem à espera do tempo. Do tempo passado que precisava guardar numa caixa esquecida a que precisava voltar apenas para lembrar como não fazer. Esperava pelo tempo presente que me levasse num qualquer transporte para outro tempo onde fazer futuro. Passaste por mim. Não sei. Já não me lembro se te procurei. Mas avistei-te e chamei-te sem saber quem eras. Apenas porque as tuas palavras eram redes onde guardavas descobertas e descobridores, histórias e historiadores, sonhos e sonhadores. Eu que esperava pelo tempo, vi-te passar. Deste-me boleia para um tempo presente onde as tuas redes se abriram e as minhas palavras se prenderam. Sem pressa do futuro corremos. As palavras, as redes, as surpresas, os tempos, os presentes prenderam-se. Quando olhámos as palavras, os tempos, os presentes entrelaçavam-se num enrodilhado de segredos sonhados. Ou talvez fossem sonhos por segredar… Nos tempos abriram-se novos tempos e hoje, nas redes, guardam-se memórias, histórias, descobertas e sonhos que são nossos. De nós que ficamos em consecutivas paragens à espera que o tempo passe por nós e nos dê boleia para amanhã.

domingo, 11 de abril de 2010

Saudade



A saudade é um presídio de asas cegadas pela indefinição de retomar o voo perdido

Entra e fica em mim


Entra e fica em mim
como um sol que pede para passar a noite,
traz a serenidade das montanhas
e sopra-me a certeza de ficares
feita mar na firmeza de não partir.

Entra e fica em mim
como leitura interminável
decifrando caracteres enigmáticos do meu ser
escritos antes de existir
a espera dum abraço vestido na permanência.

Entra e fica em mim
como passos de destino único,
traz o fresco matinal nas mãos
e molha-me com os lábios melados
de antídoto certificado contra a ausência.

Entra e fica em mim
como névoa que se dissipa
revelando os cumes dos teus sonhos
na crença de seres luar
nas noites infindas de futuro.

Entra e fica em mim
como estrela que a cada dia
... em mim se põe.

Um instante no tempo



Tento deter no tempo, um instante
onde os olhares rumorejaram
na incerteza segura de quererem ficar
tão sós quanto a ilusão permita
pensarem-se incógnitos na multidão.


Detenho-me em frente ao espelho
na procura desse instante em mim,
mas não me encontro nessa névoa
de corpúsculos fragilizados em versos
roubados a pensamentos esmorecidos.


Há um tremor líquido nas lágrimas
que choro para me encontrar
neste tempo em fuga dum instante
onde os gestos correram carícias
numa pele percorrida devagar.


Dispo a solidão da madrugada
descascando favos de memórias,
procuro no rendilhado dos dias
um instante para deter o tempo
onde me encontre em mim.

sábado, 10 de abril de 2010

Inquietudes


Inquieta-me
a indomabilidade do mar,
a imprevisibilidade do fogo,
a indefinição do nevoeiro,
a imensurabilidade do fumo.


Inquieta-me
a impalpabilidade da melancolia,
a insustentabilidade da mentira,
a finitude da Primavera;
a inexplicabilidade do sentir.


Constrangem-me
os paralelismos com o amor!

Na força da noite


Espreito pela janela. É a noite que está lá fora. Inúmeras luzes artificiais tentam iludir a escuridão, mas se se apagarem é a força da noite que prevalece. Não pode o homem alterar o rumo do que ALGUÉM determinou. As nossas capacidades de ser humanos são ínfimas e nunca suficientes para determinar o que já foi decidido. O que poderemos nós se não prosseguir no percurso que nos foi escolhido e sonhar que, por vezes, nos iludiremos julgando-nos habilitados a decidir o amanhã? E se nos cansarmos de sonhar?...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Sonhos...


Os sonhos são dias que se empilham na esperança de voar até alcançar o cume,
face privilegiada da felicidade invariavelmente mais próximo dum sorriso...
de sol... que derreterá o gelo da saudade.

Emudece-me o desejo


Emudece-me o desejo
numa boca aberta de segredos
que deixas voar
entre a madrugada em que te guardas
e os sonhos em que te escondes!

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Perguntas


Que força atrai dois corações suspensos em balançares diferentes e com segredos guardados?

Tons melancólicos


Que caminhos sinuosos tomam os silêncios
nas manhãs frias que gelam cumplicidades
nas águas frias da ausência?

Distanciam-se as margens
separadas nas sombras das palavras
esquecidas na humidade da memória.

São escassos os raios de sorrisos
penetrando a densidade de ramos melancólicos
que obscurecem esse percurso deserto
onde os vocábulos teimam em não entrar.

Há um brilho de luz sobre o mainel da direcção
onde, hoje, apenas restam pegadas
dos passos noutro tempo fogosos.

Esmorecem os impulsos do outro lado alcançar,
inventam-se degraus de incerteza
para deter a partida desejada.

Inquietam-se as mãos no mutismo
dum peito adivinhado na distância.
Derreter-se-ão as lajes de interrogações
no calor dos sentimentos adormecidos?