sexta-feira, 19 de março de 2010

A Single Man de Tom Ford


‘Acordar é ser… agora’. Numa manhã, um homem acorda com a decisão de reagir à incapacidade de esquecer a perda do seu grande amor. O passado desenha-se em retrocesso a partir do presente. Esse hoje em que ‘só os loucos poderão refutar a verdade de que o agora nada mais é do que o agora: é uma lembrança fria. Um dia mais do que ontem, um ano depois de há um ano atrás e que, mais cedo ou mais tarde, chegará’. A história desse homem vai sendo revelada perdendo proximidade com esse hoje. Esse agora em que pensamentos descarnados se mesclam com a personagem que todas as manhãs veste. Uma viagem lenta no tempo, nessa contagem de horas em que se arrasta à espera que o ponteiro se mova. Deixa-se comandar pelo relógio. Desistiu de ver o futuro. Ficou à espera que ela chegasse. ‘A morte é o futuro.’

Ao longo dum único dia conhecemos a vida do professor catedrático George Falconer. Na duração dum dia acompanhamo-lo na organização do puzzle da sua vida. Adivinhamos a sua decisão para desistir de esquecer quem lhe foi, inesperadamente, roubado.

Mas… talvez todos tenhamos um anjo-da-guarda. George teve-o. Um alguém que nos protege, que nos ilumina caminhos, que nos afasta da descrença.

Em A Single Man, de Tom Ford, são-nos mostrados a força, a dor, o sofrimento, a implacabilidade do amor personalizados num homem homossexual. É-o, contudo, de uma forma tão depurada, tão crua, tão sensível que nos assegura que a verdade do sentimento amor não tem de diferir em função dos seus intérpretes.

Tom Ford, na sua estreia como realizador e em que conta com deslumbrantes composições musicais de Abel Korzeniowski, tem a arte de nos proporcionar constantes e sucessivas surpresas ao longo de todo o filme. São frequentes os afastamentos dos caminhos para os quais nos havia parecido convidar. É assim até ao último instante. No dia em que George Falconer decidiu voltar a olhar para o futuro, eis que ela chega por vontade própria.



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